Amsterdam no Carnaval – 2a Parte

Começar a degustação com queijo de cabra foi para acabar. Eu amo queijo de cabra. Aliás, eu amo queijo. Ponto. Troco todo o doce do mundo por uns pedaçinhos de queijo. Se tiver vinho então, me esqueça. Com um dos maiores consumo per capita desse produto no mundo e muitas das melhores marcas, era óbvio que eu seria feliz visitando a Holanda. Ou mais especificamente, visitando a loja da Reypenaer em Amsterdam, que oferece uma degustação de cinco variedades de seu portfólio – dois deles campeões na Feira Internacional de Queijos de Nantwich, a maior do mundo – harmonizados com vinho.

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Produtos à venda na loja

A Reypenaer produz queijo desde 1906, usando um processo de maturação que perdura até hoje. Em um armazém de madeira em Woerden, uma das únicas cidades realmente produtoras no país, a empresa matura queijos de cabra, gouda e outras variedades, que absorvem os aromas desse ambiente especial. Para ajudar na divulgação dessas delícias, foi construída uma sala na loja em Amsterdam, onde um connoisseur detalha o processo de produção (focando no ponto forte da empresa, a maturação) e as características a serem observadas no produto para uma avaliação degustativa. O que posso dizer? Foi uma tarde linda.

Mas o dia não havia começado tão feliz assim. Meu primeiro passeio foi escuro e frio como o dia lá fora. Para mim, não tinha como não fazê-lo. Me envolvi bastante com o Diário de Anne Frank quando o li pela primeira vez, anos atrás. Então vir a Amsterdam e não conhecer onde Anne e sua família se esconderam por cinco anos, hoje um dos museus mais populares em Amsterdam, não seria uma opção. Achei a mistura de artefatos do esconderijo, citações do livro e vídeos muito forte. Chorei igual a uma menininha assistindo o depoimento de Otto Frank, pai de Anne e único sobrevivente da família ao Holocausto, sobre a descoberta do diário de sua filha, morta aos 15 anos pelos nazistas.

Se você também se interessa pelo Museu de Anne Frank, a dica mais valiosa que eu posso te dar é: compre os tickets online com pelo menos duas semanas de antecedência. Eles custam o mesmo preço, mas dão direito a um acesso especial, bem mais rápido (o museu não participa de nenhum cartão de descontos de Amsterdam). No dia há ingressos à venda na bilheteria, mesmo que os tickets no site tenham acabado, no entanto, você vai pegar pelo menos uma hora de fila, razão suficiente para começar a chorar antes mesmo de ver a exposição.

A uns cinco minutos de caminhada dali, de frente para a Praça Dam, fica uma das Madame Tussaud’s espalhadas pelo mundo. Se você nunca viu um boneco de cera, o Madame Tussaud é um museu divertido. Eu fiz vários amigos (e inimigos) por lá, como as fotos podem atestar! Do contrário, é só mais do mesmo, sendo melhor só passear pela praça para admirar o Palácio Real, que tem um lindo painel no topo, e o Obelisco Nacional, um memorial para as vítimas da Segunda Guerra Mundial.

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Ficando amiga do Bono

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Ai, Bon Jovi, você fala cada coisa…

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Fazendo inimigos

O almoço na Reynepaer, ou talvez os vinhos que tomei por lá, me deixaram com um pouco de preguiça de voltar para museus, então decidi fazer outro passeio também gratuito com o Holland Pass (15,50 euros sem o cartão), o cruzeiro pelos canais da cidade. O barco da Gray Line explora um pedaço dos 100 km de canaletas de água, passando por debaixo de pontes antigas, contando a história de Amsterdam e oferecendo uma perspectiva diferente. De lá, é mais fácil observar as “casas dançantes” (construções que entortaram com o tempo, depois que a base de madeira apodreceu) e os houseboats, barcos que viraram casas quando a cidade oferecia pouco espaço para construções (hoje estabelecimentos com esgoto, luz elétrica e preços altos para compra, assim como qualquer moradia no centro histórico).

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Vista do Passeio de Barco

Depois da calmaria dos canais, dá para agitar um pouco conhecendo o polêmico Red Light District, localizado em ruas paralelas ao píer Damrak, de onde sai o barco da Gray Line (nas proximidades da Oudezijds Achterburgwal, entre as ruas Gordijnensteeg e Korte Stormsteeg l). Durante o dia, é bastante comum ver famílias e grupos de turistas passando a pé por ali, mas ao escurecer, o lugar fica mais sombrio, com homens malas e bêbados/drogados de bobeira.

O De Wallen, como os holandeses chamam essa região, surgiu oficialmente com a legalização da prostituição em 2000. Entretanto, a área já era um antro sexual muito antes disso, abrigando vários bordeis desde o século XVIII. Ultimamente, com as medidas do governo holandês para impedir o tráfico de mulheres do leste europeu, muitas cabines foram desligadas, restando poucas mulheres nas vitrines e um ar (ainda maior) de decadência. Apesar de todo o debate acerca da legalização, a única coisa que eu senti vendo as “mercadorias” expostas foi um desconforto gigantesco, um sentimento de podridão generalizada, principalmente quando um turista idiota começou a gritar com uma das mulheres. Saí dali meio correndo e fui caminhar pela Oudezijdskerk, a belíssima igreja da cidade velha que, ironicamente, fica no centro do Red Light District. Talvez um jeito interessante de lidar com o tema depois de caminhar pelo bairro seja visitando o Red Light Secrets (7,50 euros), um museu sobre a prostituição em Amsterdam, que eu não tive chance de conhecer dessa vez.

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A praça Dam

Para meu último dia no país, misturei passeios carregados de história com programas atuais de quem mora em Amsterdam. Logo de manhã, visitei o Rijksmuseum (15,00 euros, de graça com o Holland Pass), um museu nacional com exibições de grandes artistas holandeses em ordem cronológica e contexto histórico. Se você já visitou outros grandes museus europeus como o Louvre, o tema pode parecer um pouco repetitivo, mas algumas exposições específicas – como as obras lidando com as antigas colônias, dentre elas o Brasil – prometem te arrancar momentariamente do marasmo.

Contrastando com a meia luz das salas de exposição e o enquadramento pesado das pinturas, o ambiente do Restaurante De Kas não podia ser mais leve e moderno. Situado em um bairro mais afastado do centro histórico, o restaurante foi inaugurado em 2001 na entrada do Parque Frankendael, com um projeto que reflete a filosofia de sustentabilidade do chef Gert Jan Hageman, ganhador de uma estrela Michelin por seu trabalho em outro estabelecimento. Os vegetais e ervas utilizadas no De Kas são plantados no jardim do próprio restaurante, que recebe outros ingredientes de produtores orgânicos locais. O salão principal é feito todo de vidro, imitando uma estufa, permitindo que os comensais apreciem a vista do jardim. Também há um estacionamento para bicicletas na entrada e você pode levar uma maçã ao sair. Uma experiência suave e gostosa, assim como a proposta dos pratos, que são fixos por temporada, de acordo com a disponibilidade dos ingredientes da estação. O almoço com couvert, três entradas, prato principal, água com gás, taça de vinho e café com biscoitos saiu 54 euros, mas você pode optar pelo menu com dois pratos que fica em EUR 39.

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Duas das três entradinhas do De Kas

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Salão de vidro do restaurante

Mais uma vez, era hora de uma atração histórica. O Amsterdam Museum (11,00 euros, gratuito com o Holland Pass) é interessante para aqueles que buscam fatos relacionados unicamente à cidade de Amsterdam. Contando a história desde sua formação até acontecimentos recentes, a visita é relativamente rápida, porém efetiva na demonstração dos valores intrínsecos da cidade, que com o tempo moldaram o espírito criativo e liberal que vemos hoje (não sem alguns bumps along the way, claro).

Ao redor do museu, você verá mais desse espírito livre. É só passear pela Damrak, a rua principal de Amsterdam que sai da estação central, ou pelas outras paralelas, e você encontrará coffeeshops, lojas de moda (e de bugigangas), lanchonetes com frites (batata frita com maionese, um dos vícios locais) e muita, muita gente diferente. Vá vestido do jeito que quiser, com quem você quiser, ou com ninguém. Nada é importante. Ou na verdade, só uma coisa é: você. Sua religião, opção sexual, estilo de vestir, pouco importam. Você é aceito. Independente das dicas legais de passeios que dei aqui, acredite, só essa sensação já é razão suficiente para visitar a cidade.

 

OUTRAS INFORMAÇÕES:

  • Degustação de Queijos na Reypenaer: O passeio custa 15 euros, mas é uma das atrações inclusas no Holland Pass, ou seja, pode ser feita de graça. Eles pedem reserva, mas que pode ser solicitada por e-mail no diana@wijngaardkaas.nl . No final da degustação, você ainda ganha 15% de desconto nos produtos da loja.
  • Baladas e afins em Amsterdam: Como não fui a nenhuma, as dicas são de um amigo que morou na Holanda. “A Leidseplein é uma praça onde estão alguns coffeshops (como o Bulldog, que é tipo o McDonald’s dos coffeshops) e vários cafés e baladas menores para tomar uma cerveja sossegado à noite ou curtir uma música. O interessante deste lugar são as casas de shows que tem na região. A primeira é o Melkweg. A segunda é o Paradiso. O Paradiso é uma casa de shows dentro de uma antiga igreja. A terceira é a Sugar Factory. Portanto, quando estiver lá, vale a pena conferir a agenda de shows destes lugares. Sempre rolam bandas muito legais tocando, geralmente as que estão começando a estourar. Se tiver que escolher entre um show no Melkweg ou no Paradiso, fique com o Paradiso, pela mística do lugar. Se quiser shows com bandas maiores, eles acontecem no Heineken Music Hall. O lugar é afastado da região central de Amsterdam, mas chegar lá de trem é fácil. Para as baladas de música eletrônica, as mais indicadas pelo pessoal de lá são a ESCAPE, a CLUB TROUW e a AIR NIGHT CLUB.”
  • Furadas: Todo mundo que foi me disse que o Amsterdam Dungeons e o Ice Bar não valem a pena. Então repasso a dica.

 

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2 comentários em “Amsterdam no Carnaval – 2a Parte

  1. Eu e meu marido fomos a Amsterdam e cidades costeiras próximas uma vez. Era setembro, final de verão lá. Pegamos um festival lindo na cidade para festejar a estação que se despedia, já com muito vento na cidade. Mas pegamos também dias de sol andando pelos canais e por cidadezinhas à beira mar, comprando pão, queijo e vinho em lojas pequenas e fazendo piquenique próximo aos diques. Foi ótimo.

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