Em terras capixabas: dicas legais para visitar Vitória/ES

Com 17 anos, eu saí de Vitória/ES, cidade onde cresci, para estudar nos EUA. Hoje, já com 36 anos, faz mais tempo que moro fora da minha terra natal do que vivi nela. Para quem é meio cigano como eu, o processo de girar por aí soa bem familiar: a gente vai perdendo o sotaque, a conexão com os dilemas locais, e não faz ideia do que responder quando alguém nos pergunta dicas atuais de onde ir.

Quem vem acompanhando o blog sabe que uma das minhas metas para 2014 é viajar mais dentro do Brasil. E por que não incluir Vitória no meio? Sim, eu já voltei várias vezes para datas comemorativas e para ver minha família, mas nunca para ver a cidade. E então, cá estou eu, com meu olhar de viajante, redescobrindo minhas raízes e um monte de lugar bacana que eu nem sabia que existia.

Vitória é realmente uma cidade bonita, uma ilha abençoada com ótimo clima a maior parte do ano. Particularmente, eu prefiro visitá-la durante o inverno/outono, quando os capixabas juram que está frio (e o ponteiro aponta 25 graus) e as chuvas são mais esparsas. No verão, as praias e o termômetro fervem, com muitos programas praianos, porém também há uma chance maior de chuvas torrenciais que já fizeram notícia por deixar tudo alagado.

Independente da estação, você não pode passar por aqui e deixar de conhecer o grande marco da cidade, o Convento da Penha, construído em 1660 no topo de um penhasco coberto por mata atlântica em Vila Velha, cidade que faz parte da Grande Vitória. Infelizmente você não encontrará folhetos explicativos sobre sua história no local, mas a vista lá de cima é belíssima. Você pode chegar ao convento de carro, porém o mais legal é subir pelo “caminho da penitência,” uma via de pedras talhada entre a mata, onde você consegue avistar micos ou o ocasional peregrino de joelhos.

Convento da Penha

Convento da Penha

Entrada do Caminho da Penitência no Convento da Penha

Entrada do Caminho da Penitência no Convento da Penha

Caminho da Penitência Convento da Penha - Pedras foram trazidos pelos índios

Caminho da Penitência Convento da Penha – Pedras foram trazidas pelos índios

Embora um pouco íngreme, o caminho não é tão longo. E se você cansar, dá para usar a penitência como ótima desculpa para visitar a fábrica da Garoto, que fica ali pertinho. A marca de chocolates oferece tours para conhecer seu processo produtivo, que tem inclusive ilhas de bombons onde você pode comer até passar mal, um sonho para a maioria da criançada e dos chocólatras! Só se prepare para a boca seca, pois você só poderá tomar água quando sair da fábrica. Para agendar o passeio, que custa R$ 15,00 (aceita cartão de crédito) e dura mais ou menos duas horas, é preciso reservar um horário através dos telefones (27) 3320-1708/3320-1709 ou pelo e-mail programa.visitas@garoto.com.br. No final do tour, você ainda pode passar na lojinha que tem produtos fresquinhos e bem baratos! Eu comprei 10 bombons para levar de presente por R$ 3,10!

Vista Convento da Penha

Vista Convento da Penha

Outra Vista do Convento da Penha - Baía de Vitória

Outra Vista do Convento da Penha – Baía de Vitória

Entrada fábrica Garoto em Vila Velha

Entrada fábrica Garoto em Vila Velha

Falando em comida, comer bem é um dos esportes preferidos dos capixabas. Também, não faltam opções na alta ou baixa gastronomia para se tornar profissionalmente bom de garfo. Não posso acreditar que morei em Vitória e nunca tinha sentado no Bar do Ceará, um dos estabelecimentos mais tradicionais da cidade, que funcionou mais de 20 anos sem cardápio! O boteco fica a apenas algumas quadras da sede de uma das escolas de samba mais importantes de Vitória, a Unidos de Jucutuquara, que anima a galera durante o carnaval, que acontece uma semana antes da data oficial, já que o capixaba gosta tanto da festa que comemora antes em casa e depois novamente em outros lugares do Brasil. Nada mais natural, então, que os sambistas da área se reúnam no Ceará, improvisando um sonzinho e tomando uma batidinha de fruta (a de pitanga ou de cajá são deliciosas – R$ 5,50) enquanto beliscam a especialidade da casa, os pastéis (amei o de feijoada e o de siri – R$ 4,50/unidade).

Você não é fã de cadeiras de plástico e bares no estilo “pé sujo”? Tudo bem, vá para o Soeta, que desde sua inauguração em 2010 vem acumulando vários prêmios locais e nacionais. No comando da casa estão Bárbara Verzola e Pablo Pavón, que trouxeram para a cidade a ousadia e técnicas do estabelecimento onde se conheceram, o extinto El Bulli, o restaurante catalão de Ferran Adrià, eleito repetidamente o melhor do mundo pela revista inglesa Restaurant. Apesar de usarem um pouco de gastronomia molecular, os pratos não são só espumas disso e pérolas daquilo. Pelo contrário. As técnicas contemporâneas são usadas somente para realçar sabores e texturas, resultando em uma experiência deliciosa sem muita frescura. Para o almoço, o cardápio conta com pratos executivos a preço fixo, incluindo entrada, prato principal e sobremesa, além de outras opções à la carte. À noite, além do cardápio da estação, você pode optar pelo menu degustação (35 maravilhosos pratos por R$ 168/pessoa sem bebidas) ou pelo menu tradição, uma seleção com os cinco pratos que entraram para a história do Soeta (R$ 118,00/pessoa com bebidas à parte). Nós escolhemos essa última opção, e ficamos maravilhados com a crocância dos chips de batata doce, com a cremosidade no nhoque de provolone, o sabor defumado do espaguete de presunto parma com cogumelos, a maciez da carne de cordeiro com legumes e purê de batata doce e, finalmente, com a combinação de texturas do cannelloni de pana cotta com amêndoas e sorvete de coco. Yum yum!

Fachada Restaurante Soeta

Fachada Restaurante Soeta

Soeta quer dizer "coruja", como o pai da Chef Barbara a chamava quando criança. A casa, então, é cheia de corujinhas de enfeite

Soeta quer dizer “coruja”, como o pai da Chef Barbara a chamava quando criança. A casa, então, é cheia de corujinhas de enfeite

Alguns dos pratos servidos no menu Tradição - Restaurante Soeta

Alguns dos pratos servidos no menu Tradição – Restaurante Soeta

Eu sei. Falei e falei sobre comida e ainda nem comentei sobre o prato típico da cidade, a moqueca. Para você ver como a vida aqui é difícil. Talvez por isso a galera local goste tanto de esportes, lotando as mil academias, correndo no calçadão, ou se arriscando em atividades mais aventureiras, como a trilha com rapel negativo no Morro do Moreno em Vila Velha, a cidade vizinha. A trilha é bem tranquila, demorando somente 20 minutos até o topo, onde você tem a vista mais bela da baía de Vitória e do Convento da Penha. O local também é excelente para caminhadas, mountain bike, voo livre de parapente ou somente para meditar.

Entrada do Morro do Moreno

Entrada do Morro do Moreno

Preparada para o Rapel no Morro do Moreno em Vila Velha

Preparada para o Rapel no Morro do Moreno em Vila Velha

Depois de suar um pouquinho, dá para voltar a falar da moqueca, né? Óbvio, como boa capixaba, esse é o meu prato predileto. Ao contrário da receita baiana, a versão no Espírito Santo é bem mais leve e saudável, não levando leite de coco e azeite de dendê. De peixe, de camarão, mista, de polvo, de mariscos, não importa. Moqueca para mim é capixaba, o resto é peixada. Eu levo esse assunto a sério. Tanto que me propus a visitar pelo menos três restaurantes antes de falar sobre esse prato típico (desculpa boa, não?). Abaixo, minha avaliação:

  1. Caranguejo do Assis (na Praia da Costa, em Vila Velha): como o nome já diz, o lugar é na verdade especializado em caranguejo, servido aos montes na panela de barro (o preparo da caranguejada é diferente na cidade, tendo receita especial). Já a moqueca é ok, uma boa opção para o pós-praia (perto do restaurante fica um dos points mais lotados do verão), mas não chega nem perto das melhores opções da região. A moquequinha, a versão individual do prato, fica entre R$ 43 e 49.
  2. Restaurante do Geraldo (em Jardim da Penha, ou na praia de Manguinhos, na Serra): O primeiro endereço, em Manguinhos, existe há mais de 50 anos. Eu gosto muito do “caldinho” da moqueca, o menos gorduroso da cidade com bastante tomate e cebola, e da qualidade dos mariscos, escolhidos pelo próprio Geraldo Rodrigues, que aprendeu a receita com a mãe, Doninha. A moqueca de badejo e camarões médios, para duas a três pessoas, custa R$ 151,50, com arroz e pirão. Também adoro a casquinha de siri e o arroz de polvo de lá.
  3. Restaurante São Pedro: Inaugurado em 1952, é considerado o berço da moqueca capixaba (o fundador da casa inclusive inventou o tripé que segura a panela de barro, antes servida em uma bandeja). A filha dos fundadores é hoje a responsável pelo restaurante, que tem um salão agradável ao lado de um jardim com samambaias. Achei a moqueca gostosa, com preços parecidos com os pratos do Geraldo: R$ 130 para a moqueca de badejo com camarão pequeno e R$ 120 para a de siri desfiado (servem duas pessoas).
O tradicionalíssimo Restaurante São Pedro

O tradicionalíssimo Restaurante São Pedro

Comendo moquecas em Vitória

Comendo moquecas em Vitória

Moqueca, para o capixaba, é sinônimo de praia e dias ensolarados, é difícil você ver um nativo escolher o prato para o jantar. No verão, no entanto, esse e outros preparos com frutos do mar são quase obrigatórios depois de ficar horas largateando no sol. Se você quer aproveitar a cidade nessa época do ano, precisa se familiarizar com o ritual de final de semana: pegar praia, tomar uma batidinha ou um picolé de fruta do Ajellso (marca local, com sabores como cajá, araçauna e coco com abacaxi a R$ 2,00) na areia, e depois almoçar na orla. Mas para que praia eu vou? Bom, Camburi em Vitória é voltada mais para os esportes, como corridas ou caminhadas, vôlei etc. A Ilha do Boi, também na cidade, é mais frequentada por morados desse bairro durante a semana e por pessoas dos subúrbios aos sábados e domingos. As melhores opções estão mesmo em Vila Velha. Quando se trata de praia, os capixabas migram para a Praia da Costa, em frente ao Hotel Parságada, local conhecido como “Posto 9” (apesar de não existir nenhuma placa ou lugar com esse nome por lá). No começo dessa mesma praia, há um local apelidado de “Beverly Hills” (mais ou menos em frente a um edifício com número 3330), onde a faixa de areia é mais larga e você encontra uma vibe mais alternativa. O capixaba também vai muito para Guarapari, um balneário a 54 km de Vitória, onde a galera jovem lota a Praia da Bacutia, que em 2012 ganhou uma unidade do Taikô, o famoso bar ao ar livre da Praia de Jurerê em Floripa.

Picolés Ajellso na Praia da Costa

Picolés Ajellso na Praia da Costa

Praia "Beverly Hills" em Vila Velha

Praia “Beverly Hills” em Vila Velha

Se você aguentar ficar acordado depois de passar o dia na praia, aproveite para passear pela Praia do Canto, o bairro mais charmoso da cidade, cheio de lojinhas bonitas, cafés interessantes e os bares mais famosos. Na Rua Aleixo Neto, você consegue fazer umas comprinhas legais (a Magia do Mar, marca de biquínis e roupa de academia, é daqui, com preços mais baratos em sua loja própria) e depois fazer uma parada para um cafezinho na Cremino Gelateria. À noite, a região conhecida há mais de 20 anos como Triângulo das Bermudas (entre as ruas Joaquim Lírio e João da Cruz) ferve. Por ali há vários bares bacanas. Um dos meus prediletos é o Ensaio Botequim, todo decorado com temas musicais, como o nome sugere, e música ao vivo. Especializado em comida de boteco aos sábados e feijoada com samba aos domingos (buffet livre por R$ 26,90), você não pode deixar de pedir o bolinho de bobó de camarão (sucesso no festival Comida de Boteco, R$ 31,00) e uma Caipi Musical para acompanhar (caipirinhas de lima, maracujá e gengibre e outras combinações de frutas de R$ 11 a 15).

Bebida "mojitão" serve mil amigos por 45,00

Bebida “mojitão” do Ensaio Botequim, serve mil amigos por 45,00

Decoração musical do Ensaio Botequin (e lindo lustre de copos!)

Decoração musical do Ensaio Botequim (e lindo lustre de copos!)

Um outro lugar legal, que descobri dessa vez, é a Cachaçaria Sabor da Cachaça, na orla de Camburi. Dá para sentar em uma das mesinhas na frente do mar no final da tarde e ir degustando várias cachaças, como a deliciosa B Honey (com mel, R$ 10,00/dose), e ainda experimentar petiscos diferentes como o pastel de massa de polenta.

Toda vez que eu voltava a Vitória, era como viajar no tempo, revisitando memórias e pessoas queridas. Dessa vez, a viagem foi uma redescoberta. Me encantei com uma cidade muito diferente daquela dos meus anos adolescentes. Essa é parte mais legal do olhar viajante, a gente se permite enxergar uma gama muito maior de oportunidades, seja do outro lado do mundo, seja na rua ao lado. E então, a boa filha à casa torna. E tornará ainda mais para encontrar outras novidades a partir de agora.

 

OUTRAS INFORMAÇÕES:

  • Táxi de Vitória para Vila Velha: R$ 29,00 (o aplicativo do Easy Táxi funciona muito bem por aqui). Você pode alugar um carro no aeroporto, se quiser ir para Guarapari por exemplo, mas dentro da cidade o táxi é barato e chega rápido (as distâncias são curtas).
  • Trilha com rapel no Morro do Moreno: R$ 50,00/pessoa com a Climb Aventuras ou com a Rapel e Aventuras (contato pelo e-mail lagartoadventure@gmail.com).
  • Site com dicas atualizadas sobre a cidade: http://www.soues.com.br/
  • Outras opções legais para comer moqueca são o Papaguth que tem uma vista legal para a baía de Vitória e o Pirão, na Praia do Canto, que ganhou o prêmio de melhor moqueca da cidade em 2014 por jurados da Grande Vitória.
  • Hospedagem em Vitória: Para opções mais em conta, há dois IBIS na cidade, um na orla da Praia de Camburi, outro no miolo do bairro Praia do Canto (muito bem localizado, perto das lojinhas, padarias, barzinhos etc.). Há também o Bristol La Residence Victoria Apart Hotel na frente da Praia de Camburi (no bairro Mata da Praia), um lugar mais tranquilo para quem quer sossego.
  • O Espírito Santo não é feito só de praias, a aproximadamente 100 km de Vitória, por exemplo, fica Pedra Azul, parte da serra capixaba que é lindíssima e vale visitar (com trilhas, boa comida, esportes de aventura e vários festivais). Mas isso fica para outro post, pois dá para gastar alguns dias lá facilmente.

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5 comentários em “Em terras capixabas: dicas legais para visitar Vitória/ES

  1. Muito útil as informações!! Parabéns e obrigado!! Grande abraço!!

  2. Muito boas dicas para quem quiser curtir nossa Vitória que é considerada uma das dez mais em qualidade de vida.

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