Austrália: aventuras down under (Sydney, Sunshine Coast e Adelaide)

Era uma vez uma ilha tão grande, mas tão grande, que praticamente virou um continente. Bichos esquisitíssimos viviam por lá, presos pela fronteira de água: várias espécies de aranhas peçonhentas, 6 das 10 cobras mais venenosas do mundo, mamíferos com uma segunda cabeça saindo da barriga, um diabo que veio da Tasmânia e crocodilos que competem com tubarões pelo domínio dos mares. Os primeiros colonizadores da região – piratas e prisioneiros – eram tão extremos quanto o vasto território, que abriga praias paradisíacas e mais de nove desertos.

Não é à toa que eu sempre considerei a Austrália uma terra mágica, uma das maiores expectativas na viagem de volta ao mundo. Exatamente por isso, decidimos explorar o país de uma forma diferente, a bordo de uma campervan, uma espécie de casa-furgão. Com nossa casa móvel, desbravaríamos uma grande parte da costa leste australiana em um tempo enxuto, um feito quase impossível usando transporte público (demora muito) ou avião (muito caro).

Eu e Guico na Opera House

Antes de embarcamos em nossa aventura, passamos três dias em Sydney para reencontrarmos alguns amigos e conhecermos a cidade mais famosa do país (a capital, Camberra, passa longe do roteiro dos turistas). Começamos nosso passeio pelo jardim botânico, apreciando a bela vista do centro comercial moderno, e seguindo até a célebre Ópera House, finalista na lista das Sete Novas Maravilhas do Mundo. Após um almoço rápido perto da agitada baía de Sydney, pegamos uma ferry e fomos até Manly Beach, uma praia com faixa de areia larga, barzinhos da moda e muitos surfistas. À noite, ainda conseguimos sair com uns amigos, ex-intercambistas que moraram na Finlândia com o Guico, para beber no Argyle, um lounge chique e aconchegante no The Rocks, o antigo centro da cidade. Depois de assistirmos ao Vivid, um show de luzes anual que usa marcos da cidade como tela, fechamos o dia em um sushi bar, saboreando pratos deliciosos e um pensamento familiar: “eu moraria aqui”.

Jardim Botânico

Jardim Botânico

Show de luzes Vivid

Show de luzes Vivid

Em Sydney e Melbourne, as duas cidades mais desenvolvidas, há vários arranha-céus, eventos culturais disputados e um estilo de vida cosmopolita, destoando dos espaços amplos e despovoados e do australiano estilo Crocodilo Dundee encontrados no restante do país. Foi uma pena não termos conseguido visitar Melbourne, mas pelo menos conhecemos vários Aussies nativos das duas cidades em nossas andanças pelo mundo. Apesar do ritmo cotidiano ser bem diferente de uma ponta a outro do país, a hospitalidade é uma característica nacional.

Veja só o Josh, um australiano incrível, bem-educado, gente-boa e engraçado que tive sorte de conhecer na minha viagem por Roma (foi mal solteiras, ele tem namorada). Depois de uma semana de diversão na capital italiana, continuamos nos falando virtualmente, marcando um reencontro para quando estivéssemos em Sydney. Mesmo trabalhando do outro lado do país, o cara voou uma distância equivalente entre Manaus a São Paulo só para nos apresentar sua cidade, “o Rio de Janeiro da Austrália,” em suas palavras. Serei sempre grata pelas histórias inusitadas sobre os bairros, o passeio por Watsons Bay e a ótima companhia durante o almoço no bistrô com vista para Bondi Beach.

Josh nos apresentando a cidade

Josh nos apresentando a cidade

Manly Beach

Manly Beach

Sydney deixou a impressão de cidade organizada com um clima relaxado, cheio de barzinhos e pessoas fazendo jogging na rua. Ficamos com muita vontade de passar mais alguns dias por lá, anos talvez, mas nossa aventura motorizada down under estava para começar.

Acho que descobri minha alma hippie, porque adorei esse negócio de viajar em uma motorhome. Você sai na hora em que acha melhor, explora o interior do país, economiza em estadia e transporte, e conhece alguns lugares bem legais, já que os campings para esse tipo de carro, os caravan parks, têm uma ótima infraestrutura (piscina, churrasqueira, lavanderia etc) e muitos estão localizados ao lado de riachos, no meio de reservas florestais, ou na frente da praia. Nós agendamos a maioria dos acampamentos online, com medo da alta estação que se aproximava com as férias escolares, mas muita gente vai decidindo conforme o caminho, inclusive parando em áreas de descanso ao longo da rodovia, equipadas com banheiro, mesas e cadeiras.

Para fugir do friozinho do inverno e maximizar as duas semanas na estrada, resolvemos começar a road trip em Brisbane, 925 km ao norte de Sydney, na costa leste de Queensland. Após uma ampla pesquisa sobre os milhares de modelos de motorhomes, decidimos alugar o Hitop Campervan da Apollo, com microondas, fogão, geladeira e um sofá-cama. O preço era um ótimo atrativo, 980 dólares incluindo GPS (U$ 100) e seguro completo para um total de 12 dias. Em comparação ao aluguel de carros no Brasil, nossa opção pode soar como um mau negócio, mas é que a Austrália é um dos países mais caros do itinerário, com quartos em hostels custando uma média de U$45 por pessoa, a maioria sem wifi (pagamos de 2 a 5 dólares por uma hora de internet).

Nossa campervan

Nossa campervan

Desembarcamos em Brisbane debaixo da maldita chuva que planejávamos deixar para trás. Buscamos nossa campervan, fizemos um pit stop no supermercado, e pronto! Estava na hora de cair na estrada. Nosso roteiro cobriria dois mil quilômetros da paradisíaca Sunshine Coast:

De Brisbane 160km até Noosa Beach –> de Nossa 180km até Hervey Bay –> de Harvey Bay 390km até Rockhampton –> de Rockhampton 481km até Arlie Beach –> de Arlie 280km até Townsville/Magnetic Island –>de Townsville 235km até Mission Beach –> de Mission Beach 185km até Port Douglas, para finalmente devolver o carro em Cairns, a 70 quilômetros de Port Douglas.

Com rodovias bem cuidadas e de pouco tráfego, dirigir na Austrália, mesmo que do lado errado, foi moleza. Como chegamos tarde no acampamento (a recepção dos caravan parks fecha geralmente entre 18 e 19 horas), ficamos um pouco perdidos sobre como encontrar as vagas com cabos elétricos (as motorhomes podem ser literalmente ligadas na tomada, possibilitando o uso dos aparelhos elétricos e das luzes sem gastar bateria). Acabamos não encontrando o nosso powered site, o que no fim adicionou um sabor ainda mais especial à primeira noite. Localizado praticamente na areia da praia, o Noosa North Shore Beachfront Caravan Park foi abençoado com uma paisagem deslumbrante, coroada com um céu estrelado arrebatador.

No dia seguinte, enquanto preparávamos o café da manhã dentro do furgão, recebemos outro presente: famílias de cangurus passeavam tranquilamente ao lado da campervan. Os bichos parecem bem mansos, vimos uma criança de 8 anos acariciando uma mamãe com seu filhote na bolsa sem problemas, mas achei melhor não arriscar (eu sou muito apegada aos meus dedos). O triste foi constatar a grande quantidade desses animais atropelados na beira da estrada. Sabemos que há uma enorme população de cangurus selvagens, considerados pelo governo e alguns fazendeiros como uma peste (debate polêmico), o que não alivia a visão deprimente nas rodovias.

Cangurus visitando o acampamento

Cangurus visitando o acampamento

Comparado à Noosa, o acampamento de Hervey Bay estava lotado. Como o nome sugere, o Scarness Beachfront Caravan Park também fica na frente da praia, mas os carros eram estacionados muito próximos uns aos outros. O lugar é lindo, cheio de pássaros e vegetação nativa, mas não aproveitamos tanto, pois choveu todos os dias. O mau tempo também minou o principal passeio de Hervey Bay: uma visita à reserva de Fraser Island, a maior ilha de areia do mundo. Com 123 km de extensão, Fraser tem praias intocadas lindíssimas e mais de 100 lagos, porém só é possível visitá-la a bordo de um ônibus 4×4 de alguma agência de turismo (U$170/pessoa), ou alugando um jeep. As duas opções acabam doendo no bolso, principalmente em um dia feio e debaixo de chuva. O jeito era pegar o carro e continuar adiante.

Inicialmente, a parada no Discovery Holiday Caravan Park em Rockhampton foi adicionada ao itinerário somente para quebrar o trajeto de 900 km entre Hervey Bay e Arlie Beach. No entanto, como Steak Capital (“Capital do Bife”) do país, essa cidadezinha de 75 mil habitantes serviu como gênio da lâmpada mágica, atendendo ao nosso desejo de meses: comer um bom churrasco. Depois de passar por seis estátuas de boi ao longo da rua principal (Australians do like their cow), tínhamos certeza que sairíamos satisfeitos. A Bush Inn Steakhouse cumpriu todas as expectativas, por U$28 comi um steak com batatas e salada mais um cálice de vinho para acompanhar. Uma pechincha, se falando de preços australianos.

Churrasco!

Churrasco!

Também havia um incentivo especial para deixar logo Rockhampton: a partir de Arlie Beach o termômetro começa a subir. Ainda fica friozinho de manhã cedo e à noite, mas nada que um moletom fino não resolva. À tarde a história é outra, um calor de 27 graus e um sol incisivo que parece beliscar a pele. Não é só impressão, cientistas há tempos comprovaram que a camada de ozônio no país é uma das mais danificadas do mundo. Como uma daquelas pessoas abençoadas com melanina zero, eu estava tomando banho de filtro solar.

Arlie Beach é uma das estrelas da costa leste, visada principalmente pela sua proximidade com as Whitsundays Islands, um complexo de 74 ilhas tropicais. Para visitar uma das ilhas, é preciso adquirir um ticket com uma das companhias que oferecem tours programados, então pernoitamos com o carango no Adventure Whitsunday Caravan Resort. De novo, não espere promoções em relação aos cruises, os passeios custam entre 78 e 150 dólares, dependendo da ilha visitada. Mesmo assim, todos valem a pena. Sabe aquelas praias paradisíacas, de areia branca, coqueiros envergados e mar cristalino que a maioria das pessoas espera encontrar em todo o sudeste asiático? Elas estão na Austrália. Apesar da água ser um pouco fria nessa época do ano, os australianos sabem cuidar de suas belezas naturais, o que às vezes não acontece em alguns países da Ásia.

Nós escolhemos o cruise para Hamilton Island e a renomada Whitehaven Beach, listada como uma das praias mais bonitas do mundo. Em Hamilton as opções são mais desenvolvidas, com hotéis e restaurantes, um santuário de coalas, uma marina disputada por barcos de luxo e praias de tirar o fôlego. Whitehaven é uma praia isolada, delineada por areia branca e vegetação nativa e sem nenhuma construção, um dos poucos paraísos virgens que visitamos. Em qualquer uma das ilhas, no entanto, é preciso cuidado na hora de cair no mar. A região tem alta incidência da mortal vespa-do-mar (Box Jellyfish) e arraias. Para evitar queimaduras com essas perigosas águas-vivas, muitos gringos usam uma roupa de mergulho de cores fluorescentes, enchendo a água de Teletubbies. Te digo, não é uma visão muito bonita.

Praia em Hamilton Island

Praia em Hamilton Island

Whitehaven Beach

Whitehaven Beach

Embora seja caro, pelo menos o passeio inclui um churrasco no catamaran que faz o percurso. Nós aproveitamos para almoçar e descobrir mais sobre Ed e July, um casal aposentado que vendeu a casa na Tasmânia para viajar em sua motorhome. “Eu calculo que a gente tenha uns 10% restantes na linha da vida. Então, se você acorda e tem saúde, é sua obrigação aproveitar o dia.” Sábias palavras. O estilo de vida desse casal gente-boa não é algo anormal na Austrália. Os campings tem uma grande população de vovôs que percorrem o país como caramujos, levando a casa pela estrada.

A três horas de Arlie Beach fica outro tesouro natural australiano: Magnetic Island. Como estávamos de campervan, nos hospedamos no Rowes Bay Caravan Park em Townsville, uma praia ao lado da ferry para a ilha (U$ 28/pessoa ida e volta), já que para entrar com o carro por lá é preciso desembolsar U$170. Daria para passar tranquilamente uma semana em Magnetic, que tem mais de 20 praias e baías ligadas por um ônibus público (U$8 para o ticket válido para o dia inteiro), points de mergulho, várias trilhas e uma reserva de coalas e outros animais selvagens. Ouvimos dizer que muitos mochileiros acabam ficando meses na ilha. Não deve ser muito difícil, né? O lugar é lindo e estabelecimentos como o Youth Hostel oferecem estadia, alimentação e drinques para aqueles que toparem trabalhar de 3 a 5 horas diárias por pelo menos duas semanas.

Magnetic Island

Magnetic Island

A parte superior da costa de Queensland é desenhada por inúmeras praias e reservas fantásticas, o que diminui consideravelmente o tempo de estrada entre um acampamento lindo e outro ponto ainda mais embasbacante. Deixamos Townsville depois do café da manhã e chegamos ao Mission Beach Hideaway Holiday Village a tempo de almoçarmos e pegarmos uma praia. Com Mission Beach a meros passos do camping, nossos dias foram repletos de tarefas extenuantes, como passear pela orla, devorar livros e contar estrelas no céu. Uma vida difícil de deixar para trás.

Dirigir em território australiano tem sido como assistir a um show de paisagens bucólicas. O interior do país parece ter saído direto de alguma pintura ou pôster de faroeste, com plantações de cana-de-açúcar, pequenos riachos, cata-ventos e casas de madeira esparsas. Chegando em Port Douglas, no entanto, o cenário muda. Montanhas cobertas de floresta tropical terminam a apenas poucos metros da areia da praia. A estrada aqui é sinuosa, serpenteando entre o mar azul e as colinas esverdeadas, fazendo com que a viagem de carro de Cairns até aqui já seja um acontecimento e tanto.

Paisagem bucólica da estrada

Paisagem bucólica da estrada

Dirigindo até Port Douglas

Dirigindo até Port Douglas

O Pandanus Caravan Park e outras acomodações mais baratas em Port Douglas são bem disputadas nessa época do ano por australianos que sobem a costa para fugir do frio. De todas as cidades que visitamos no país, essa foi uma das preferidas para passar férias. A praia central é maravilhosa, o clima é mais quente e seco, os restaurantes são uma gracinha, e é o melhor trecho para mergulhar no Great Barrier Reef (advinha? Também considerado patrimônio da humanidade pela UNESCO).

Há somente algumas companhias autorizadas para levar turistas até a barreira de coral e a maioria custa uma pequena fortuna (mais ou menos 200 dólares por pessoa). Eu e Guico escolhemos mergulhar com a Reef Sprinter (U$109/pessoa), que vai de speed boat até a Low Isles, uma ilha cercada de arrecife. Eu teria pago os 100 dólares mesmo sem o mergulho, só para poder andar com Steve, o capitão mais maluco que já conheci. O cara dava cavalinho de pau e 360 com o barco, tudo ao som de um repertório de músicas escolhidas a dedo, estilo Bumblebee do Transformers. Assim que chegamos à barreira, skipper Steve solta o trailer de Jaws para dar uma animada na galera. Bem na hora em que vou pular na água, quem eu vejo? Sim, nosso amigo tubarão. Mesmo sendo a terceira vez que nado com o bichano, meu instinto de sobrevivência continua me dizendo que eu devo estar meio biruta.

Mergulhando na Grande Barreira de Coral

Mergulhando na Grande Barreira de Coral

Apesar da temperatura gelada da água, o mergulho foi sensacional, uma ótima maneira de fechar com chave de ouro a road trip down under. Devolvemos o cafofo-mobile em Cairns no dia seguinte, coincidentemente, dia do meu aniversário. Com a correria de arrumar tudo e ir para o aeroporto, deixei para comemorar a versão 3.4 assim que chegássemos em nosso destino final no país, Adelaide, a capital do vinho.

Como o Guico tinha uma reunião de trabalho por lá, agendei um tour com a Enjoy Adelaide para Barossa Valley, passando por três vinícolas da região Chateau Yaldara, Chateau Dorrien e a famosa Jacob’s Creek (U$49/pessoa). Adelaide provou ser uma cidade muito interessante, com vários prédios históricos, café, e vinícolas. Não sei se foi devido ao clima chuvoso e frio que encontramos, mas lembramos muito de Curitiba.

Os vinhedos

Os vinhedos

Casa produtora de vinho em Adelaide

Casa produtora de vinho em Adelaide

…Ou talvez seja só a proximidade da data de volta, cada vez mais perto com cada país que deixamos para trás. Eu não estava errada, a terra do canguru é um lugar mágico. A história dos animais esquisitíssimos lá do início do texto é verdade, mas ela vem com um povo incrivelmente gente-boa, praias maravilhosas e várias outras descobertas. É, a terra mágica nos enfeitiçou. Mal saímos e já queremos voltar.

 

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5 comentários em “Austrália: aventuras down under (Sydney, Sunshine Coast e Adelaide)

  1. Gostei de Sidney. Boa de andar, bonita, gente despojada. De certa forma, me lembrou Vancouver, virada para o mar, esportiva, gente alta. Fui a vinícolas. Mas fiquei com a sensação de que não vi quase nada do que deveria, o país é tão grande e diferente do nosso. É um lugar para voltar.

    • Sydnei é uma daquelas cidades que sempre dá para voltar e fazer coisas diferentes, assim como NY e Paris, na minha opinião.

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