Porto: uma cidade vibrante em Portugal

Ficamos muito espantados quando escutamos a guia contar que Porto leva a fama de ser uma cidade cinza. Ao que parece, o grande uso de granito nas construções é o culpado por essa reputação infundada. Porque de cinza, Porto não tem nada. Aliás, achamos a cidade alegre, cheia de vida e de coisas para fazer. Uma delas é o free walking tour  que explora o centro antigo e repassa várias lendas e contos da cidade que você provavelmente não aprenderá na wikipedia. Funciona da mesma maneira que nos outros “tours gratuitos” europeus, você vai até o ponto de encontro (todos os dias na Praça da Liberdade, às 10h, 11:30h, 14h e 16h), escuta as histórias do guia por algumas horas e, ao final, paga uma gorjeta (5 euros por pessoa está excelente!)

Conseguimos visitar a maioria dos pontos turísticos a pé, passando pela Praça da Liberdade, por ruas centrais portuenses, pela Torre dos Clérigos (marco da cidade), pela região da Ribeira, por vários mirantes menos óbvios, por igrejas monumentais e pela Livraria do Lello, uma das mais bonitas do mundo, tendo sido usada como inspiração para a criação de um espaço similar na coleção de livros do Harry Potter (vale a pena visitar, porém só é permitido bater fotos das 9h às 10h).

Interior Livraria Lello em Porto

Livraria Lello (foto: publico.pt)

Foi neste passeio também que aprendemos o quanto Porto foi influenciada pela igreja católica. Enquanto os reis e a nobreza ditavam as regras em Lisboa, Porto virou a capital religiosa do país no século XII, quando a rainha Dona Tereza doou a região para o bispo D. Hugo, responsável por administrá-la. Em um decreto polêmico, o governador religioso proibiu portugueses do restante do país de morarem em Porto, a não ser que tivessem aprovação prévia do bispo. Quem não respeitasse a lei poderia ter sua casa queimada. O poder do bispo daquela época é visível até hoje em casas que ainda apresentam marcas católicas na fachada, indicando que pertenciam à igreja, bem como em monumentos impressionantes, como a Igreja de São Francisco, originalmente construída em estilo gótico sem adornos pela ordem franciscana e posteriormente revestida com aproximadamente 400 quilos de ouro nos séculos XVII e XVIII. O contraste entre a austeridade das paredes originais e a opulência de sua decoração são muito interessantes.

Marcos religiosos nas casas antigas em Porto.

Marcos religiosos nas casas antigas em Porto.

Contraste das paredes originais com o trabalho em madeira e ouro na Igreja S. francisco

Contraste das paredes originais com o trabalho em madeira e ouro na Igreja S. francisco. Foto: wikipedia

Ainda caminhando pela cidade, é possível notar um contraste mais recente. Com a crise econômica dos últimos anos, muitos estabelecimentos fecharam as portas em áreas nobres, como na Rua das Flores e em outros setores do bairro conhecido como “baixa”. As janelas fechadas e portas cimentadas para evitar invasões poderiam ter fincado o cinza de vez em Porto, não fossem por artistas urbanos como Hazul, que aproveitam a tela de concreto para criar obras coloridas. O legal é que essas exposições a céu aberto combinam super bem com o espírito de renovação pelo qual a cidade tem passado. Um exemplo disso é a própria Rua das Flores, que virou uma passagem somente para pedestres, onde se pode encontrar uma gastronomia mais contemporânea, bem como outros empreendimentos criativos que misturam as tradições com novas influências.

Portas de cimento e muita cor em Porto

Portas de cimento e muita cor em Porto

Em nossa passagem por lá, nos encantamos com a Chocolateria das Flores e seu delicioso pastel de nata com cobertura de vinho do porto e chocolate (dois cafés, uma torta, uma casquinha de amendoim e um pastel de nata custaram 7,50 euros). Outro lugar legal é a Mercearia das Flores (eu sei, os portugueses não são muito originais nos nomes), uma loja de produtos gastronômicos locais que são ótimos presentes! Nós compramos uma geleia de vinho do porto com melão que está pedindo para ser aberta!

Vitrine da deliciosa Chocolateria das Flores

Vitrine da deliciosa Chocolateria das Flores

Caso prefira levar lembrancinhas mas duradouras para casa, é só passar no Urban Market do Passeio das Cardosas, bem no finalzinho da Rua das Flores, em frente à estação de trem São Sebastião. Essa feirinha livre funciona a cada duas semanas aos sábados e domingos durante o verão e tem um dos artesanatos mais bonitos e originais que vimos em nossas viagens. O único problema é resistir à tentação de levar tudo na mala… Saindo dali, dá para visitar a estação de trem, que tem lindos painéis em azulejo, ou caminhar mais um pouco até a Rua Galeria de Paris, um reduto de barzinhos e animação seis dias na semana. Infelizmente, no domingo a festa na maioria das casas da Galeria acaba, a não ser pela La Boheme que fica aberta para todas as refeições durante a semana inteira e ainda oferece música ao vivo à noite.

Azulejos na estação de trem São Bento

Azulejos na estação de trem de São Bento

Depois de andar horas seguidas pelas ruelas portuenses, a fome bate forte. Para comer bem sem gastar as fortunas da Ribeira (a região junto ao Rio Douro onde há uma concentração exorbitante de turistas), escolha algum restaurante ao redor do Museu de História Natural. Há várias opções charmosas nessa região. Nós adoramos o polvo do Zé Bota (30 euros para duas pessoas), mas também nos recomendaram o Papagaio e o Lagostin, esse último um restaurante mais barato usado muito pelos estudantes.

Construções da Ribeira

Construções da Ribeira

Porto tem uma gastronomia variada, que vai além dos frutos do mar e do bacalhau, muito consumidos em todo país. Há diversos pratos típicos, a francesinha (um sanduíche com carnes variadas, queijo derretido e molho temperado que é uma bomba calórica), a feijoada de mariscos (com feijão branco e muito sabor), o ensopado de tripas (que não provamos) e a alheira, que tem uma história peculiar que eu conto em seguida. Em 1.497, o Rei decretou a expulsão da comunidade judaica do país. Os judeus que ficassem, teriam que se converter ao cristianismo. Como ninguém muda de credo por imposição governamental, muitos judeus criaram formas de esconder suas crenças religiosas. Uma delas foi imitar o costume dos portugueses de pendurar em suas janelas embutidos de porco, carne que não consomem. Assim, os pseudo-cristãos inventaram uma linguiça similar de frango e de outras aves que acabou caindo no gosto popular e virando parte do cardápio tradicional da cidade.

Francesinha Porto

Francesinha Porto

Ambiente Zé Bota (foto: trip advisor)

Ambiente Zé Bota (foto: trip advisor)

Para arrematar tantos pratos diferentes com algo ainda mais tradicional, nada como tomar um vinho do porto. O curioso é que a bebida é preparada, fabricada e embalada na cidade vizinha de Gaia. O vinho só ganhou este nome por ter sido exportado através do Porto, ou seja, a cidade leva a fama mesmo sem abrigar nenhuma etapa do processo produtivo. Como o acesso a Gaia é bem simples — a divisa fica a apenas alguns minutos de carro até o outro lado do Rio Douro — não dá para passar por aqui sem incluir uma visita a alguma cava de vinho. Nós escolhemos fazer o passeio na Croft, agendando um tour explicativo que culmina em uma degustação de três variedades por 5 euros/pessoa. Há inúmeros outros produtores, todos apinhados na margem do Rio Douro. O mais procurado, porém, é o Cálem devido a sua proximidade do Porto (muitos viajantes atravessam a ponte que liga as duas cidades a pé). Apesar desta cava viver lotada e ser mais comercial, a empresa oferece apresentações de fado todos os dias às 18:30 (o último horário disponível para o tour), um bom diferencial para atrair aqueles que querem uma experiência mais completa.

Visitando a Croft

Visitando a Croft

Acho que teríamos visitado todas as cavas de Porto, não fosse o fato de termos apenas dois dias por lá. Adoramos a energia da cidade! Teremos que voltar para explorar o Rio Douro de barco, quem sabe indo até a Espanha, e conhecer outros museus e restaurantes despretensiosos com boa comida. Agora era hora de voltar para Lisboa para pegar o avião até a Ilha da Madeira, mas não antes de darmos um pulinho em Guimarães, uma linda vila a 55 km de Porto, para conhecer o seu famoso castelo, outro integrante na lista das 7 maravilhas de Portugal. Se você tem pouco tempo em Porto, no entanto, desconsidere a visita ao Castelo de Guimarães (5 euros/pessoa). A construção é até interessante, mas passa longe de ser imperdível e tem poucas informações históricas pertinentes.

Exterior do Castelo de Guimarães

Exterior do Castelo de Guimarães

Quartel antigo de Guimarães ( mais legal que o castelo)

Quartel antigo de Guimarães ( mais legal que o castelo)

Porto, obrigada por tudo! Contarei a todos o quão colorida e vibrante você é! Colocarei até no título, prometo! Saiba que esses dois brasileiros levarão algumas ótimas lembranças para casa e que seus sabores, agito e história lhe fazem única. Não sabemos o que virá pela frente, mas se voltarmos a Portugal, com certeza teremos um encontro marcado. Até logo.

OUTRAS INFORMAÇÕES:

  • Hospedagem em Porto: Ficamos no Hostel Cinema Rivoli, um lugarzinho simples, limpo e moderno no centro histórico com uma decoração legal e wifi gratuito (49 euros/quarto de casal). O café da manhã tinha bolo, pães artesanais, geleias, queijo, manteiga, cereais, café e chá. A Joana e a Carol, que trabalham na recepção, foram super simpáticas e nos ajudaram um monte. Perto do albergue, há um estacionamento coberto pago (9 euros pela diária).
Sala cool do hostel Cinema Rivoli

Sala cool do hostel Cinema Rivoli

  • Aluguel de Bicicleta em Porto: Para quem chega de trem, uma boa opção para conhecer a cidade é alugar uma bike ou uma lambreta (13,50 euros e 18,50 euros por dia respectivamente, com a Vieguini. Há descontos progressivos, se for alugar por mais tempo.)
  • Tours pelo Rio Douro: Há um quiosque da empresa Douro Acima na Ribeira e outro ao final da Rua das Flores (de frente à estação de trem) que vendem tickets para os passeios de barco. O mais simples dura uma hora e custa 10 euros por pessoa.
  • Mais lugares legais para comprar lembranças: a loja O Porto Craft Market tem artesanatos muito legais. Outra opção bacana é passar em uma das lojas especializadas em sardinhas em conserva (todas com lindas latas!) espalhadas pela cidade (há uma na Rua das Flores).
Vitrine da loja O Porto Craft Market

Vitrine da loja O Porto Craft Market

 

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