Nova Zelândia: te amo! (Auckland, Wellington e Queenstown)

Kia Ora, dizia a placa no aeroporto. Pintada no topo de um portal talhado em madeira, as boas-vindas na saída do terminal internacional de Auckland eram no mínimo curiosas. Figuras meio demoníacas com línguas ou falos eretos recepcionavam aqueles que chegavam à Nova Zelândia. Na verdade, os demônios em madeira simbolizam uma parte importante da cultura kiwi, o orgulho da herança māori, um dos primeiros povos a descobrirem as duas ilhas a leste da Austrália.

Essa, aliás, foi uma das primeiras diferenças que notamos entre os australianos e os neozelandeses. Enquanto os aussies parecem relegar a influência aborígene a um segundo plano, os māoris são considerados parte integrante da sociedade. Muitos dos avisos na parede do nosso hostel, por exemplo, eram escritos ambos em inglês e na língua māori, que é inclusive ensinada na escola.

Para entendermos melhor sobre a história desse povo, e da Nova Zelândia como um todo, visitamos o museu Te Papa (aberto das 10 às 18h todos os dias, com encerramento às 21h às quintas) no nosso primeiro dia em Wellington. Ué, mas o aeroporto não era em Auckland? Sim, nós havíamos passado dois dias chuvosos em Auckland – cidade que achamos meio sem graça – antes da ida lowcost para Fiji, mas só começamos a explorar realmente o país quando descemos mais ao sul.

Anyway, de volta ao museu. Localizado na frente da marina e com entrada gratuita, o Te Papa foi uma ótima surpresa. Digo isso depois de ter visitado vários museus ao redor do mundo, muitos com grande conteúdo histórico, mas incrivelmente maçantes ou com informações escassas sobre as coleções. Não era o caso do museu de Wellington, que mistura vídeos, relíquias naturais, iluminação cênica e elementos interativos às instalações. Uma das nossas preferidas foi a exposição Living Cloaks, sobre os contos e tradições relacionados ao kākahu, o manto dos māoris, utilizado como símbolo de prestígio e registro da história de seus ancestrais.

A mostra contém dezenas de kākahus feitos de diversos materiais, expondo a vida por trás de cada peça. Porque para os māoris cada manto é um objeto vivo, carregando nome próprio e o karma dos donos anteriores, os ancestrais da família. Talvez a história mais marcante seja a do kākahu pertencente à Ruhia, uma mulher de alto status na comunidade. Em 1840, uma casa estava sendo construída para um advogado da região. Para o clã, uma casa em construção é considerada tapu, ou seja, território proibido. Um adolescente imigrante chamado Thomas Wilmor Mckenzie resolveu pernoitar na casa inacabada para descansar da longa viagem de barco da Inglaterra, sem saber que assim quebraria uma regra de vida ou morte. Ele e um amigo se preparavam para dormir quando o chefe da tribo, Te Rirā Porutu, e 30 outros guerreiros os encontraram. Assim que o chefe levantou sua arma em um ataque fatal, Ruhia, sua nora, lançou seu kākahu sobre o jovem inglês, salvando-lhe a vida, já que na cultura māori este é um ato feminino de proteção que não pode ser contestado.

Depois da lição antropológica, resolvemos conhecer uma história mais recente, a da indústria do vinho na Nova Zelândia. As primeiras vinícolas foram criadas no país em 1836 por um residente britânico saudoso das garrafas em casa. Quase duzentos anos depois, o Sauvignan Blanc neozelandês é considerado o melhor da variedade pela comunidade internacional. Como acreditamos em averiguar os fatos pessoalmente, agendamos um tour (U$145/pessoa) pela região produtora de Martinborough, uma cidadezinha de 3 mil habitantes a apenas 45 minutos de Wellington. Além da degustação de vinhos e do almoço, provaríamos alguns queijos locais e conheceríamos um pouco da famosa paisagem do país.

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Degustação de vinhos em Martinborough

A viagem de trem até Martinborough é razão suficiente para reservar o passeio. Montanhas cobertas de flores silvestres, pastos verdes salpicados de ovelhas, vários riachos e até um arco-íris nos acompanharam durante o curto trajeto. Ouvimos muitas histórias sobre a beleza do interior da Nova Zelândia e pelo o que vimos até agora, todas são verdadeiras.

“Para mim um vinho tem que ter personalidade. E não adianta ser só aromático, como os chatos falam por aí. Como dizia meu pai, ‘o vinho pode cheirar a tudo quanto é aroma e ter um milhão de cores, mas no fim que diabos você fará com ele?’ Se você bebe um Cabernet, ou um Shiraz, é ótimo, claro, não vou deixar de beber, eu adoro vinho. Mas com o Pinot Noir, a coisa é diferente. Um bom Pinot é como uma noite de sexo fantástica.” E foi assim que descobrimos que nosso “Gourmet Wine Tour” seria um pouco alternativo. Shawn, dono da vinícola Muirlea Rise, era um desses kiwis feitos para uma comédia de sessão da tarde. Usando uma argola dourada na orelha e uma blusa xadrez por debaixo de um moletom furado, nosso sommelier cômico despejava cem palavras por segundo com uma paixão incrível por vinhos (e um sotaque pesadíssimo também).

Das quatro vinícolas boutique que visitamos, Te Kairanga, Muirlea Rise, Shubert e Murdoch James, a mais interessante com certeza foi a do Shawn. Como ele mesmo disse, “um vinho realmente marcante são como pessoas, você encontra um monte de gente legal por aí, mas depois de um tempo são aqueles diferentes, até meio estranhos, que ficam na memória.” Não tivemos dúvida, levamos um Pinot 2009 com 5% de Shiraz para a estrada.

O vinho acabou sendo uma ótima pedida para compensar a frustração de não termos conseguido assistir a um jogo do All Blacks, o time nacional de rugby. O esporte é uma febre nacional e nós queríamos ver de perto a hāka, a dança māori que antecede cada jogo. Como o time jogaria em Hamilton (a quase três horas do nosso hostel) e os ingressos estavam há muito esgotados, tivemos que deixar para uma próxima vez.

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Letreiro em Wellington

Enquanto o rugby é o evento número 1 entre kiwis, um outro vício internacional atrai milhares de turistas para a Nova Zelândia, a trilogia do Senhor dos Anéis.  Nós só visitamos a Weta Cave, um espaço gratuito com roupas e recursos de cena usados nas filmagens e alguns itens de colecionadores. Não somos os mais aficionados pelo tema, mas não podíamos sair do país sem bater uma foto do Guico, que carregou minha aliança de noivado por meses a fio, junto ao Gollum, outro que sofreu uma “saga do anel” parecida. Para os mais entusiastas, no entanto, há tours para alguns sets de filmagem em Wellington, apesar da maioria dos cenários naturais usados na telona ficar mais perto de Queenstown, na ilha sul.

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Guico e Gollum: “my precious!”

Aaaah, e como começar a falar de Queenstown, uma das cidades mais espetaculares de toda viagem? Sobrevoando as montanhas nevadas, os vales e rios, os chalés e lojinhas do centro, ficamos com a impressão que o Criador gastou todas as suas fichas ali. Além de ficarmos maravilhados com a paisagem, ainda recebemos uma ótima notícia durante o voo: chegaríamos bem no começo do festival de inverno!

Conhecida como capital dos esportes de aventura, Queenstown é eletrizante. Há inúmeras opções para os que buscam adrenalina, bungy jump, heli-esqui, saltos de paraquedas, corridas de Jet Boat entre desfiladeiros, rafting, cânion swing (o pêndulo mais alto do mundo) etc. Para economizar tempo e dinheiro, vale checar alguns pacotes disponíveis na loja de turismo do centro ou online. Por 500 dólares americanos, por exemplo, dá para fazer uma corrida de jet boat, um passeio de helicóptero, um salto de paraquedas e um rafting no rio Shotover. Outra dica legal é checar o site do Book Me, onde as empresas que realizam os passeios oferecem um número limitado de vagas com desconto (bom ver com antecedência, pois tudo que é bom e barato acaba rápido).

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A incrível e bela Queenstown

Eu e Guico começamos nossas atividades de inverno esquiando nas Remarkables, a montanha mais perto da cidade a apenas meia hora de carro. Mesmo sendo próxima, é melhor evitar a minúscula estrada coberta de gelo e deixar que o ônibus oferecido pela estação de esqui te leve ladeira acima. Sei que estou sendo repetitiva, mas a vista lá de cima é tão linda que preciso escrever sobre isso de novo. Não deixe de levar uma máquina fotográfica decente (a nossa à prova d’água não fez jus a minha cara de abobada). Pronto, tirei do peito.

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Subindo até Remarkables

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Esquiando

Amei esquiar! Era minha primeira tentativa, então comprei um pacote com uma aula e passe para o teleférico (U$ 121 incluindo aluguel de roupa e equipamento), caso eu me inspirasse para fazer alguma descida. Para quem patina, os movimentos são bem parecidos, então acabei tentando a trilha intermediária logo no primeiro dia. Delícia! Ganhei um vício! Pena que o Brasil não tem neve.

Outra coisa que queríamos tentar era a corrida de jet boat. O cenário, como de praxe, era maravilhoso, enquanto o percurso em alta velocidade dentro do desfiladeiro garantiria que não sentíssemos frio. Quer dizer, isso se o barco não quebrasse, o que foi exatamente o que aconteceu. A parte radical do passeio foi ótima, mas teríamos passado sem os minutos presos em temperatura congelante (o barco encalhou, apesar de só precisar de 8 centímetros de profundidade para andar).

Entre o esqui e o jet boat, ainda conseguimos aproveitar alguns eventos do festival do inverno, como a inusitada corrida de drag queens. Todo o ano alguns maus elementos se vestem a caráter (cílios postiços e saltos inclusos) e competem em um terreno com obstáculos. Hilário. A cidade também oferece opções mais relax, como degustações em algumas lojas de vinho (ou em um tour usando uma bicicleta retrô para andar entre as vinícolas), lojas especializadas em biscoitos e chocolate quente e uma hamburgueria gourmet disputadíssima, a Ferg Burger.

Nosso último dia em Queenstown, no entanto, passou longe do clima relax. Resolvemos experimentar um dos orgulhos da cidade, o pêndulo mais alto do mundo. O canyon swing é algo indescritível. Você despenca de uma altura de 130 metros, ficando alguns segundos em queda livre, até ser puxado em um arco gigante de 300 metros. Não tem como não gritar, rir, tudo ao mesmo tempo. Acho que um vídeo é melhor que mil palavras, né? Então aqui está ele:

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Nosso tempo na Nova Zelândia passou rápido demais. Sabe aquela lista de lugares que queremos voltar? A terra dos kiwis está no topo. No verão, pretendemos conhecer o espetacular parque Milford Sound, escalar a geleira San Joseph e visitar algumas vilas māori. Deixamos muito o que ver e fazer para uma próxima vez, talvez para termos uma desculpa inexorável para comprar a passagem de volta. Acho que os milhares de brazucas morando por aqui devem concordar comigo, é inacreditável como um país tão pequeno consegue roubar uma parte tão grande do seu coração.

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3 comentários em “Nova Zelândia: te amo! (Auckland, Wellington e Queenstown)

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