Belém do Pará: uma viagem encantadora!

Dizem que viajar para o norte do país é como viajar para fora dele. Bom, eu realmente achei que Belém do Pará tem um quê de país estrangeiro, principalmente para quem vem do sul, né?

A primeira grande diferença está no clima, um calor úmido que torna uma calça jeans em um instrumento de tortura. A gente só não derrete porque a cidade é bem arborizada, com milhares de pés de manga adornando cada rua dos bairros centrais (deve ser complicado parar o carro por ali na época da fruta).

A arquitetura é meio eclética, com edifícios modernos, lojas transadinhas e algumas construções remanescentes da era colonial. É uma pena que não há mais dessas casas históricas com azulejos portugueses, lembranças de quando Belém concentrava a riqueza do ciclo da borracha. Algumas estão bem conservadas, mas a gente ainda encontra várias em estado lamentável, com a fachada colorida desbotada e plantas brotando até do beiral de suas amplas janelas.

Mesmo assim, há algumas construções muito interessantes na cidade! Entre o ano 2.000 e 2.005, alguns prédios históricos restaurados foram inaugurados, parte de um projeto do governo do estado que começou em 1990 com a intenção de revitalizar a capital do Pará. Para o turismo, foi um golpe certeiro. Nós adoramos os espaços abaixo, todos dessa época:

Estação das Docas: O espaço fazia parte do Porto de Belém e sofria com altos índices de criminalidade e prostituição, até que o governo do estado interveio, transformando a área em um complexo de entretenimento. Há programações envolvendo música, teatro e dança, além de lojinhas com artesanato. O foco, no entanto, parece ser mais gastronômico. Há bons restaurantes e barzinhos, um ótimo lugar para sentar à beira do rio Guajará e tomar um chopp com frutas locais comendo algum petisco. Durante o happy hour, há sempre alguma banda tocando. O curioso é que os músicos ficam em uma plataforma suspensa que se move de um canto ao outro do galpão.

Vista para o Rio Guajará

Vista para o Rio Guajará

Margem do rio Guajará na Estação das Docas

Margem do rio Guajará na Estação das Docas

Mangal das Garças: É um parque com um enorme jardim (me fez lembrar do jardim botânico em Curitiba). Há espaços com viveiros com algumas espécies de garças e outras aves, um borboletário, uma torre com vista panorâmica, um museu sobre navegação e o restaurante premiado Manjar das Garças (abre às 12h, buffet por R$ 69/pessoa). É um bom espaço para levar crianças. O passaporte para todas as atrações custa R$ 15, caso só queira ir em alguma específica, cada uma sai por R$ 5. Há um estacionamento pago no local.

Vegetação típica do Mangal das Garças

Vegetação típica do Mangal das Garças

Casa das Onze Janelas: Foi a casa de um influente senhor de engenho no século XVIII. Em 1768, foi convertida em hospital militar, mantendo funções militares até 2001, quando foi comprada pelo governo estadual para servir como ponto turístico da capital. O local abriga o Boteco das Onze, que serve uma ótima feijoada aos sábados em um ambiente que lembra um calabouço com suas espessas paredes de pedra (pasmem! Por somente R$ 49,90/duas pessoas).

Ambiente Boteco das Onze

Ambiente Boteco das Onze

Forte do Castelo (conhecido como Forte do Presépio): Construído em 1616, o forte ainda contém os canhões originais, usados para proteger a Amazônia dos invasores holandeses e franceses. Há também algumas cerâmicas pré-coloniais encontradas na ilha de Marajó. Fica ao lado da Casa das Onze janelas e tem a melhor vista para o Ver-o-Peso.

Entrada do Forte do Castelo

Entrada do Forte do Castelo

Casas coloniais ao redor do Forte do Castelo e canhão original

Casas coloniais ao redor do Forte do Castelo e canhão original

Pólo Joalheiro (Espaço São José Liberto): O espaço foi inaugurado em 2002 como centro de artesanato e exposição e venda de jóias de artistas locais. A construção já foi um convento (1749), posteriormente sendo usado como quartel, e nos últimos 150 anos antes da desativação em 1998, como presídio. Além das lojas e exposições, há também um jardim e uma instalação sobre a vida dos presos (entrada gratuita).

Além desses pontos turísticos, vale conhecer o Theatro da Paz e a Basílica de Nazaré. O Theatro foi nosso passeio preferido! Por R$ 6, você faz uma visita guiada interessantíssima sobre a arquitetura do local (influenciada por europeus, maçons e pela riqueza do ciclo da borracha) e sobre a história do Pará. Já a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré é uma visita mais contemplativa. Esta é a única basílica da região amazônica, que começou a ser erguida em 1909 no mesmo lugar onde – de acordo com a lenda – foi encontrada uma imagem de Nossa Senhora. Durante o Círio de Nazaré, que ocorre anualmente na segunda semana de outubro, cerca de dois milhões de devotos saem da Catedral Metropolitana de Belém carregando uma réplica da imagem encontrada, caminhando até a Basílica. Esta romaria é a maior manifestação católica brasileira e um dos maiores eventos religiosos do mundo, sendo inclusive considerado patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO!

Hall de entrada, sala de apresentações e receptivo do Theatro da Paz

Hall de entrada, sala de apresentações e receptivo do Theatro da Paz

Fachada, detalhe do interior e fitinhas com preces na Basílica de Nazaré

Fachada, detalhe do interior e fitinhas com preces na Basílica de Nazaré

Mas e o famoso mercado Ver-o-Peso? Com certeza essa enorme feira livre é uma experiência antropológica. São centenas de barraquinhas vendendo “poções milagrosas”, comida, artesanato… Antes do sol nascer, barcos lotam o porto trazendo açaí (que em Belém se come com farinha de mandioca e outros acompanhamentos salgados), peixes e outros itens típicos da região. É realmente interessante e nós demos uma passada para conhecer, mas estaria mentindo se dissesse que adoro feiras desse tipo. Mesmo assim, vale passar para conhecer o cartão postal da cidade.

Andando pelo Ver-o-Peso

Andando pelo Ver-o-Peso

No mercado de peixes tem várias espécies típicas da região

No mercado de peixes tem várias espécies típicas da região

Esse lugar de frente ao Ver-o-Peso é um açougue tradicional, onde as carnes ficam penduradas em meio à essa arquitetura diferente.

Esse lugar de frente ao Ver-o-Peso é um açougue tradicional, onde as carnes ficam penduradas em meio à essa arquitetura diferente.

Eu particularmente acho que a UNESCO deveria conceder outro título de patrimônio cultural à Belém: por sua gastronomia. Não só por ser uma delícia, mas pelos sabores únicos! Uma mistura riquíssima de ingredientes endêmicos da região amazônica, com técnicas indígenas e uma pitada de influência africana e portuguesa. Uma fórmula mágica para te fazer salivar com ingredientes que você provavelmente nunca ouviu falar: jambu, tucupi, muruci, bacuri, maniva…

Na baixa ou alta gastronomia, há várias opções bacanas para se comer bem na capital. Aqui estão as que provei e recomendo:

– Remanso do Bosque: O menu degustação do chef Thiago Castanho provavelmente influenciou sua colocação entre um dos 50 melhores restaurantes da América Latina em 2014. Infelizmente, o menu não está mais disponível. Mesmo assim, o cardápio atual é uma delícia! Pedimos linguiça artesanal com jambu no molho de tucupi para entrada, costela de tambaqui e escondidinho de pirarucu (sem trocadilhos, please. Rs.), e duas sobremesas dos deuses: (1) bolinho de tapioca assado com calda quente de doce de leite aromatizado com cumaru acompanhado com sorvete de tapioca e (2) brownie de macaxeira com chocolate branco, bacuri fresco e castanha do Pará fatiada e creme inglês de baunilha. Comparado a outros restaurantes de renome, os pratos não são caros (média de R$ 65/prato), mas os vinhos têm custo bem mais elevado que em estabelecimentos similares em Curitiba (a partir de R$ 100 a garrafa).

A linguiça e duas sobremesas. Deliciosas!

A linguiça e duas sobremesas. Deliciosas!

Saldosa Maloca: Este é um famoso restaurante ribeirinho. Para chegar até lá, você precisa pegar um barco na Praça Princesa Isabel e atravessar o rio (R$ 4/pessoa por trajeto, o barco vai parando em vários restaurantes, até chegar ao Maloca). O lugar fica cheio, então faça reserva para pegar uma mesa perto do rio para ver o skyline de Belém. No cardápio, pratos típicos com filhote e outros peixes, além de opções marajoaras. Para a sobremesa, prove um brigadeiro da Dona Nena, feito com chocolate da Amazônia que é inclusive usado no restaurante D.O.M. do Alex Atala. (Pratos principais entre R$ 55 e R$ 80).

Esse é o barquinho que tem que pegar na Praça Princesa Isabel para chegar aos restaurantes ribeirinhos

Esse é o barquinho que tem que pegar na Praça Princesa Isabel para chegar aos restaurantes ribeirinhos

Paisagens diferentes do outro lado do rio Guajará

Paisagens diferentes do outro lado do rio Guajará

Amazon Beer: Essa marca de cerveja artesanal possui um boteco na Estação das Docas. Além das cervejas feitas com frutas locais, os petiscos são maravilhosos! Gostamos muito do queijo de búfala, do palmito grelhado e da linguiça em metro. O legal é que à noite também toca música ao vivo.

Banda suspensa na Estação das Docas e cardápio de cervejas da Amazon Beer

Banda suspensa na Estação das Docas e cardápio de cervejas da Amazon Beer

Sorvetes Cairu: Sorvetes artesanais de frutas locais. Experimentamos vários sabores diferentes! Na Estação das Docas tem um quiosque, então quando passar por lá, aproveite para comer uma sobremesa.

Vários sabores diferentes na Sorveteria Cairu

Vários sabores diferentes na Sorveteria Cairu

– Boteco das Onze: Fica dentro da Casa das Onze Janelas. O ambiente é bem gostoso. Pode-se sentar à beira do rio, ou no salão com paredes de pedra lembrando um calabouço. Fomos bem atendidos e pagamos R$ 49,90 para uma feijoada gostosa para duas pessoas (somente aos sábados).

Nós também participamos do Festival Gastronômico Ver-o-Peso da Cozinha Paraense, que geralmente começa em maio. Durante este mês, vários restaurantes locais oferecem pratos especiais. O evento culmina no Jantar das Boeiras onde chefs famosos de todo Brasil se juntam às mulheres que preparam “bóias” no mercado Ver-o-Peso para apresentar uma versão de um prato local, como o pato no tucupi, o tacacá, o vatapá e a maniçoba. Nesse ano o jantar – que tem mais ares de feirinha gastronômica com várias tendas de comida – foi na Estação das Docas. Foram os melhores pratos que comi em Belém! Muito, muito bom! E olha que nem estava tão cheio! (A entrada de R$ 35 incluía dois pratos).

No Jantar das Boeiras do Festival Ver-o-Peso. Melhor pato no tucupi ever!

No Jantar das Boeiras do Festival Ver-o-Peso. Melhor pato no tucupi ever!

Eu não consegui fazer, mas há outros passeios bem bacanas de um dia para a região amazônica. Uma pena que só descobri a Estação Gabiraba, agência de ecoturismo de base comunitária, mais para o final da viagem. Esta operadora faz uma ponte entre comunidades ribeirinhas e/ou indígenas locais e turistas que gostariam de visitá-las. Eu fiquei interessada em dois roteiros, o passeio para a comunidade Boa Vista do Acará (para ver como o pessoal lá vive, como é feito o artesanato, a colheita do açaí etc. Vídeo explicativo aqui) e o roteiro para a Ilha de Cotijuba com almoço em um restaurante típico. Eu SUPER recomendo. Caso você tenha interesse, é só entrar em contato com a Ana Gabriela Fontoura (91 98226-4169 /gabi@estacaogabiraba.com.br).

Não imaginava, mas Belém me conquistou! Sua cultura única, sabores deliciosos, praias e belezas naturais me deixaram boquiaberta. Mais uma vez, saio de um destino brasileiro com a certeza de que há muito, mas muito mais para conhecer nesse nosso imenso país!

OUTRAS INFORMAÇÕES:

Hospedagem: Fique em Nazaré, o bairro mais moderno da cidade, cheio de lojinhas, restaurantes e barzinhos (também é perto de todas as atrações). Nós ficamos no Belém Soft Hotel,  que já deve ter visto tempos melhores na década de 80 (a decoração parou no tempo). Porém, tem um bom custo benefício para a região, com bom café da manhã, atendimento e ar condicionado.

Como andar pela cidade: Infelizmente Belém é uma das capitais mais violentas do país. Fomos desaconselhados por todos (taxistas, conhecidos e o staff do hotel) a caminhar entre uma atração e outra. Acabamos andando sempre de táxi, que é relativamente barato (média de R$ 15 entre um ponto histórico e outro). Há pontos de táxi em todas as atrações turísticas.

Táxi do aeroporto ao centro: O aeroporto fica um pouco afastado em uma região pobre da cidade. A corrida do táxi até o centro sai por R$ 45.

Quantos dias são suficientes para visitar Belém: Em um final de semana dá para conhecer as atrações principais da capital. Porém, com mais tempo, é legal visitar a Ilha de Marajó, algumas “praias” (são de rio) mais afastadas, ou quem sabe voar até o Alter do Chão em Santarém. Eu com certeza queria ter tido mais alguns dias para aproveitar tudo o que a região tem para oferecer. Afinal, não é todo dia que eu vou ao Pará, né?

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10 comentários em “Belém do Pará: uma viagem encantadora!

  1. Agradeço a vc q. escreveu sobre a minha terra da qual tenho mto orgulho. Ela é linda mesmo, só faltou falar da chuva que vem pra refrescar o delicioso calor.

  2. Olá, Leticia!
    Parabéns pelo texto e muito obrigada por recomendar o nosso trabalho!
    Será uma alegria enorme ter você nas viagens da Estação Gabiraba aqui na Amazônia.
    Volte logo! Um grande abraço,
    Ana Gabriela

  3. Amo minha Belém, sou natural da Bahia, porém, a minha alma é belenense. Te amo Belém.

  4. Gostei do relato da sua experiência. Bem sucinto e objetivo. Vou a passeio no próximo dia 1°. Vou checar suas dicas e depois te falo. Valeu!!

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