2 dias em Sucre: uma bela cidade colonial boliviana

Apesar de o famoso Salar de Uyuni ter sido a razão principal da nossa viagem pela Bolívia, conhecer Sucre foi um presente inesperado. A cidade, que foi fundada pelos espanhóis em 1538, manteve o ar colonial das pequenas ruas de pedra, casarões e igrejas da época. Para quem já passou por Cuzco, a comparação é inevitável: Sucre exibe a mesma mistura de influência europeia e cultura indígena – incluindo a do Império Inca – que torna a visita ainda mais interessante.

O berço da Bolívia, e de quase todos países hispânicos da América do Sul, começou aqui, nessa cidadezinha charmosa a 2.810 metros de altitude. Ficamos impressionados com a história riquíssima da capital da Bolívia! Pensou que fosse La Paz? Esse é um erro comum, pois houve algumas mudanças significativas e confusas de capital durante os anos. Muitos visitantes não sabem, mas La Paz foi a capital do executivo e do legislativo somente por um período da história boliviana (na época Sucre se manteve como capital do judiciário).

Centrinho histórico de Sucre

Centrinho histórico de Sucre

Curiosos com a cidade, que foi declarada patrimônio da humanidade pela UNESCO, decidimos conhecer o museu Casa de La Libertad, o primeiro monumento histórico do país que possui um acervo riquíssimo sobre diversas etapas da história boliviana (15 bolivianos de entrada). O museu foi estabelecido em uma bela mansão colonial que também é um marco  para importantes acontecimentos na Bolívia. Foi dentro de suas paredes, inclusive, que o país assinou sua independência! As peças da mostra estão muito bem preservadas e a visitação ainda inclui um guia que explica cada período minuciosamente. Ganhamos uma aula de história interessantíssima!

Casa libertad: monastério jesuíta em 1592, universidade em 1624, hoje museu histórico.

Casa libertad: monastério jesuíta em 1592, universidade em 1624, hoje museu histórico.

Nessa sala foi assinada a independência da Bolívia em 1825.

Nessa sala foi assinada a independência da Bolívia em 1825.

Lá aprendemos que a vestimenta das cholas, com aquelas saias rodadas e xale nos ombros, veio de uma tentativa de imitar as senhoras espanholas. Também descobrimos que a Bolívia já teve várias bandeiras e que Sucre teve quatro nomes. O primeiro foi “Charcas”, que era o nome do povo nativo da região quando os europeus chegaram. Depois, veio o apelido de “La Plata”, devido a quantidade de prata encontrada em suas terras. Finalmente, após a independência boliviana, a cidade passou a se chamar Chuquisaca, mesmo nome do estado onde está localizada a cidade (o nome é uma versão mal pronunciada de “Choquechaca”, como os povos indígenas da região eram chamados). Depois da Grande Batalha de Ayacucho, em 9 de dezembro de 1824, a capital passou a se chamar Sucre em homenagem ao marechal Don Antonio Jose de Sucre, um dos amigos mais próximos de Simón Bolivar, e peça chave na batalha que libertou o Peru dos espanhóis (os países têm uma história entrelaçada), mandando os europeus de volta para casa de uma vez por todas.

A Bolívia teve duas bandeiras até chegar a atual. A aberta foi a primeira.

A Bolívia teve duas bandeiras até chegar a atual. A aberta foi a primeira.

Achar o museu é bem fácil, é só passar na praça central da cidade, a 25 de Mayo, que é bem arborizada e cheia de vida, um ótimo lugar para observar a vida cotidiana e admirar a arquitetura de alguns edifícios imponentes, como o palácio do governo e a catedral (que estava fechada para visitação). De lá, resolvemos tomar um café no Monastério de la Recoleta. Você até pode visitar a casa, fundada pelos franciscanos em 1.601, mas o mais legal é o mirante, que tem um café com uma vista panorâmica da cidade, um ótimo lugar para relaxar antes de bater perna pelas ladeiras do bairro de volta ao centro (lembrei tanto de Outro Preto)!

Lado esq. superior: Praça 25 de mayo. Esq. inferior: casarão. Lado dir.: Palácio do Governo

Lado esq. superior: Praça 25 de mayo. Esq. inferior: casarão Museu La Libertad. Lado dir.: Palácio do Governo

Foto superior: meninos na praça do Monastério de La Recoleta. Inferior: Café Mirador onde dá para ver a cidade

Foto superior: meninos na praça do Monastério de La Recoleta. Inferior: Café Mirador onde dá para ver a cidade

Outro lugar com uma linda vista da cidade é no topo do Oratório de São Felipe Néri (a foto na capa desse post é de lá). O estabelecimento também já foi um monastério, porém hoje funciona como uma escola só para meninas. Não há guia nem muitas explicações históricas, mas dá para subir no terraço e ver Sucre do topo, com suas torres, telhados avermelhados e até um sino antigo. A entrada dessa atração, que parece estar sempre vazia, fica na lateral do edifício, passando pela porta da escola Maria Auxiliadora (ticket = 15 bolivianos). Só é bom se programar, pois só dá para visitá-la quando não há aulas, geralmente depois das 15 horas.

Oratório San Felipe Néri: pátio da escola e no telhado, pulando no sino!

Oratório San Felipe Néri: pátio da escola e no telhado, pulando no sino!

Os moradores de Sucre têm muito orgulho de seu cemitério central e insistem para que os turistas o conheçam. Nós até achamos o lugar bonitinho, com um belo paisagismo e criptas enormes, porém nada imperdível caso você tenha pouco tempo na cidade (meia hora é mais que suficiente e tem entrada gratuita).

Cemitério Geral de Sucre

Estátua “de halloween” no cemitério de Sucre

Um dos pontos turísticos que achamos mais interessantes em Sucre é também um dos menos visitados, o Castelo La Glorieta. Toda a história acerca do castelo tem um quê de conto de fadas. Era uma vez um rico senhor que tinha grande influência em Sucre no século XIX devido ao seu trabalho na companhia de mineração local, a Huanchaca. Francisco Argadoña, o protagonista dessa história, se apaixona por uma linda dama de nobre família espanhola chamada Clotilde. Os pombinhos se casam em 1874, porém não conseguem ter filhos. Católicos devotos, o casal começa a se dedicar arduamente a ajudar órfãos e crianças desamparadas. O extenso trabalho comunitário dos Argadoña alcança grande notoriedade, inclusive em Roma. Em 1.898, o papa Leon VII, impressionado com a caridade dos dois, lhe concedem o título de príncipe e princesa, criando assim o principado La Glorieta que durou 35 anos, até a morte do casal, que não deixou herdeiros.

Em 1893, as obras do castelo começaram. Francisco contratou dois arquitetos, um britânico e outro italiano, que terminaram a obra em 1.897. Com fachada rosada e três torres em estilos diversos – uma russa, outra gótica, e a terceira uma pagoda chinesa – o local infelizmente está vazio, sem mobília ou qualquer decoração da época. No entanto, com um pouco de imaginação ainda é possível viajar dentro de suas paredes e imaginar esse pequeno conto inusitado boliviano (20 bolivianos de entrada, mais 10 bolivianos se você quiser tirar fotos em seu interior). La Glorieta está a 15 minutos de carro da cidade e é bem fácil de chegar de táxi (ida por 20 bolivianos). Só combine para o motorista ficar por lá, pois você não encontrará taxistas no trajeto contrário (o ônibus 4 também sai do centro da cidade, com ponto final no castelo). Ah! Não se assuste com os milicos na entrada da propriedade. Em uma dessas curvas estranhas da história, as adjacências do sítio histórico foram transformadas em base militar.

Chegando no castelo: portão Principado de la Glorieta

Chegando no castelo: portão Principado de la Glorieta

Fachada do castelo: a estátua é de Francisco Argadoña ajudando as crianças

Fachada do castelo: a estátua é de Francisco Argadoña ajudando as crianças

Dentro do Castelo de la Glorieta em Sucre

Dentro do Castelo de la Glorieta em Sucre

Como Sucre é uma cidade pequena, com atrações próximas umas das outras, dá para visitar todos os estabelecimentos citados aqui em apenas um dia. Mesmo assim, tente passar a noite na cidade, que tem uma energia gostosa e bons restaurantes com gastronomia variada. Aqui vai a lista dos lugares onde comemos:

  • La Posada – É uma pousada que tem um restaurante no pátio do hotel. O lugar é calmo e bonitinho, bom para bater papo. Servem receitas internacionais e também comida típica boliviana. Experimentamos um prato andino com carne seca desfiada, milho, batatas, queijo e um ovo cozido para finalizar (parecia um ninho de passarinho) e o Pico a La Macho (uma espécie de mexido com carne, cebola, ovo cozido, batata frita e legumes). Ambos estavam gostosos (a refeição inteira com bebidas para duas pessoas custou 125 bolivianos).
Prato andino com carne seca

Prato andino com carne seca: não parece um ninho de passarinho?

  • Para Ti Chocolates – Uma loja com vários tipos de chocolate produzido localmente. Tem bombons recheados de quinoa, frutas, licores e nozes. Fica do lado do Restaurante La Posada. Dá para comprar presentes em caixinhas decoradas, ou pesar algumas gostosuras e levar para comer depois (levamos um saquinho para o próximo passeio por 17 bolivianos).
Lojinha da Para Ti Chocolates

Lojinha da Para Ti Chocolates

  • La Patisserie – Serve crepes salgados e doces, pães doces recheados e quiches com salada. Os crepes custam entre 21 e 32 bolivianos, dependendo do recheio. Eu pedi um quiche de queijo com espinafre que estava uma delícia (21 bolivianos, 28 se quiser salada)! O dono é francês e muitas vezes atende as mesas. Boa opção de lanche mais em conta e gostoso na cidade!
Ambiente "francês" da La Patisserie em Sucre

Ambiente “francês” da La Patisserie em Sucre

  • Abis Patio – Jantamos nesse restaurante em nossa primeira noite, pois queríamos uma comida mais leve para o jantar, ideal para quem ainda está se acostumando com a altitude. O lugar é bonitinho, com mesas em um pátio externo. Pedimos dois pratos de pollo a la plancha (frango grelhado) com legumes e purê de batata. A refeição para duas pessoas com bebidas saiu 130 bolivianos.

OUTRAS INFORMAÇÕES:

-O táxi é bem barato em Sucre, como em toda Bolívia! O trajeto do aeroporto ao centro da cidade custa 30 bolivianos. Dentro da cidade histórica, a corrida não sai mais de 10 bolivianos para dois passageiros (eles calculam o custo pelo número de pessoas). E do centro até o Castelo La Glorieta são 20 bolivianos.

-Diferente de outros lugares na América Latina, quase não há hawkers (aqueles vendedores de rua chatos e insistentes) na Bolívia. Uma boa surpresa.

-Ficamos hospedados no El Hotel de Su Merced e adoramos! Além de ser em conta, o hotel é super charmoso, construído em uma casa colonial típica que oferece um terraço com cadeiras onde dá para comer e admirar a vista da cidade e um pátio central que tem até uma fonte! O café da manhã estava muito gostoso (pães, bolos, frios, sucos, geleias, cereais e opções quentes como ovos mexidos) e o atendimento foi excelente! A localização é perfeita, no centro da cidade histórica, mas os quartos ainda ficam silenciosos à noite. Ah! E wifi gratuito funcionou super bem! Já disse que adorei? Rs.

Olha que fofo o nosso hotel em Sucre!

Olha que fofo o nosso hotel em Sucre!

 

 

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8 comentários em “2 dias em Sucre: uma bela cidade colonial boliviana

  1. Pingback: Salar de Uyuni: dicas para uma viagem (quase) 100% “perrengue free” pela Bolívia | Giros Por Aí

  2. Pingback: Tour pelo Salar de Uyuni: 3 dias das paisagens mais inacreditáveis que já vi | Giros Por Aí

  3. Olá Leticia, tudo bem?
    Irei viajar para Bolívia em dezembro, ficarei cerca de 15 dias. Planejo fazer o mesmo roteiro que você e as suas dicas estão me ajudando bastante. Gostaria de saber se foi tranquilo trocar reais por bolivianos. O que vale mais a pena, levar dolares ou reais?
    Muito obrigado!

    • Oi, Washington! Foi bem tranquilo trocar reais por bolivianos, nós fizemos no centro de Sucre (as taxas dos aeroportos, como sempre, são mais desfavoráveis, então troque nas cidades). Só em Uyuni não recomendo (muito turístico e pequeno, difícil de achar boas cotações). É sempre melhor levar reais (sem IOF, impostos e taxas de conversões absurdas). bjos

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