Trujillo: Uma Verdadeira Vila Peruana

“Hum, que cheiro é esse?”

Não, a primeira impressão de Trujilllo, cidade litorânea ao norte de Lima, não foi das melhores. Mal havíamos desembarcado, quando um cheiro forte de esterco nos atingiu. Tentando não ser indelicada, perguntei ao taxista o porquê do odor de fazenda. “É que há vários estábulos perto do aeroporto, e o vento sempre traz o cheiro de volta, né?”

Ainda bem que o vento e as impressões mudam. Mesmo com seu perfume exótico, achamos o centro histórico de Trujillo bem cuidado e interessante, com muitos edifícios coloridos da era colonial. O clima é de cidade do interior, com menos turistas ou opções de hotéis e restaurantes, mas com um povo simpático, sempre pronto para te ajudar ou somente perguntar de que país você vem.

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Plaza del Armas em Trujillo

 

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Casas da era colonial. Adoro essa varandas de madeira.

O grande atrativo de Trujilllo são as ruínas do povo Moche, uma civilização pré-Inca que reinou ao longo da costa norte peruana de 100 a 800 d.C. A cultura mochica era sofisticada, e os artefatos encontrados dessa época (muitos estão no Museu Larco em Lima) espelham sua rotina, com cenas detalhadas de caça, pesca, luta, encontros sexuais e cerimônias. Os moches viviam em uma vila de mais de 20 km2 e eram conhecidos principalmente pela cerâmica elaboradamente pintada, os trabalhos em ouro, as construções monumentais em forma de pirâmide (huacas), o sistema de irrigação avançado e, para nós, pelos sacrifícios humanos.

Os sítios arqueológicos mais famosos são Chan Chan, uma fortaleza de barro pertencente à cultura Chimu, outro povo pré-colombiano, e as Huacas del Sol y de La Luna. Ambos são legais de visitar, principalmente pelos painéis coloridos em alto-relevo que, milagrosamente, resistiram à ação do tempo. Nosso “templo queridinho”, no entanto, fica fora desse circuito. Localizado a 50 minutos do centro da cidade, achamos o sítio conhecido como El Brujo mais complexo e rico em história.

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Huaca del Sol ao fundo e sítio arqueológico no meio

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Apreciando os murais da Huaca de la Luna

Durante 5.000 anos o homem ocupou essa região, desde os nômades caçadores-coletores, passando pelas culturas pré-colombianas até as tribos atuais, deixando um legado de evidências, hoje artefatos do museu El Brujo. Acredita-se que o local é fonte de grande energia, razão pela qual os moches construíram um importante templo ali e, posteriormente, vários xamãs escolheram essas mesmas ruínas para praticar seus rituais sagrados.

A construção mais famosa do complexo, uma pirâmide com três dos cinco andares originais, perde em detalhes para suas irmãs, as Huacas del Sol y da Luna. Porém, o tesouro encontrado ali em 2006 é considerado uma das grandes descobertas arqueológicas da América Latina. La Dama de Cao, uma múmia de uma governante moche do século IV d.C., foi desenterrada com seus objetos cerimoniais, diversas joias e quatro múmias de serventes que deveriam acompanhá-la na vida após a morte. A Dama tinha por volta de 20 anos quando faleceu, provavelmente de complicações pós-parto, e sua múmia desbancou várias crenças sobre o patriarcado das culturas desse período. No museu adjacente às ruínas, é possível assistir ao vídeo de sua descoberta, bem como admirá-la ao vivo, com as tatuagens indicativas do seu importante lugar na sociedade mochica.

Além dos passeios históricos, Trujillo é um bom lugar para surfistas corajosos o suficiente para enfrentar a água congelante do pacífico. Se não for o seu caso, vale caminhar por Huanchaco, a praia dos trujillanos, cheia de restaurantes de frutos do mar e ceviche. Para nós, foi uma boa maneira de relaxar antes das 9 horas de ônibus até Lima e das horas adicionais de espera no aeroporto, para enfim pegar um avião até nosso próximo destino, Cusco!

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Praia em Huanchaco

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Surfista na frente dos Caballitos de Totora, uma canoa antiga.

 

OUTRAS INFORMAÇÕES:

  • Táxi do aeroporto ao centro histórico, 25 soles (USD 9,00).
  • Apesar de bem avaliado por outros mochileiros, nosso quarto no hostel Munay Wasi era beeeem básico. Se bem que não podemos reclamar muito dessa espelunquinha, pois além de bem localizada (ficava dentro do centro histórico), tinha wifi gratuito e café da manhã por apenas USD 14/pessoa.
  • Tours para as Huacas del Sol y da Luna e para Chan Chan: Dá para agendar um tour de meio dia para ambas ruínas por 35 soles/12,50 USD (transporte + guia em inglês ou espanhol), o que não inclui a entrada para os templos (13 soles para as huacas e 10 soles para Chan Chan) e o almoço. Também é possível visitar os sítios arqueológicos separadamente. As linhas de ônibus para os templos ficam ao redor do centro histórico e custam somente 1,50 soles (0,54 USD). Chegando lá, é possível encontrar guias que trabalham somente pela gorjeta. Agendamos todos os tours na cidade com a agência localizada no primeiro piso do Hotel Cabana, perto da Plaza del Armas.
  • Tour para El Brujo: Pagamos 45 soles (16 USD) em uma agência, mais 10 soles para a entrada no museu e sítio arqueológico. Por ficar mais distante da cidade, há menos turistas (e guias que trabalham por gorjeta), então é melhor agendar previamente. Achamos que nossa guia fez toda a diferença na experiência!
  • O restaurante De Marco, na Calle Pizarro, 725, foi um bom lugar para provar a comida local, que inclui ensopados de cabrito e pato.
  • O ônibus noturno para Lima foi uma boa surpresa, com televisores individuais, filmes, poltronas amplas e comida a bordo. Gastamos 99 soles/pessoa (35 USD) com a Cruz del Sur.
  • O cachorro peruano abaixo é uma raça especial do país, com temperatura corporal de 40 graus (o que o faz ótima companhia para pessoas com artrite), sem dentes na mandíbula inferior e poucos pelos. Parece estar sempre perambulando pelos templos.
Cachorro peruano, feio pra burro!

Cachorro peruano, feio pra burro!

 

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