Indonésia: deixando a Ásia

Eu já disse antes: o tempo passa de uma forma diferente para quem está viajando. Assim que chegamos na Ilha de Java, eu e Guico levamos essa máxima a sério e inventamos nosso próprio tempo. É que a gente esqueceu de verificar o horário local, achando que seria o mesmo de Cingapura, a terra da multa, dada a proximidade dos países, quando entretanto o relógio oficial da ilha apontava uma hora a menos. Por 3 dias, antes de percebermos nosso erro, comemos mais cedo que todos os outros turistas, acordamos antes do café da manhã do hotel e quase brigamos com um taxista que, para nós, estava 45 minutos atrasado (e o pobre coitado tinha chegado 15 minutos antes do horário marcado!). Realmente, é muito interessante perceber como o tempo é totalmente fabricado. Nosso corpo nem sentiu a diferença.

Na verdade o que nosso corpo mais sentiu foi falta da praia, até pelo calor escaldante que estava fazendo. Mas peraí, a Indonésia não é o paraíso dos surfistas? Sim, as praias na ilha de Bali são muito famosas, e com certeza nós pretendíamos usufruir de seu renome, mas primeiro passaríamos por Yogyakarta, que abriga alguns templos majestosos, entre eles Borobudur, considerado patrimônio da humanidade pela UNESCO (a lista é grande, eu sei).

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Vivendo dias de fama em Java

As pessoas em Java tratam gringos como celebridades (e eu não escapei):

Nos arredores de Yogyakarta fica o Merapi, que pode ser traduzido para “Montanha de Fogo”, um nome apropriado para um dos vulcões mais ativos do mundo. No século IX, uma erupção do Merapi cobriu Borobudur de cinzas, deixando-o encoberto por quase um milênio até que Thomas Stamford Raffles, o vice-governador britânico da época, redescobrisse o sítio arqueológico em 1814.

Borobudur é um templo grandioso, com 9 níveis, várias torres, 72 stupas (santuários em forma de domo) e muitos nichos e painéis esculpidos que contam histórias relacionadas à vida de Buda. Nós exploramos o sítio da maneira como faziam os antigos peregrinos, começando pelos cinco terraços quadrados onde há ensinamentos budistas esculpidos na parede, dando a volta nos três circulares e encerrando na stupa mais alta (a única completamente vazia, representando o nirvana), onde dá para admirar a linda vista das montanhas e campos ao redor.

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No topo de Borobudur

Como estávamos hospedados no Manohara, o único hotel situado dentro do parque arqueológico, podíamos ir e vir a hora que quiséssemos, andando somente minutos do nosso quarto até o templo. Tudo teria sido perfeito, não fosse por uma intoxicação alimentar que pegamos na cidade. Muito azar! Voltamos para Yogyakarta com todos os sintomas desagradáveis de viroses estomacais. Resultado: dois dias de molho no quarto em vez de explorar a cidade. Uma pena, porque acabamos perdendo a oportunidade de escalar o Merapi.

Bom, saúde é sempre prioridade e pelo menos conseguimos melhorar a tempo de visitar Prambanan, o maior templo hindu da Indonésia. A arquitetura de Prambanan lembra muito os templos indianos de Khajuraho, porém com menos entalhes nas paredes. Mesmo assim, a estrutura é impressionante, construída no século IX em homenagem aos três principais deuses hindus, Brahma (o criador), Shiva (o destruidor) e Vishnu (o sustentador). Além do valor histórico, o lugar parece ponto de encontro de Yogyakarta, dada a quantidade de estudantes e moradores locais que vão para o parque para passear, catar laranja das árvores e até jogar bola.

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Chegando em Prambanan

Nós acabamos gostamos mais de Sewu, um templo budista no final do parque de Prambanan que ainda carrega algumas das estátuas guardiãs originais. Éramos praticamente as únicas pessoas explorando o templo, que parecia estar sendo renovado. Sem o barulho da multidão e cercados de árvores, sentimos como se estivéssemos fazendo uma descoberta arqueológica.

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Templo Sewu

Embora localizados em regiões diferentes, a visita a Borobudur e Prambanam é muito fácil e barata de ser organizada a partir de Yogyakarta. Há várias agências que oferecem transporte (cerca de 1 hora e meia de van), alimentação e entrada para os templos por 23 dólares (só o ingresso fica em torno 15 dólares). Ou seja, dá tranquilamente para ficar em hotéis baratos em Yogyakarta e fazer passeios de um dia para os sítios históricos.

As agências também oferecem pacotes especiais para ver o sol nascer ou se por em um dos templos. Em nossa experiência, o evento soa bem mais legal que a realidade, com uma multidão se acotovelando para captar alguns raios do grande astro. É praticamente impossível bater qualquer foto sem uma galera ao fundo.  Mesmo assim, se isso for algo que você queira fazer, lembre-se que há uma grande possibilidade do céu estar encoberto, principalmente nos meses das monções.

Mesmo tendo gostado muito de Borobudur e Prambanan, estávamos loucos para chegar em Bali. Yogyakarta é muito suja e mal cuidada, parece um subúrbio pobre gigante! Não como imaginávamos a Indonésia. Ao pisar em Ubud confirmamos nossa suspeita: é incrível como duas ilhas tão próximas, que fazem parte do mesmo país, podem ser tão diferentes. Logo descobrimos o porquê do pluralismo. A Indonésia, na verdade, é composta de 17.508 ilhas com características diversas (há 742 línguas e dialetos no país). Java, a mais populosa, abriga a maioria mulçumana, enquanto Bali é quase 100% hindu.

Ubud, nossa primeira parada em Bali, é uma cidadezinha do interior a uma hora de carro de Denpasar, a capital da ilha. Nosso hotel, o charmoso e baratão Taman Harum, ficava na Mas Villlage, um centro de móveis e artesanato em madeira. Era super gostoso andar pelas ruas ao redor do hotel, com várias galerias de arte, templos hindus e casas com portas e janelas gravadas em estilo balinês.

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Janelas trabalhadas de Ubud

O centro da cidade, localizado a apenas cinco quilômetros da Mas Village, é muito organizado e limpo, com lojas de roupa, prataria balinesa e mercadinhos locais. Há também inúmeras opções de restaurantes bacanas e baratos! Eu e Guico experimentamos uma especialidade local, porco assado com água de coco e especiarias, uma dica do nosso querido Anthony Bourdain (babe no vídeo logo abaixo). O lugar é super simples, mas está sempre cheio porque, é claro, a comida é deliciosa (e um prato custa apenas 3 dólares).

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Delícia de comida!

Como a maioria do interior asiático, Ubud também é rodeada por plantações de arroz. O legal é que lá os arrozais ficam bem perto do centro, é só caminhar em uma ruazinha pavimentada a duas quadras do centrinho e você encontra quilômetros de plantações que passam por pequenas vilas e restaurantes ao longo do caminho. Vale a pena só pela paisagem e a sensação de tranquilidade, algo um pouco raro em centros da Ásia.

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Campos de arroz em Ubud

Para uma opção mais cultural, todos os dias à noite tem shows de dança tradicional em alguns templos da cidade. Nós assistimos a Kecak Fire and Trance Dance no Jaba Pura Padang, que conta a lenda hindu de Ramayana através da dança e cantos balineses antigos. Achamos muito interessante, principalmente o movimento das mãos das dançarinas e o canto ritualístico dos homens (parece uma cena do filme Madagascar).

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Dança típica

Video da Dança com os Caras que Parecem em Transe:

Deixar a bucólica Ubud pela agitada Seminyak, um dos balneários famosos de Bali, foi um pouco decepcionante. Kuta, Legian Beach e Seminyak são praias farofas, com uma loja de surf a cada 25 metros, inúmeras daquelas tendinhas armengadas com vendedores locais insistentes, e australianos hipongas usando papete e camisas da Bintang (a cerveja local). O trânsito é caótico e a buzina é rainha, tornando passeios na calçada um pouco desagradáveis. E tudo nessas praias é mais caro que em Ubud e Java.

Há algumas praias mais legais espalhadas pela ilha, só não espere a beleza natural da Tailândia. No geral, as praias balinesas são mais desorganizadas e tem areia mais grossa e amarelada, resultado da erosão de coral e conchas. Nusa Dua (melhor point: perto do Templo Geger), por exemplo, fica a mais ou menos uma hora de táxi de Kuta, não por ser longe, mas porque o trânsito é infernal. Mesmo assim, o trajeto sai em conta, 30 dólares ida e volta com o táxi te esperando por lá, já que é mais complicado achar motoristas no sentido contrário. O mar de Nusa é azulzinho, mas com correntezas fortes e um pouco de coral quebrado ao fundo. Também venta muito, bom para quem veleja ou gosta de kitesurf (dá para alugar equipamentos na praia). É um lugar mais tranquilo, com espreguiçadeiras na areia e alguns resorts (vários em construção).

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Templos no final de Nusa

 

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Praia de Nusa

Dreamland Beach também já teve seus 15 minutos de fama, mas parece ter perdido o brilho depois de anos de desenvolvimento desenfreado. Ouvimos falar de Virgin Beach, de areia branca, mas como ficava do outro lado da ilha, acabamos não indo. Apesar do mar revolto – bom para surfistas, difícil de nadar – ainda existem belas praias em Bali, porém a programação e o transporte tem que ser pensados em maior detalhe, uma vez que ficam em áreas remotas. Com o que sabemos hoje, nosso roteiro pela ilha teria sido diferente: primeiro dia em Seminyak (é perto do aeroporto, dá para comer em restaurantes legais e o por do sol em Kuta Beach é lindo), quatro dias em Ubud e o restante em alguma praia mais isolada.

A atmosfera mística e idílica da Indonésia, que atrai tantos turistas para a batida região de Kuta, na verdade vive em lugares mais desconhecidos, nos campos de arroz de Ubud, no templo de Sewu no final do Parque de Prambanan, e em ilhas e praias mais inacessíveis. Adoramos nossos 15 dias em Java e em Bali, mas deixamos o país com aquela sensação de ter conhecido mais um personagem indonésio, do que a alma real do lugar.

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Por-do-sol em Kuta

Amanhã, seguiremos viagem mais uma vez, deixando para trás não só Bali, mas quatro meses de viagem pela Ásia. São tantas culturas diferentes, tantas experiências e impressões, que seria impossível comentá-las todas em um parágrafo. Começamos como dois viajantes loucos para desbravar o continente, e terminamos como dois viajantes ainda loucos para conhecer melhor o continente. São essas coisas da viagem: a jornada é que acaba sendo o destino final.
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Um comentário em “Indonésia: deixando a Ásia

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