4 dias conhecendo Manaus e a Floresta Amazônica

No começo do que seria meu 3o. ano do segundo grau, eu e minha família nos mudamos para os Estados Unidos. Quando meus colegas na nova escola americana ficavam sabendo que eu era brasileira, muitos perguntavam se eu já tinha visitado a Amazônia. Na época, eu achava a indagação totalmente jacu e respondia um “óbvio que não”. Afinal, na minha cabeça, ninguém que morava no sudeste visitava a Amazônia. Era muito longe e acima de tudo, inacessível. Tipo, só tem mato por lá, né?

Ainda bem que as coisas mudam e os tempos e as pessoas evoluem. Em uma era pré plano real, onde ninguém viajava tanto e a internet era um esboço, Manaus e a floresta realmente pareciam pertencer somente aos livros de geografia. Hoje, eu acho imprescindível conhecer este importante patrimônio natural. Jacu, na verdade, é ter menos interesse que os gringos pela história e belezas do nosso país. 

Dos onze estados brasileiros que ainda não conhecia, o Amazonas estava no topo da lista de próximos destinos. Resolvi, então, aproveitar umas milhas e passar uns dias pela capital e também me aventurar “mata adentro”. O legal é que com três ou quatro noites dá para visitar os principais atrativos de Manaus e ainda se hospedar ou passar o dia em um hotel na floresta para curtir atividades diferentes que só estão disponíveis por lá: pescar piranha, participar de uma focagem de jacaré, fazer trilhas pela Amazônia e curtir o clima relax (e úmido) da natureza à sua volta.

Também tem vontade de conhecer os encantos manauaras? Se inspire em nosso roteiro de 4 dias para visitar Manaus e a Floresta Amazônica.

1o. Dia: Centro Histórico de Manaus e Bosque da Ciência/MUSA

Comece o dia no Largo de São Sebastião, visitando o belo Teatro Amazonas (visitas guiadas de 45 minutos de seg a sab, das 9h às 17h, em inglês, espanhol ou português por R$ 20. Tel: (92) 3622-1880 / 3622-2420). O teatro, um dos maiores legados do Ciclo da Borracha, tem uma arquitetura eclética que abriga uma história riquíssima. Considerado umas das melhores acústicas do mundo, a casa de espetáculos ainda serve de palco para apresentações das mais variadas: consertos de música clássica ou de hardcore, coreografias de balé ou de danças folclóricas etc. E o melhor, os ingressos costumam ser super acessíveis! Quem sabe não está passando algo legal enquanto você está pela cidade? (Cheque a agenda de eventos do Teatro Amazonas aqui).

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Linda fachada e cúpula do Teatro Amazonas em Manaus.

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Casa de Espetáculos do teatro e à direita, camarim antigo dentro do teatro Amazonas.

Saindo do teatro, passeie pela praça que é limpa e bem conservada e tem várias construções interessantes ao redor. Ali estão a Igreja de São Sebastião, algumas casas históricas, uma versão compacta do MUSA (Museu da Amazônia), uma unidade da Sorveteria Glacial (com sabores locais e tradicionais) e a famosa barraquinha da Gisela, que vende o tradicional tacacá.

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Centro histórico de Manaus, os estudantes lotam a praça! E a Igreja São Sebastião ao fundo.

É impossível realmente conhecer uma cultura sem experimentar a culinária local. Então aproveite e se jogue no tacacá da Gisela! Há 12 anos na praça, a barraquinha já faz parte da história manauara! Mas que diabos é isso? Servido em uma cuia, tacacá é um caldo quente de origem indígena, típico da Amazônia. A receita leva tucupi (caldo de mandioca), goma (amido da mandioca), jambú (erva de sabor picante), camarão seco e condimentos. Além de experimentar a iguaria, aproveite para conversar com o Seo Joaquim Melo, dono da barraquinha, que também é pesquisador e mestre em História e Antropologia da Amazônia!

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Barraquinha de Tacacá da Gisela no Largo São Sebastião/Manaus. O Seo Joaquim é bom de papo e tem muito o que contar!

Caso queira almoçar pelo centro, sugiro o tradicional Bar do Armando para petiscos, ou o restaurante Tambaquí de Banda, que tem vários pratos com esse famoso peixe regional. Para gastar as calorias do almoço, pegue um táxi e vá até o Bosque da Ciência (entrada gratuita). O local é um centro de estudos da universidade, parte do INPA (Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia). Há alguns animais silvestres em cativeiro, a maior parte em recuperação antes da soltura na natureza. O mais visado pelos turistas é o aquário do peixe-boi, onde dá para observar este lindo mamífero se alimentando e nadando. Nós acabamos fazendo amizade com uma bióloga que também nos mostrou a ala das ariranhas, onde uma fêmea recém resgatada fazia mil estripulias. Valeu o passeio.

Aquário peixe-boi Bosque da Ciência (INPA)

Conhecendo os peixes-boi no Bosque da Ciência em Manaus.

Jacaré e "pequena" folha da Amazônia no Bosque da Ciência.

Jacaré e “pequena” folha da Amazônia no Bosque da Ciência.

Outra opção caso não esteja chovendo é conhecer o MUSA Jardim Botânico, onde dá para fazer duas trilhas por um trecho de floresta em perímetro urbano e subir uma torre de 42 metros para admirar os pássaros nas copas das árvores. Como pegamos muita chuva nesse dia e já iríamos nos hospedar na Amazônia, acabamos pulando esse passeio.

À noite fomos jantar no Banzeiro, o restaurante mais famoso da cidade. O lugar é simples, mas muito premiado e disputado, por isso o recomendado é reservar uma mesa com 1-2 dias de antecedência. A estrela da casa é o pirarucu, preparado de modos diversos. Nós experimentamos o peixe com crosta de castanha-do-pará, acompanhando um arroz com brócolis e banana assada. O prato que serve bem duas pessoas custa R$ 114. Caso queira tomar um vinhozinho, se prepare, a carta tem preços salgados, com uma média de R$ 120/garrafa.

Restaurante Banzeiro, ótimo prato: Pirarucu com castanha-do-pará

Ambiente do Restaurante Banzeiro e prato Pirarucu com castanha-do-pará

2o. Dia: Mercado Municipal e Passeio Encontro das Águas com Banho com os Botos 

Lembra das aulas de geografia sobre o encontro das águas do Rio Solimões (de cor barrenta) e do Rio Negro (com coloração escura) que a princípio não se misturam e depois formam o Rio Amazonas? Há um passeio para observar esse fenômeno da natureza. Apesar de ser possível ver o encontro a partir dos hotéis na floresta, os preços são bem mais elevados e normalmente não incluem o banho com os botos, então recomendamos fazer o passeio a partir de Manaus.

encontro das águas do Rio Solimões e do Rio Negro

O encontro das águas do Rio Solimões e do Rio Negro, que formam o Rio Amazonas.

Vários barqueiros e agências de viagem anunciam pacotes para a atração, todos incluem as mesmas atividades e o almoço, variando somente no preço (um mesmo barco leva pessoas de agências diferentes, que pagaram preços variados). Agências cobrarão entre R$ 210 a R$ 300 por pessoa, enquanto se você agendar diretamente com o barqueiro, pagará entre R$ 150 e R$ 180. Nós conseguimos o contato do famoso Comandante Cuandu (92 99226-4158), que cobrou somente R$ 150.

O passeio sai às 9h do porto, atrás do Mercado Municipal. Sugiro chegar umas 8h para conhecer o mercado e quem sabe tomar um café da manhã antes da partida do barco, já que na volta muitas lojas estarão fechadas. (Para quem está hospedado no centro, a corrida do táxi sai aproximadamente R$ 27.)

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Conhecendo o Mercado Municipal Adolpho Lisboa em Manaus.

A primeira parada da embarcação já é no encontro das águas, onde o barco permanecerá alguns minutos para fotos. Na sequência, um pit stop em uma comunidade ribeirinha onde os turistas poderão comprar artesanatos indígenas. Haverá também crianças e mulheres segurando animais selvagens capturados na floresta para que os visitantes façam selfies por alguns trocados. Por favor, seja um viajante consciente e NÃO BATA FOTOS. Isso só estimula ainda mais a captura de animais. Fiquei extremamente triste em ver filhotes de bicho-preguiça arrancados da mãe e de seu habitat natural somente para entreter humanos por meio segundo.

Dali, o barco seguirá até um restaurante flutuante para o almoço. Neste local é possível caminhar sobre uma trilha suspensa, admirando a vegetação exuberante e alguns macacos, até uma parte do rio repleta de vitórias-régias. O almoço em si foi bem farto, com muita opção de salada, frutas e pratos variados. O pirarucu ensopado que comemos estava divino! Vale lembrar que as bebidas no restaurante não estão inclusas, somente água mineral dentro do barco.

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Almoço farto no passeio dos Encontros das Águas

Vitórias-régias, macaco e comunidades ribeirinhas no passeio encontro-das-águas

Vitórias-régias, macaco e comunidades ribeirinhas

Com a barriga cheia, nosso grupo cochilou durante o trajeto de 1h e meia até o local onde estão os botos. O ponto nada mais é que uma plataforma de madeira com um deck dentro da água. Um funcionário tenta atrair os animais na água oferecendo peixes, enquanto os visitantes, que precisam vestir coletes salva-vidas, fazem um círculo dentro do rio. É possível tocar no corpo do animal, que tem pele lisa e é muito dócil, porém não é permitido agarrá-lo ou tocar na cabeça do boto, afinal, ele merece ter seu espaço respeitado, né?

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Nadando com os botos, os golfinhos de água-doce, no passeio Encontro das Águas

Conversando com nossa amiga bióloga, descobrimos que a instalação dos dois pontos de observação tem ajudado a espécie a sobreviver, já que o interesse e dinheiro dos turistas pela atração ajudam a romper o ciclo de caça do animal, que é usado como isca na pesca de um peixe exportado para a Colômbia, o piracatinga.

O barco faz sua última parada em uma aldeia indígena Dessana, onde os nativos explicam sobre alguns costumes de sete etnias indígenas que habitam o Rio Negro e fazem três apresentações de ritos envolvendo dança e música. Apesar de serem somente encenações, achei a visita interessante. O passeio termina por volta das 16h, com o retorno do barco ao porto.

Visitando tribo indígena como parte do passeio encontro das águas.

Visitando tribo indígena como parte do passeio encontro das águas.

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Índigenas da tribo Dessana

3º. e 4º. Dias: Floresta Amazônica

Ter a oportunidade de conhecer a Floresta Amazônica, para mim, sempre foi uma das razões principais dessa viagem. Como queria vivenciar alguns dias na mata, reservei um quarto no hotel Amazon EcoPark Jungle Lodge, que fica a 20 minutos de carro do aeroporto e mais 20 minutos de barco (o transfer do aeroporto ou de Manaus pode ser agendado diretamente com o hotel). O Amazon tem bom custo benefício para a região, que possui hotéis bregas parados no tempo ou alguns elegantes que chegam a ter diária de mais de mil dólares.

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Linda vista do hotel Amazon EcoPark Jungle Lodge

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Quarto do Hotel Amazon Ecopark Jungle Lodge.

Você pode optar por algum dos pacotes all-inclusive oferecidos (refeições + transfer + passeios) ou agendar a estadia com café da manhã no booking.com e comprar os passeios à parte, após o check-in. Particularmente, achei essa opção mais vantajosa, pois não tínhamos interesse em várias atividades oferecidas e já havíamos feito o encontro das águas que, pelo hotel, sairia pelo menos R$ 210 por pessoa sem o banho com os botos, que varia entre R$ 210 e R$ 510.

Fizemos todo os passeios em único dia: caminhada na floresta com um super guia que explicava detalhes incríveis desse ecossistema (aprox. 1 hora, R$ 60/pessoa), pesca de piranha (1 hora de duração, R$ 60) e focagem noturna de jacaré (1 hora, R$ 60).

Barco na focagem noturna do jacaré, jacaré filhote e pesca de piranha.

Barco na focagem noturna do jacaré, jacaré filhote e pesca de piranha.

No dia seguinte, ficamos de bobeira pela propriedade, que tem uma paisagem belíssima, emoldurada por uma praia natural à beira do rio (o solo da Amazônia é naturalmente arenoso, como as praias costeiras).

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Praia fluvial no Hotel Amazon Ecopark

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O hotel também tinha umas piscinas naturais legais. A água escura é típica do Rio Negro.

Faltou somente conhecer a Ilha dos Macacos, área de reintegração e estudo de algumas espécies liderado por proprietários do hotel, que estava fechada para visitação na época que fomos. Mesmo assim, adorei nossos dias relax pela floresta! Além de relaxar, agora posso afirmar com orgulho que conheço um dos maiores patrimônios naturais do Brasil e da humanidade.

OUTRAS INFORMAÇÕES:

-O que levar em sua viagem a Manaus/Floresta Amazônica: capa de chuva para enfrentar as quedas d’água diárias da região, repelente, filtro solar, tênis confortável e calça leve para andar na trilha (nosso guia não permitia ninguém de bermuda e calçados abertos), água e lanches (muitos hotéis na floresta incluem somente as refeições principais na diária, os lanches e bebidas são muito caros), baralho e livros para passar o tempo à noite, já que as atividades principais acontecem durante o dia e não há muito o que fazer no hotel.

Táxi do aeroporto ao centro de Manaus: o valor da corrida entre o centro de Manaus e o aeroporto é tabelado em R$ 75. Um taxista que pegamos nos explicou muito bem sobre a utilidade da tabela, já que o próprio afirmou que nos levaria por um trajeto bem mais longo, que custaria mais de cem reais, caso a tabela não existisse.

Onde ficar em Manaus: Não recomendo ficar no centro histórico. Apesar da maior proximidade das atrações, o local não é tão seguro à noite e não oferece restaurantes e barzinhos bacanas para jantar. Nós ficamos no Blue Tree Premium, localizado no bairro Adrianópolis, perto do maior shopping da região, o Manaura, e também de alguns restaurantes legais. O hotel ainda conta com academia, piscina, café da manhã e está ao lado de um posto de gasolina que tem umas lojinhas de conveniência interessantes, incluindo uma frutaria. Também passamos uma noite no Manaus Hotéis Millenium, que é um pouco mais caro que o Blue Tree, porém tem ótimo serviço, além de melhor restaurante e amenidades para os hóspedes.

Quando ir a Manaus: A seca (ou verão) vai de junho a novembro, com temperatura perto dos 40 graus. Já a estação chuvosa (inverno) vai de dezembro a maio. Para andar de canoa, ver os igarapés etc, tem que haver água nos rios. Para pegar as famosas praias fluviais, o melhor é ir em agosto.

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17 comentários em “4 dias conhecendo Manaus e a Floresta Amazônica

  1. Já fui a Manus. Lendo seu post, percebo que não vi nada. Tenho que ir lá denovo, com novo olhar!

  2. Nossa, que narrativa! Não imaginava que Manaus poderia ser tão interessante. Confesso que fiquei com muita vontade de conhecer, depois de ler o teu relato.
    Um abraço!

  3. Também quero muito ir pra Amazonia um dia; senti muito não conhecer quando os gringos nos perguntam sobre essa maravilha do nosso país! Amei as dicas amiga e o hotel parece o
    máximo!!

  4. Adorei! Também conheci muitos gringos e senti que eles conhecem o meu país melhor do que eu…e conhecer a Amazonia é uma das coisas que não estava na minha lista de prioridades, até pouco tempo atrás. Obrigada pelas dicas, vão ser muito úteis quando eu for 🙂

  5. Que maravilha de viagem, ótimas dicas, a Amazonas está na minha lista faz tempo, espero tirar ela logo. Beijos.

  6. Gostei muito do seu roteiro .Obrigada pelas dicas.
    Reservei uma estadia no hotel que você mencionou em seu post, e tenho duvidas quanto ao traslado independente.
    Sabe me dizer se na Marina Tauá existem barcos que saem a toda hora que poderão me levar ao hotel? teria noção de valores e horários?

    Desde já agradeço.

    Abs.

    • Oi, Giselle! Quando eu fui não era alta estação, então praticamente não havia barcos esperando na Marina. Essa marina não é muito movimentada, então eu tentaria combinar de antemão. Um abraço e boa viagem!

  7. Adorei o seu post, foi um dos melhores que li. Através dele montei os passeios que pretendo fazer. Abs!

  8. A Amazônia é um dos melhores lugares para quem gosta de curtir a natureza, respirar oxigênio puro exalado pela própria natureza.

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