5 Tours de Vinho Maravilhosos ao Redor do Mundo

“In vino veritas.” Eu adoro tomar um bom vinho. Não só pelo sabor, mas por todo o ritual que envolve a bebida. Vinho se toma entre amigos, em comemorações, com um bom prato, ou beliscando aquele queijinho (outra paixão).

Quando viajo para um país produtor, procuro sempre visitar alguma vinícola e degustar uma boa variedade de rótulos. Resolvi então montar uma listinha para outros aficionados com uma sugestão de 5 Tours de Vinho Maravilhosos ao Redor do Mundo.

Para deixar claro, a qualidade do vinho provada entrou em consideração, porém, na avalição pesou mais a experiência do tour como um todo, incluindo a explicação do guia, os lugares visitados, a logística do passeio etc. Assim, apesar de ter degustado um Premier Cru (lista com os vinhos mais aclamados e caros que existe) em Bordeaux na França, o tour não entrou para a lista, pois a organização deixou muito a desejar.

Aqui está ela, a lista de 5 Tours de vinho deliciosos para conhecer mundo afora:

1- NOVA ZELÂNDIA

A indústria do vinho na Nova Zelândia é relativamente recente. As primeiras vinícolas foram criadas no país em 1836 por um residente britânico saudoso das garrafas em casa. Quase duzentos anos depois, o Sauvignan Blanc neozelandês é considerado o melhor da variedade pela comunidade internacional. Como acreditamos em averiguar os fatos pessoalmente, agendamos um passeio com a Tranzit Tours (U$145/pessoa) pela região produtora de Martinborough, uma cidadezinha de 3 mil habitantes a apenas 45 minutos de Wellington. Além da degustação de vinhos e do almoço, provaríamos alguns queijos locais e conheceríamos um pouco da famosa paisagem do país.

“Para mim um vinho tem que ter personalidade. E não adianta ser só aromático, como os chatos falam por aí. Como dizia meu pai, ‘o vinho pode cheirar a tudo quanto é aroma e ter um milhão de cores, mas no fim que diabos você fará com ele?’ Se você bebe um Cabernet, ou um Shiraz, é ótimo, claro, não vou deixar de beber, eu adoro vinho. Mas com o Pinot Noir, a coisa é diferente. Um bom Pinot é como uma noite de sexo fantástica.” E foi assim que descobrimos que nosso “Gourmet Wine Tour” seria um pouco alternativo. Shawn, dono da vinícola Muirlea Rise, era um desses kiwis feitos para uma comédia de sessão da tarde. Usando uma argola dourada na orelha e uma blusa xadrez por debaixo de um moletom furado, nosso sommelier cômico despejava cem palavras por segundo com uma paixão incrível por vinhos (e um sotaque pesadíssimo também).

Das quatro vinícolas boutique que visitamos, Te Kairanga, Muirlea Rise, Shubert e Murdoch James, a mais interessante com certeza foi a do Shawn. Como ele mesmo disse, “um vinho realmente marcante são como pessoas, você encontra um monte de gente legal por aí, mas depois de um tempo são aqueles diferentes, até meio estranhos, que ficam na memória.”

Degustando vinhos na Nova Zelândia

Degustando vinhos na Nova Zelândia

Dono e sommelier da  Muirlea Rise

Dono e sommelier da Muirlea Rise

Na Murdoch James

Na Shubert

Paisagem bucólica dos vinhedos

Paisagem bucólica dos vinhedos

2- ÁFRICA DO SUL

Logo que chegamos à Cidade do Cabo, entramos em contato com o Cape to Grape para agendar um tour pelas vinícolas da área. Por 60 dólares, passaríamos o dia visitando seis fazendas produtoras com o Adrian, um sommelier muito gente-boa que cresceu em um vinhedo. Adrian nos passou uma difícil missão: provar seis vinhos em cada vinícola, parando somente para degustar queijos em uma fazenda e almoçar. Como se vê, um trabalho estrênuo.

Além de bebermos bastante vinho, achamos a viagem por Paarl, Stellenbosch e Durbanville – algumas das regiões viticultoras perto de Cape Town – uma ótima oportunidade para conhecer o oeste do país, delineado por montanhas belíssimas. Como parte do tour, experimentamos ótimos rótulos e comemos muitíssimo bem! A parte mais marcante, no entanto, foi uma degustação de vinho harmonizada com biltongs, diferentes tipos de carnes “exóticas” curadas. Para a gente, era como comer carne seca de avestruz, cudo e de outros antílopes. Com certeza uma experiência exótica.

Conhecendo as vinícolas da África do Sul

Conhecendo as vinícolas da África do Sul

Degustação deliciosa de queijos em fazenda produtora

Degustação deliciosa de queijos em fazenda produtora

Harmonização de vinhos com biltongs! Sabor exótico!

Harmonização de vinhos com biltongs! Sabor exótico!

3- ITÁLIA

Se você está pensando em visitar Florença, agende um tour com degustação pelo Castello del Trebbio, uma casa produtora do famoso vinho de Chianti. Os vinhos são gostosos, o lugar é lindo, mas a história do castelo é simplesmente fantástica e daria um super filme.

Em 1184, o castelo foi construído como uma opção de casa de férias pela família Pazzi, a segunda família mais poderosa da Florença antiga. Os Pazzis eram banqueiros e apesar de muito ricos, tinham um imenso complexo em ocupar o segundo lugar na escala do poder. O foco do mau-olhado da família eram os Medicis, uma família também de banqueiros que detinha o poder da República de Florença desde o final do século XIV. Para conquistar a medalha de ouro dos poderosos, a família Pazzi arquitetou uma grande conspiração para matar os dois irmãos Medici, Lorenzo e Giuliano, chefes da família na época. Outros devedores da família Medici que gostariam de ver seu débito pessoal apagado entraram na jogada, entre eles o Papa Sixtus IV e o bispo de Pisa. Os interessados se encontraram no salão principal do Castello Del Trebbio, conhecido como “quarto da conspiração,” para detalhar o plano maquiavélico.

Os irmãos encontraram seus destinos durante a missa de 26 de abril de 1478. Mais de dez mil pessoas testemunharam a morte de Giuliano, que foi esfaqueado 19 vezes. Lorenzo também foi ferido gravemente, mas sobreviveu, pois um amigo o escondeu na sacristia da igreja até que ele conseguisse se recuperar e fugir para Nápoles, onde ficou a planejar sua vingança. Algum tempo depois, Lorenzo voltou à Florença e começou uma caça aos membros da família Pazzi que haviam escapado ao linchamento público ocorrido logo após o atentado. Quase 200 Pazzis foram mortos, enforcados na frente das suas casas ou de edifícios importantes da cidade. Não só as propriedades da família foram confiscadas, mas sua escudaria foi apagada das construções e o registro de seus feitos deletados de documentos públicos. Lorenzo preservou um único brasão Pazzi, a escudaria talhada por Michelangelo que enfeita o pátio principal do Castello Del Trebbio. Após a retaliação, ninguém mais ousou confrontar os Medicis, que permaneceram no poder por quase todo século XV. Outra consequência interessante da conspiração foi o surgimento de uma nova palavra italiana, “pazo” (que até hoje significa “louco”).

E o castelo? Bom, como os Medicis possuíam muito mais propriedades do que conseguiam usar, o Castello Del Trebbio foi esquecido, sendo aberto em parcas ocasiões como casa de veraneio. Porém, a história continua. Alguns séculos se passaram e em algum lugar da Áustria o conde Giovani Baj Macario de 60 anos embarcou em um trem para retornar às suas obrigações na Itália. Lá, ele se apaixonou instantaneamente por Eugenia, uma austríaca de 20 anos que viajava para aprender italiano. Sem querer desperdiçar tempo, os pombinhos se casaram algumas semanas depois e tiveram 6 filhos. Em 1968, enquanto a família passeava pelo interior da Toscana, o marido encontrou o castelo abandonado e resolveu presenteá-lo à esposa como demonstração de seu amor. Eugenia se apaixonou instantaneamente pela propriedade (todo mundo se apaixona rapidamente nesse país) e resolveu mudar a família para lá, dando início à renovação do castelo. Juntos, o casal frequentava feiras de antiguidade para comprar objetos de decoração da época dos Pazzi e dava início aos planos para a reconstrução da terra ao redor da propriedade. Enquanto o marido lidava com os engenheiros responsáveis pelas melhorias na estrutura da edificação, Eugenia começava uma pequena vinícola.

Infelizmente o drama do Castello Del Trebbio não termina aqui. Em 1990, conde Giovani faleceu naturalmente (ele já era velhinho, né?) e alguns meses depois, sua esposa de 43 anos foi morta em um terrível acidente de carro. Sozinhos em uma casa imensa e abalados pela morte dos pais, um a um os filhos deixaram a propriedade pela vida em outras cidades e o castelo voltou a fechar suas portas… Até o retorno de Ana, uma das filhas do casal, que após casar-se com Stefano, um produtor de vinho, resolveu voltar à casa dos pais e soprar-lhe vida.

Ana deu continuidade à produção de vinho, implementou o cultivo de azeitonas e açafrão, transformou as casas dos antigos trabalhadores rurais em hotéis para turistas e comprou a parte da herança de cada um dos irmãos. Hoje a propriedade de 350 hectares produz 350 mil garrafas de Chianti, dos quais 60% são exportados. Eu tive o prazer de degustar algumas safras do Chianti e do Vino Santo do Castello Del Trebbio em um belo salão, logo após um tour pela “casa” de Ana e Stefano, cuidadosamente decorada com objetos de época e fotos do conde e condessa Baj Macario.

Como eu disse, o vinho estava excelente, mas também com uma história dessas o tour não tinha como dar errado, né?

Propriedade do Castello del Trebbio na Toscana

Propriedade do Castello del Trebbio na Toscana

Conhecendo a produção de Chianti do castelo

Conhecendo a produção de Chianti do castelo

Garrafas especiais (e antiquíssimas) do pai da proprietária Ana

Garrafas especiais (e antiquíssimas) do pai da proprietária Ana

4- URUGUAI

Tive duas experiências de enoturismo interessantes no Uruguai, a primeira em Montevidéu e a segunda em Punta del Este.

Os arredores de Montevidéu estão salpicados de vinícolas. Minha ideia era almoçar em uma delas e emendar um tour com degustação. A Wine Experience organiza algumas dessas visitas (o passeio em Punta foi com eles), mas como as vagas são muito disputadas, você pode organizar para ir até uma casa produtora por conta própria (o Diario do Baco tem várias dicas para quem gosta de enoturismo).

Com ajuda do pessoal do lugar onde me hospedei, acabei conhecendo a Bodega Bouza, uma vinícola boutique premiada bem bonitinha a 20 km da cidade. Não há ônibus direto para lá, então a opção é alugar um carro, pegar um táxi (aproximadamente 520 pesos do centro, 400 saindo do Mercado Agrícola), ou ir com o transfer da vinícola (1.300 pesos!). A visita geralmente começa com um tour pela propriedade que passa pela coleção de 35 carros antigos do dono (tem um de 1919!) e termina em uma deliciosa degustação de quatro rótulos (1000 pesos ou aproximadamente 120 reais). O lugar é lindo e os vinhos, muito bons. Fiquei com vontade de experimentar o restaurante, que oferece pratos do chef Marcelo Garcia, como o pato com laranja, polvo ao forno e o foi gras flambado.

Conhecendo a Bodega Bouza

Conhecendo a Bodega Bouza

No entanto, a experiência enoturística mais marcante foi em Punta, com a Wine Experience. Para comemorar nosso aniversário de casamento, eu e meu marido reservamos um tour exclusivo de vinhos em um dos hotéis mais famosos de José Ignácio, o Playa Vik. O Ryan Hamilton, sommelier sul africano radicado no Uruguai, é quem comanda o passeio, que começa com uma excelente explicação sobre vinhos (já fiz milhares de tours de vinhos e alguns cursos, e mesmo assim aprendi coisa nova). A noite termina com a degustação de quatro rótulos especiais harmonizados com queijos e outra comidinhas. O ápice do evento acontece durante o pôr do sol, quando subimos com os vinhos para ver esse espetáculo da natureza na piscina de borda infinita de frente para a praia. E aí, não é mesmo deslumbrante?

Por-do-sol durante degustação de vinho

Pôr-do-sol durante degustação de vinho

Degustação harmonizada com comidinhas

Degustação harmonizada com comidinhas

Playa Vik, lugar fantástico

Playa Vik, lugar fantástico

Piscina de borda infinita à noite

Piscina de borda infinita à noite

5- BENTO GONÇALVES, BRASIL

Quem disse que o Brasil também não tem bons tours de vinho? Bento Gonçalves no Rio Grande do Sul tem lindos vinhedos!

A região inclusive obteve em 2007 o Selo de Denominação de Origem Controlada reconhecido pela União Europeia. Quando estivemos por lá, agendamos o Tour Gran Reserva saindo de Gramado com a agência Mundo do Vinho, que por R$ 99,00/pessoa nos levaria para conhecer quatro casas produtoras do Vale dos Vinhedos: a Miolo, a Don Laurindo, a Casa Valduga e a Salton (não inclui almoço ou as taxas de visitação para a Miolo – R$ 15 revertidos em compras – ou para a Casa Valduga, R$ 20 reais que incluem uma taça de cristal).

Apenas 130 km separam Gramado de Bento Gonçalves, porém a estradinha que liga as duas cidades só tem uma faixa e serpenteia bastante, fazendo com que o trajeto demore mais de duas horas. A vantagem é que a paisagem é incrivelmente bonita, passando por Nova Petrópolis, de colonização alemã, por Carlos Barbosa, casa da Tramontina e do melhor outlet da marca (olha só, dos 25 mil habitantes, 4 mil são funcionários da empresa), e por outras cidadezinhas bucólicas.

Das quatro vinícolas, as mais cênicas e interessantes são a Miolo – onde degustamos mais vinhos premiados – e a Casa Valduga, que tem um salão para almoço espetacular, com um pé direito altíssimo e uma decoração rústica e elegante. Provar a deliciosa seleção de comida italiana sentada em uma mesa comprida disposta entre tonéis de madeira que já foram usados para fermentar o vinho da casa foi ainda mais especial. Isso sem falar no cardápio. Provamos massas artesanais, o melhor galeto da viagem, uma bisteca suína suculenta e saladas variadas por R$ 48,00/pessoa (as bebidas são à parte). A única coisa difícil foi conseguir ficar acordada para assistir o vídeo sobre produção de vinho logo após a refeição!

Com tanta degustação, achamos imprescindível marcar esse passeio com uma agência. Sim, você pode montar seu próprio roteiro e visitar as empresas por conta, mas voltar dirigindo na estrada sinuosa e coberta de neblina depois de um dia inteiro bebendo é pior que roleta-russa! Melhor comprar o passeio com a agência e só se preocupar em experimentar bons vinhos, não é?

A salton tem uma propriedade muito bonita e bacana de visitar!

A salton tem uma propriedade muito bonita e bacana de visitar!

Linda sede da Miolo

Linda sede da Miolo

Visitando a Don Laurindo.

Visitando a Don Laurindo.

almoçando entre tonéis antigos de fermentação na Casa Valduga

almoçando entre tonéis antigos de fermentação na Casa Valduga

Salão para almoço da Casa Valduga

Salão para almoço da Casa Valduga

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2 comentários em “5 Tours de Vinho Maravilhosos ao Redor do Mundo

  1. Excelente! Parabéns! Gostei muito das informações e dicas. Já estive em Mendonza – Arg e lá eu super recomendo a visita com almoço na Família Zuccardi. Infelizmente, quando estive na Cidade do Cabo não fiz esta excursão nos vinhedos. Grato por compartilhar essas experiências.
    Marcelo – Natal

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