A Terra da Multa: Cingapura

Fumou em lugar fechado, leva multa. Jogou lixo no chão, leva multa. Andou de bicicleta em túneis para pedestres, leva multa. Atravessou a rua sem passar pela faixa, multa. À primeira vista, Cingapura parece o filme Demolidor com seus milhares de castigos financeiros. Ah! E corporais também. Não podemos esquecer das chibatadas que fazem notícia mundo afora. O código penal de Cingapura prevê punição por chibatadas para mais de 30 infrações, incluindo a tomada de reféns, assalto, roubo, formação de gangues, homicídio, uso de drogas e vandalismo. O “caning” também é uma pena obrigatória para determinados crimes, tais como estupro, tráfico de drogas ilegais, não pagamento de empréstimos, e para visitantes estrangeiros que ultrapassam o visto de 90 dias. (Nota mental: não perder o voo de volta).

É uma pena que as notícias que chegam do país sejam sempre sobre as proibições, as quais os cingapurianos seguem à risca, dois atos tão alheios à nossa cultura. A cidade-estado vai muito além, com um espírito empreendedor e moderno, refletido na arquitetura avant garde, nas esculturas espalhadas pelo centro e na moda prática e elegante. Aliás, a moda foi uma das primeiras coisas que chamaram minha atenção. As mulheres de Cingapura são extremamente femininas, abusando de vestidos soltinhos ou justos, sempre marcando bem a cintura e usando acessórios e maquiagem simples, porém diferentes, em uma releitura de um estilo clássico. Dica para os solteiros: apesar da fama das tailandesas, as cingapurianas são bem mais bonitas.

O urbanismo da cidade também é impressionante. Não há fios de eletricidade, pichações, ou sujeira nas ruas. De alguma maneira, os arranha-céus convivem harmoniosamente com os edifícios de dois andares da época colonial, que, aliás, são muito bem conservados. Há árvores e parques por toda parte e o trânsito flui milagrosamente bem, com um ótimo sistema de transporte público. Se multas são a mágica que fazem um país funcionar, o que estamos esperando para soltar o talão de cheques?

Na verdade a transformação de Cingapura é um fato historicamente recente, fruto de medidas governamentais dramáticas em uma população que estava mais do que sedenta por mudanças. Depois de passar pelo colonialismo inglês, a invasão japonesa durante a segunda guerra mundial e disputas políticas com a Malásia – da qual já fez parte – Cingapura finalmente estabeleceu uma república independente em 9 de agosto de 1965. O país estava falido e arrasado, com uma grande porcentagem da população sem ter onde morar, sem uma fonte de renda (o país não tem grandes riquezas naturais) e problemas sérios de saúde pública, como epidemia de cólera e outras doenças.

As medidas do novo governo foram cruciais para criar o país que vemos hoje. A prioridade era atrair indústrias oferecendo incentivo fiscal para gerar empregos. Em paralelo, o país investia pesado em educação – inclusive técnica, para atender a indústria – e na construção de milhares de moradias populares. Em 1990, Cingapura já havia se tornado uma das nações mais prósperas do mundo, com uma sólida economia de mercado, fortes relações internacionais e o segundo maior PIB per capita da Ásia, atrás somente do Japão.

É claro, nem tudo são flores. Nós conhecemos um senhor de 73 anos que tinha muito o que reclamar do país. “É um dos lugares mais corruptos do mundo, construído em cima de aparências, com um sistema de saúde público falho que não atende a população local,” desabafou o tiozinho cingapuriano que trabalha no setor de mineração. Há também quem aponte para as tendências totalitárias, já que há regras muito restritas para atividades políticas (como passeatas), a mídia é altamente controlada e falta imparcialidade para o poder judicial. Apesar de haver alguns blogs sobre o assunto, é muito difícil avaliar essas questões passando apenas alguns dias na cidade. Para quem chega, a impressão geral é de que tudo funciona, desde o trânsito, até políticas sociais. Afinal, não se vê um único pedinte ou crianças pobres perambulando pela rua.

Nós adoramos descobrir Cingapura e seu povo simpático e educado. A gastronomia aqui é super desenvolvida, com restaurantes caros de chefs premiados, wine bars, ou vendinhas de comida local por 3 dólares espalhadas pelos bairros de imigrantes, como Chinatown (surpreendentemente limpa e organizada) ou Little India. Perto da marina, há também bistrôs especializados em frutos do mar, com grandes aquários cheios de lagostas ou caranguejos gigantes do Alasca. Para os que curtem a night, as opções de balada são ricas e variadas, com clubs e DJs de renome, ou lounges chiquérrimos como o Marina Bay Sands, um hotel com arquitetura marcante que tem uma vista maravilhosa e provavelmente os drinques mais caros do país.

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Ruazinhas de Chinatown

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As tradições são respeitadas

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Frutos do mar perto da marina

Sentimos que a terra da multa tem um espírito bem distinto dos outros países asiáticos. Ao mesmo tempo em que a cidade-estado dita tendências para o continente, também preserva os templos e construções do passado. É um lugar caro, onde a qualidade é reverenciada, mas todos se vestem de forma simples e elegante, sem muita ostentação. É o país das proibições, mas aonde mais vimos formas individuais de expressão, como tatuagens, espaçadores nas orelhas, e cortes de cabelo diferentes. Mesmo com sua aparência perfeitinha, consideramos a cidade um enigma. Um a ser desvendado com mais tempo em alguma outra viagem por Cingapura.

 

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2 comentários em “A Terra da Multa: Cingapura

  1. Pingback: Indonésia: deixando a Ásia | Giros Por Aí

  2. Pois é, com relação a multas e outras penalidades não há segredo e nem porque temer, basta cumprir a legislação vigente, só isso. Acho que as autoridades brasileira, políticas e judiciárias, deveriam instituir tais leis em nosso país.

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