4 dias na Chapada dos Veadeiros: como aproveitar os melhores passeios

Em agosto eu pedi para os leitores do blog escolherem a viagem que eu faria em outubro. Entre Salvador e Chapada dos Veadeiros, a Chapada ganhou! Sem saber, a galera que participou me fez um super favor. É que eu estava com a energia meio baixa, estressada e preocupada, e o destino de viagem vencedor tem uma vibe muito mais zen que a capital baiana.

Eu não sabia, mas a Chapada é considerada a capital mística do país. Por que da fama? É difícil dizer ao certo. Alguns atribuem a energia esotérica às minas de cristais da região, outros, aos relatos de aparições de OVNIs, enquanto tem quem diga que sua espiritualidade vem do paralelo 14 – o mesmo que passa por Machu Picchu – que atravessa um ponto do cerrado onde há uma placa indicativa.

Esse clima místico atrai muita gente em busca de uma vida alternativa: neo hippies, veganos, praticantes de yôga e seguidores de religiões e cultos menos convencionais. O resultado pode ser visto nos murais sobre ETs, natureza e meditação pintados nas fachadas das casas e ambientes públicos, bem como na imensa oferta de restaurantes naturebas de Alto Paraíso e São Jorge, as principais cidades em volta do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. A feira livre que acontece aos sábados no centro de Alto Paraíso é uma das melhores representações dessa comunidade única. Mulheres e homens com dread no cabelo e roupas coloridas hipongas lotam o espaço para bater papo e tomar um suco de pequi, ou alguma outra fruta do cerrado, enquanto reabastecem suas cestas com produtos orgânicos e veganos, que são maioria por ali.

Feira livre de Alto Paraíso

Feira livre de Alto Paraíso

Galera do lado de fora da feira

Galera do lado de fora da feira

As opções para quem, assim como eu, gosta de comer carne em pelo menos uma das refeições são mais limitadas, principalmente porque os restaurantes não ficam abertos durante à tarde, horário em que a maioria dos turistas volta dos passeios. Mesmo assim, há alguns lugares legais, como a Tapiocaria Maria Bonita (fica na frente da “Praça do Skate” e tem tapiocas rechedas a R$ 8, um ótimo lanche), ou o Zus Bistrot, um mini-restaurante que achamos por acaso e que adoramos. O Zus fica no quintal da casa da Vera, uma autodenominada “seguidora wicca” que só cozinha quando está bem. “Ninguém toca nas minhas panelas. Afinal, a gente passa energia através da comida, e eu gasto um tempão limpando e energizando os alimentos antes de cozinhar,” contou nossa cozinheira de mão cheia. Não sei se é culpa do ritual, ou da paixão por comida italiana dessa bruxinha, mas o nhoque e lasanhas com massa caseira estavam muito saborosos (mais ou menos R$ 20/prato). Ah! E eles ficam abertos à tarde, oferecem wifi gratuito e pagamento com cartões, três raridades na cidade.

Ônibus parado em São Jorge.

Ônibus parado em São Jorge.

Apesar de ser no mínimo curioso, eu não fui até o interior de Goiás atrás do clima esotérico da Chapada, mas sim da imensa beleza natural da região, que é parte do complexo montanhoso do Araí-Nova Roma-Veadeiros, onde estão as nascentes mais altas do rio Tocantins. Um lugar lindo, repleto de cachoeiras, cânions, trilhas, rios cristalinos, araras e tucanos. Para se hospedar, há duas cidades nos arredores do parque: Alto Paraíso (maior, mais central, com os únicos caixas eletrônicos e posto de gasolina da área e uma lista mais farta de restaurantes e pousadas) e São Jorge, uma vila minúscula com clima mochileiro e turístico, na entrada do Parque Nacional. Qual é melhor? Depende. Se você não quer pegar carro de jeito algum, fique em São Jorge, pois há algumas trilhas e cachoeiras por perto. Mas saiba: as atrações mais imponentes ficam foram do parque, espalhadas por outras cidades, a maioria mais próxima de Alto Paraíso.

Vista da Chapada

Vista da Chapada

Como teríamos somente quatro dias de viagem, traçamos um roteiro bacana com um guia local. Embora a contratação não seja obrigatória em muitas fazendas, é altamente recomendável visitar as atrações com alguém que conheça a região e tenha feito cursos especiais de segurança. A dica não é bobagem. As cachoeiras estão localizadas em propriedades privadas e espaços públicos mal sinalizados que não oferecem salva-vidas. Um olhar inexperiente pode achar que o local não oferece perigo, porém várias pessoas se machucam ou perdem a vida por ali (uma menina de 17 anos morreu no final de semana em que visitamos a Chapada). O guia passará muitas informações legais sobre a fauna e flora e te ajudará a encontrar as quedas d’água mais belas (há muitas em uma mesma fazenda), evitando os pontos mais cabulosos (diárias entre R$ 120 a R$ 150).

Curtimos muito o roteiro traçado pelo Daniel, que é um cara muito gente-boa e apaixonado pelo que faz (contato no final do texto):

1º. Dia: Vale da Lua e Almécegas

Localizado na Serra da Boa Vista, o Vale da Lua é um conjunto de formações rochosas escavado pelas águas do Rio São Miguel. O nome vem da aparência lunar das pedras que também abrigam piscinas naturais e pequenas cascatas. Parece inofensivo, mas é um dos lugares com maior índice de acidentes da Chapada. A paisagem é realmente de outro mundo! Para entrar, é preciso desembolsar R$ 15,00 no começo da trilha considerada de grau médio, com cerca de 600 m. Não estranhe as placas proibindo tomar banho nu, pois o naturismo é bastante praticado na região. Para chegar até os “portões” a partir de Alto Paraíso, são 30 km de asfalto e 5 km de estrada de terra. Não há banheiros ou lugar para comprar comida.

Paisagem do Vale da Lua

Paisagem do Vale da Lua

Piscina natural do Vale da Lua

Piscina natural do Vale da Lua

Detalhe do Vale da Lua, Chapada

Detalhe do Vale da Lua, Chapada

As cachoeiras conhecidas como Almécegas I e II ficam perto do Vale da Lua e são tranquilas de visitar e tomar banho. São 8 km de asfalto saindo de Alto Paraíso na direção de São Jorge e 5 km adicionais em estrada de terra. Custam R$ 20/pessoa. Também não conta com banheiros e o restaurante local estava fechado.

Guico nas Almecegas II

Guico nas Almecegas II

2º. Dia: Cachoeiras de Santa Bárbara

As cachoeiras de Santa Bárbara possuem uma coloração diferente, apresentando tons azulados e de esmeralda. Dá para tomar banho numa boa, porém, como o lugar é menor, são belezas mais contemplativas, para admirar e bater fotos. Estão localizadas dentro do Sítio Histórico do Patrimônio Cultural Kalunga, uma comunidade formada pelos descendentes dos escravos que fugiram do cativeiro formando o isolado quilombo do Brasil, descoberto há cerca de 30 anos! Até então, os antigos escravos viviam em total isolamento. Na língua banto, a palavra Kalunga significa lugar sagrado, de proteção.

O sítio histórico e suas belezas ficam em Cavalcante, a 109 km de Alto Paraíso ou a 125 km de São Jorge. Para conhecer as duas cachoeiras – Capivara a menos de 1 km do povoado e Candaru com 70 m de queda – é preciso desembolsar R$ 20/pessoa. No povoado há um restaurante com buffet livre de comida caseira bem gostoso (restaurante “Seu Sirilo”, R$ 25/pessoa) e banheiros.

Menor cachoeira de Sta Bárbara, conhecida como "Barbarinha".

Menor cachoeira de Sta Bárbara, conhecida como “Barbarinha”.

A maior cachoeira de Santa Bárbara

A maior cachoeira de Santa Bárbara

3º. Dia: Macaquinhos

A fazenda Macaquinhos oferece área de camping com cozinha, banheiros com chuveiro quente e acesso a 10 cachoeiras e piscinas naturais para banho. Guiados pelo Daniel, fomos até a Cachoeira do Encontro, a última da trilha, onde dois rios formam duas quedas d’água distintas. Depois de algum tempo morgando, voltamos pela trilha até a Cachoeira Caverna, conhecida por uma gruta interessante na rocha. Mais um pouco de caminhada e chegamos ao Banho do Macaco, a primeira cachoeira e minha predileta do complexo. Não tanto pela beleza, mas sim pelas pequenas cascatas que agem como hidromassagem enquanto você fica deitado na pedra. Com certeza poderia passar o dia inteiro lá! O ingresso de visitação custa R$ 20/pessoa. Para chegar, são 13 km de asfalto a partir de Alto Paraíso em direção à Brasília, mais 30 km (dos longos) de estrada de terra. A trilha tem grau médio a difícil e envolve 1800 m de caminhada.

Cachoeira dos Encontros, Chapada dos Veadeiros

Cachoeira dos Encontros, Chapada dos Veadeiros

Cachoeira Caverna nos Macaquinhos

Cachoeira Caverna nos Macaquinhos

Banho do Macaquinho, delícia para ficar de bobeira!

Guico e eu no Banho do Macaquinho, delícia para ficar de bobeira!

4º. Dia: Cascatas dos Couros

Este tem se tornado um dos sítios mais procurados pelos turistas! É fácil entender o porquê… As cachoeiras do Rio dos Couros são grandiosas, formando longas quedas entre cânions e piscinas rasas onde é possível relaxar. Há opções para todos os gostos, plataformas de pulo com mais de 10 metros, banheiras naturais, hidromassagem e aquela vista cênica maravilhosa. Apesar de ficar em um local público, um assentamento do MST localizado nos arredores fecha o único acesso até esta beleza natural, cobrando R$ 5/pessoa de entrada. Infelizmente, não há o que fazer, pois eles fecham a estrada com uma corrente resguardada por um grupo grande e intimidador. Mesmo assim, não deixe de conhecer. Esse foi o passeio do qual mais gostei.

Cascata dos Couros

Cascata dos Couros

Piscinas dos Couros

Piscinas dos Couros

Eu e Guico curtindo a Chapada

Eu e Guico curtindo a Chapada

OUTRAS INFORMAÇÕES

Hospedagem: Escolhemos a Pousada Flor do Cerrado em São Jorge, que fica na rua principal da vila (como tudo é perto, a localização não é exatamente crucial). A pousadinha é pequena e simples, mas com bom atendimento. O café da manhã é servido em uma mesa comprida de madeira de frente para a recepção e é bem completo, com ovos, salsicha, bolo, pães, frios, geleias, cereais, frutas, café, leite e chá. O quarto é pequeno, porém com uma boa cama e travesseiros, além de TV e frigobar. O chuveiro é ok (estava meio torto) e o wifi é gratuito (raridade por lá), mas funciona melhor na recepção. Como você passa o dia inteiro fora nos passeios, a hospedagem simples nos atendeu perfeitamente.

Como chegar à Chapada dos Veadeiros e se locomover por lá: Alto Paraíso fica a 240 km de Brasília. Para chegar a São Jorge é só adicionar mais 36 km ao percurso. A estrada a partir de Brasília para ambos destinos está novinha em folha! Achamos imprescindível alugar um carro, pois as atrações mais legais ficam em cidades distintas, algumas mais próximas a São Jorge, outras, de Alto Paraíso. Como disse antes, alguns viajantes interessados somente em fazer trilha pelo parque nacional e ficar nas cachoeiras mais próximas dali se hospedam em São Jorge e fazem tudo a pé. Porém, como queríamos conhecer outras atrações, alugamos um Sandero 1.0 (embora um 4×4 ou um veículo mais alto teria sido mais apropriado) com a Movida Rent a Car (diária de R$ 66,72, mais seguro, saiu por R$ 445 para quatro dias). A viação Real Expresso tem saídas de ônibus duas vezes ao dia de Brasília até Alto Paraíso (ônibus convencional por R$ 38,00). Dizem que a Viação Santo Antônio também faz o trajeto, mas não há informações online. Há um ônibus entre Alto Paraíso e São Jorge, mas os horários são irregulares, então muita gente pega carona entre as duas cidades. Mais informações detalhadas de como chegar aqui.

Outras opções de restaurantes/lanchonetes: O restaurante Rancho do Waldomiro na estrada entre São Jorge e Alto Paraíso tem comida típica e cachaças e doces artesanais. Dizem que a refeição é meio pesada, mas que vale a pena provar. Não conseguimos encontrar o estabelecimento aberto, pois voltávamos meio tarde dos passeios. Aqui também tem outras opções para comer em Alto Paraíso. Não vá embora da Chapada sem provar o tradicional salgadinho Gergeliko, feito, como o nome sugere, com gergelim. É uma febre entre os locais e um ótimo snack para levar na mochila durante os passeios.

Contato do nosso guia: *O Daniel está em um ano sabático, viajando pelo mundo. Então em vez de tentar os contatos a seguir, é melhor entrar em contato com a empresa a qual ele era afiliado, a Itakamã Ecoaventura* Daniel de Faria (perfil no facebook aqui). delcfaria@gmail.com. Celulares: 62 8305-0177 ou 61 8594-0263 (é bom ligar com antecedência, pois o sinal de celular é muito ruim na Chapada. Ou seja, o guia pode ver sua ligação perdida somente à noite).

O que levar nas trilhas: tênis (chinelo é uma das maiores causas de acidentes), filtro solar, boné ou chapéu, repelente (não tinha muito mosquito, mas o quadro muda durante a estação das chuvas) e um lanche, pois muitos dos lugares não vendem comida ou água.

Outros passeios: Dá para passar mais de uma semana visitando a região sem conhecer todas suas belezas. Gostaríamos de ter feito a tirolesa Voo do Gavião e relaxado nas águas termais à noite tomando um vinho, mas fica para uma próxima viagem.

 

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16 comentários em “4 dias na Chapada dos Veadeiros: como aproveitar os melhores passeios

  1. Ai Let, ler esse relato me fez reviver cada momento. Assino embaixo! Pra mim a Chapada é especial. Tanto que foi a 2a vez no mesmo ano e ainda faltam cachus pra conhecer (Sta Barbara por exemplo). Poxa, que chato, vou ter que voltar. rsrs
    Obrigada pela companhia nesta aventura. Foi muito bom conhecer vocês! Espero que não seja a única. Falou em viagem, falou comigo. E gatos (felinos) tb. rs Lembrarei tb das jabuticabas…rs beijos

    • Eu também já quero voltar! Vários outros lugares para conhecer! Valeu mesmo pela companhia!!!!!!!!!! Vou te passar as fotos daqui a pouco! bjão e let’s keep exploring! 😉

  2. Adorei o relato, assim quem não conhece a Chapada dos Veadeiros pode vir sem susto, com tantas dicas ótimas. Aqui é um lugar mágico, bem diferente de qualquer outro lugar. Eu gosto muito desse lugar, sem falar no clima que ainda temos ar puro, muita água, comidas gostosas e sossego.

  3. obrigada,Leticia, pelas dicas
    meu marido e eu estms indo em meados de Agosto e boas dicas sempre são bem vindas!!!
    Bia

  4. Olá, teria como informar quanto que o guia cobrou no total? Obg! 🙂

    • Oi, Luma! O valor fica em U$ 180/pessoa para a agência + 180 bolivianos de entrada para os parques + gorjeta para o motorista/guia ao final (mas não lembro quanto demos)

  5. Pretendo fazer esse passeio logo viajei nesse relato muito proveitoso obrigado mesmo.Moro em Brasília tão perto vou a lugares longínquos atrás de belezas naturais como alter do chão no Pará e não me atentei para beleza do nosso cerrado

  6. Muito obrigada pelas dicas Leticia. Um roteiro e tanto extremamente proveitoso e ricos em detalhes. Pretendo ir agora em outubro. Suas dicas me esclareceu muitas dúvidas.

  7. Olá boa tarde.

    Gostei bastante dos roteiros, porém notei que não visitaram o Parque Nacional.

    Estou certo? Se sim, por quê optaram por não visitar?

    Obrigado.

    • Oi, Dyego! As atrações mais legais dentro do parque são meio longe, dependendo de trilhas extensas. E, nos disseram, que as mais bonitas ficam foram do parque (essas que fomos). Então optamos por esse roteiro. Com mais dias, no entanto, teríamos feito o parque também. Um abraço!

  8. Você poderia colocar o gasto que você teve nesses 4 dias, o valor incluindo tudo? Agradeceria

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