Devorando Lima em Dois Dias

Para conhecer a cultura peruana, você precisa ter muito estômago. Afinal, são 491 pratos típicos, 2.500 receitas de ensopados próprios e 250 sobremesas tradicionais. A gastronomia por aqui é rica e renomada, considerada por muitos como a melhor da América Latina e pelo governo peruano como um patrimônio cultural da nação. Não é por pouca coisa. Desde a segunda metade do século XIX, o Peru tem recebido influencias culinárias de quatro continentes. A cozinha atual, reconhecida e premiada internacionalmente, é um caldo resultante de muitas fusões: da tradição culinária do antigo Peru – com suas próprias técnicas e ensopados – com a cozinha espanhola e sua bagagem moura, adicionada aos sabores trazidos da costa atlântica da África pelos escravos e, mais tarde, misturada aos costumes culinários de chefs franceses que fugiram da revolução em seu país e às receitas trazidas por milhares de chineses, japoneses e italianos que migraram para o país no século XIX.

doces peruanos

Essa mistureba toda deu certo. Na lista dos 50 melhores restaurantes da América Latina, o Peru emplaca sete estabelecimentos nas primeiras 20 posições (antes que você pergunte, o Brasil tem quatro). Desses, três estão no top 10, inclusive no posto supremo de melhor restaurante da região. Ou seja, vir ao Peru e não se esbaldar na gastronomia local é quase como visitar o país e não conhecer Machu Picchu. E já que Lima abriga a maioria dos restaurantes premiados, nada mais natural que conhecer a capital peruana primeiro por seus restaurantes e depois por seus monumentos e museus, certo? Bom, para a gente pareceu assim.

Pela primeira vez em nossas viagens, o foco dos passeios era sempre a refeição, intercalada por outras atividades. Essa estratégia funcionou muito bem para nossos poucos dias em Lima, já que os restaurantes são muito disputados (as reservas devem ser feitas com pelo menos uma semana de antecedência), enquanto os sítios históricos/culturais recebem a todos em horários mais amplos.

Começamos nossa aventura gourmet limeña no Larcomar, um shopping aberto localizado nas falésias à beira-mar de Miraflores, um dos bairros mais charmosos da cidade, onde ficamos hospedados. O complexo tem várias lojas e lugares para lanchar, porém o ponto alto é o Mangos, um restaurante com comidas típicas e uma vista de matar. Além das opções a la carte, eles oferecem um variado buffet (55 soles/USD20), uma maneira fácil de provar vários pratos tradicionais. Só não espere o céu claro da primeira foto abaixo, roubada de um site promocional. Apesar de a capital estar localizada em um deserto com precipitação baixíssima, Lima parece coberta por uma névoa perpétua, causada pela colisão da fria corrente marítima Humboldt com a atmosfera tropical do país. A melhor definição do clima limeño é de meu cunhado, “a neblina em Lima é mais constante e espessa que em um camarim do Planet Hemp.”

larcomar

Foto Promocional Larcomar

Mesmo com o tempo cinzento, foi difícil sair dessa esbórnia culinária regada a pisco sour, a bebida local feita com um destilado de uva, para encarar um museu. Com sono ou não, achamos o Museu Larco imperdível (30 soles/USD10). A coleção não é muito grande, mas suas galerias oferecem uma visão completa de 4.000 anos de história pré-colombiana no Peru, além da conhecida exposição de cerâmica erótica do mesmo período. Vale assistir o vídeo explicativo de 10 minutos antes de explorar o museu, para entender melhor o período histórico. Além da parte cultural, o museu em si é belíssimo, construído em uma casa do século XVIII com um imenso jardim florido na entrada e um ótimo restaurante guardado por uma cascata verde no quintal. Foi ali que eu e Guico tomamos nosso terceiro café, combustível imprescindível para aproveitarmos o restante do dia com olhos abertos.

Exibição no Larco: se arrumar pela manhã era difícil naquela época

Exibição no Larco: se arrumar pela manhã era difícil naquela época

Café Museu Larco

Café Museu Larco

A cafeína extra parece ter surtido pouco efeito. Eu e Guico lutamos para ficarmos acordados no Circuito das Águas, um parque famoso com inúmeras fontes com luzes coloridas projetadas nos jatos de água. Tínhamos lido em algum lugar que era interessante pegar a transição do dia para a noite no parque, para vermos tanto as flores, quanto o show de luzes noturno. Só que calculamos mal o tempo entre o museu e o translado até o Circuito. Ou seja, em vez de chegarmos às 18h e pegarmos dez minutos de sol e o restante de noite, entramos no parque logo após às 16h. Foram duas horas de frio e exercício de paciência, já que os dois cabeçudos aqui não queriam ir embora sem ver as tais fontes coloridas. Posso dizer que a frase “é importante parar para cheirar as rosas” parou de fazer sentido para nós.

Fonte à noite

Fonte à noite

Uma da fontes durante o dia - Fonte "Fantasia"

Uma da fontes durante o dia – Fonte “Fantasia”

Adivinhe qual foi a atração principal do dia? Sim, outra refeição. Largamos as florzinhas e fontes para trás e fomos jantar no restaurante internacional do sítio arqueológico Huaca Pucllana, um centro cerimonial construído por volta de 500 d.C. O restaurante fica quase que em meio às ruínas, que à noite são iluminadas como em um set de cinema. Acho que meu badejo com crosta de quinoa e purê de batata com creme de amora e aspargos salteados ficou ainda mais delicioso com a misteriosa vista de 1.500 anos atrás.

O restaurante e as ruínas Huaca Pucllana

O restaurante e as ruínas Huaca Pucllana

Apesar das maravilhas gastronômicas do primeiro dia em Lima, nossa melhor experiência gourmet ainda estava por vir. Demos sorte em conseguir uma mesa para almoçar no Astrid y Gastón no nosso segundo e último dia na cidade. Tínhamos tentado uma reserva no dia anterior sem sucesso, ainda bem que alguém desistiu de última hora. O Astrid foi classificado como melhor restaurante da América Latina pela William Reed Business Media em 2013 e nós estávamos loucos para fazer nossa própria avaliação.

Escolhemos o menu degustação El Viaje, que explora a imigração italiana no Peru através da cozinha. Para dar intimidade à história, o chef escolheu sabores que relatam a viagem do filho imigrante italiano que deixa seu país. São 25 pratos agrupados em 5 momentos dessa trajetória: “O Adeus”, quando a mãe prepara uma maleta com receitas conhecidas para seu filho; “A Jornada”, retratando a ansiedade da chegada a uma terra desconhecida;  “A Integração”, quando o imigrante tenta se adaptar; “O Triunfo”, quando seu mundo se torna uma mistura de memórias italianas e coração peruano; e “O Retorno”, quando o filho torna à casa com sabores peruanos para sua família.

Primeiro prato da "A Despedida": uma mala com aperitivos

Primeiro prato da “A Despedida”: uma mala com aperitivos

Detalhe do Menu entregue: pratos "A Despedida"

Detalhe do Menu entregue: pratos “A Despedida”

A comida estava fantástica, uma rica fusão de sabores italianos e peruanos, apresentados em pratos lindíssimos com técnicas exemplares. A magia da degustação, no entanto, não fica só na comida. Para tornar a experiência mais real, cada comensal ganha um livreto de couro, com a ordem dos pratos separados por cada momento da viagem, uma foto de Lima dos anos 20, uma carta de um suposto imigrante, os esboços criativos de cada prato, um livro com poesias de viagem e fotos do começo do século XX, um CD com as músicas escolhidas para acompanhar a refeição e, por último, um vídeo com todos os pratos provados. Não experimentamos todos os restaurantes da lista para julgar a classificação, mas temos certeza que o Astrid y Gastón não é só uma gastronomia para os sentidos, mas também para os sentimentos.

Kit inicial para comensais do menu degustação "El Viaje"

Kit inicial para comensais do menu degustação “El Viaje”

 

Delicadeza e superba apresentação dos pratos

Delicadeza e superba apresentação dos pratos

As três horas fantásticas passadas dentro do restaurante ficaram com a gente pelo passeio que fizemos depois até a Plaza del Armas, onde passamos nossas últimas horas em Lima apreciando as estruturas históricas. Mesmo com a beleza imponente do Palácio do Governo, da Catedral e de outras estruturas arquitetônicas, deixamos a cidade com a certeza que adivinhamos seu segredo, as viagens mais especiais por lá não estão em edifícios, mas sim entre uma garfada e outra.

Eu e Guico "tristes" na frente da Catedral

Eu e Guico “tristes” na frente da Catedral

 

OUTRAS INFORMAÇÕES:

  • Os táxis em Lima não possuem taxímetro, então é melhor combinar o preço antes da corrida para evitar surpresas. O trajeto entre o aeroporto e o bairro (que toma pelo menos 1 hora) fica em 40-45 soles (sempre é mais caro saindo do aeroporto), enquanto percursos dentro da cidade custam em média 15-20 soles.
  • Voos – No Peru, você precisa chegar ao aeroporto com duas horas de antecedência para voos nacionais, e 3 horas para internacionais.  Também é necessário mostrar a reserva (pode ser no celular) para que se possa entrar na área de check-in. Para achar voos mais baratos dentro do país, entre no site peruano da Peruvian Airlines e da Taca (pagamos USD 127 de Lima a Trujillo, com taxas, e USD 92 de Lima a Cuzco).
  • Nosso hostel, o 151 Backpackers, era silencioso, com uma ótima localização em Miraflores. Por USD 20/pessoa e café da manhã e wifi gratuitos, foi uma boa opção para quem quer economizar em estadia para gastar em restaurantes renomados. Rs.
  • Restaurante Huaca Pucllana – Faça reserva com pelo menos 4 dias de antecedência para conseguir uma mesa na varanda, com vista para as ruínas. Jantar para o casal com duas entradas, 2 pratos principais, vinho, água e gorjeta ficou em 260,00 soles (USD 94).
  • Gorjeta – No país, normalmente se paga de 10 a 15%, que raramente vêm adicionados à conta. Eles também não gostam de passar a gorjeta no cartão, então é bom ter sempre dinheiro à mão.
  • Restaurante Astrid y Gastón – Reservar com pelo menos uma semana de antecedência. Preço para menu degustação El Viaje para duas pessoas (345 soles/pessoa), com harmonização de vinhos (195 soles/pessoa), mais água e gorjeta saiu USD 400.

 

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3 comentários em “Devorando Lima em Dois Dias

  1. Dentre os vários motivos que me dão vontade de visitar o Peru, depois do seu post, só consigo pensar na gastronomia como razão principal!

  2. Pingback: Cusco e Machu Picchu: realmente incríveis! | Giros Por Aí

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