Depressão pós volta ao mundo? Como se readaptar.

Para quem passa muito tempo viajando – intercambistas que estudam em outro país ou mochileiros que dão a volta ao mundo – a readaptação à rotina no Brasil pode ser um pouco difícil. Não é para menos. Ficar um tempo fora explorando o mundo é viver uns cinco anos em um: conhecendo culturas diferentes, se desafiando em atividades de aventura, aprendendo a se comunicar melhor, lendo sobre a história e dilemas de vários povos e, o mais importante, criando um momento exclusivo para se desvendar, escutar a própria alma e entender o que sentimos e pensamos lá no fundo.  

Aí chega a hora de voltar para casa. Você, carregando esse turbilhão de novidades e pensamentos, sai com um amigo para conversar. “E aí, o que aconteceu enquanto eu estive fora?”, você pergunta. “Ah, nada demais. Aquela correria, você sabe.” E é isso. “A correria.” O código que na verdade representa “rotina.” Ou, mais precisamente, “correr fazendo um monte de tarefas sem sentido e não ter nada de interessante para dizer.” Você, quase explodindo de coisas para dividir, começa a perceber que muitas das pessoas à sua volta não querem realmente te escutar. Sim, às vezes por inveja, afinal você venceu o medo e as convenções e foi lá viver o sonho de muita gente. No entanto, na maioria das vezes o desinteresse provavelmente não seja tão mesquinho, mas somente um reflexo da natureza de viagens sabáticas.

Einstein, em sua teoria da relatividade restrita, relata que o tempo passa mais lentamente para quem é acelerado a altíssimas velocidades. O que isso significa? Lembra dos filmes de ficção científica da Sessão da Tarde quando alguém viajava por imensas distâncias no espaço vivendo mil aventuras intergalácticas e, ao retornar à Terra, haviam se passado apenas alguns minutos? É exatamente isso, sem o foguete. Enquanto para seu amigo só deu tempo de ir ao banheiro, você volta contando histórias para encher uma vida. É difícil fazer esse encaixe em uma conversa. Você acaba morrendo de tédio e seu amigo sem conseguir compreender tudo o que você está dizendo.

Se você acabou de voltar de viagem, comece a se considerar um viajante intergaláctico. Seu planeta, seu mundinho antigo, provavelmente continua o mesmo. A única pessoa que saiu num rabo de foguete foi você. Você mudou. Você está transbordando. Então você precisa encontrar um novo mundo para chamar de seu, antes que se torne mais uma vítima da famosa “depressão pós-viagem”.

Como já passei por isso, meu conselho para se adaptar mais facilmente à sua cidade é: não se adapte! Isso mesmo! Não adianta tentar se encaixar na fôrma antiga, ela não cabe mais em você. Aproveite o espírito viajante, responsável pela sua fome de aprender, e se jogue em algum curso, encontre pessoas novas, abra a cabeça para conhecer outro lado da cidade, ou até mesmo rever amizades antigas. Você pode se dar conta que seu novo eu tem mais a ver com pessoas que já faziam parte da sua vida, mas não do seu círculo mais íntimo. Ou não. A viagem pode te fazer enxergar ainda mais camadas naquela amiga que já era super especial, nunca se sabe.

A verdade é que o fim de uma longa viagem nada mais é que o começo de outra jornada. É tempo de vasculhar o que aprendemos sobre nós mesmos e buscar o caminho que faz mais sentido. Às vezes, isso significa cair na estrada novamente. Às vezes, passar uma peneira na nossa vida antiga. Outras, apenas dar mais valor ao que se tinha antes de fazer as malas. Não há regras. O fato é, como viajante intergaláctico, você será o capitão e também o marinheiro. Responsáveis por comandar e criar seu novo mundo com a única coisa que realmente se traz de uma viagem dessas: um olhar de vida mais amplo. Boa viagem!

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7 comentários em “Depressão pós volta ao mundo? Como se readaptar.

  1. Cara to pasma,esse texto descreveu com todas as letras o que aconteceu comigo qdo fu ipra Europa pela primeira vez ano passado,eu voltei transbordante eas pessoas pareciam tão desinteressadas ou não faziam o assunto fluir por falta mesmo de conhecimento ou sintonia, mas ao invés de ficar deprê, eu fiz várias coisas baseadas na minha experiência,tomei muitas iniciativas nos meus negócios ,na vida como um todo,abri uma conta no face que eu relutava antes e descobri sua página e stou curtindo cada dica e já programando minha próxima aventura pelo mundo,quem sabe um dia até uma volta ao mundo,um abraço Letícia.

    • Que legal, Erica! Eu também mudei um pouco meus planos depois que cheguei. Já vinha sentindo o vento da mudança antes de viajar, e aí, quando voltei, tudo se confirmou dentro de mim. Tenho me arriscado bem mais (depois de dar a volta ao mundo penso: “não há nada que não consigo fazer!”) para dar vazão à minha natureza, que precisa estar sempre em movimento. O blog também é para isso: deixar as ideias transbordarem! Rs. Bjãoooo

  2. Paty Borek esta se sentindo ” post de giros por ai” ( em giros por si, tbm)

  3. Verdade, me sinto assim tbm, como se eu não me encaixasse mais em nenhum espaço pré-existente, tenho que procurar novos espaços a serem explorados que possam se moldar ao meu novo ser…Que alegria saber que não estou sozinha, que outras pessoas também sentem-se assim =)

    • Conversando com outros viajantes, vejo q isso é muito comum… E mesmo assim, ninguém trocaria a experiência da viagem por nada!!! Rs. Força aí! 🙂

  4. Muito legal! É impressionante como realmente uma peneira é feita quando voltamos. Amizades que não eram amizades, preocupações que não eram importantes, desejos que não faziam sentidos.. e por aí vai. A cabeça muda demais! Adorei o texto!

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