Surpresas na Malásia (Kuala Lumpur, Penang, Ilhas Perhentian)

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Quando chegou a hora de ir para a Malásia, estávamos animados. Foi meio difícil nos despedirmos do Andrezinho, que acompanhou a gente pelas descobertas culinárias no Vietnã e históricas no Camboja (a saudade de casa está apertando cada vez mais), mas pelo menos nos separamos com a perspectiva de conhecer um país asiático bem desenvolvido, organizado, com pessoas super simpáticas. Ou assim a gente achava.

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Skyline de Kuala Lumpur

Já dizia Forest Gump, “life is like a box of chocolates, you never know what you´re gonna get.” Desembarcamos em Kuala Lumpur, capital da Malásia, no dia 28 de abril, coincidentemente, o dia do protesto nacional por eleições limpas. Descemos do metrô bem em meio a uma multidão de mais de 20 mil pessoas vestidas de verde e amarelo (cores que representam limpeza), que cantavam e gritavam lemas políticos. Não tinha como escapar, nosso hostel, o White Reggae Mansion, ficava a duas ruas dali.

Devagar e com jeito, fomos passando com as malas pelos malaios que confirmaram a imagem de povo educado. Todos abriam espaço e brincavam: “mas que sorte, hein! Vieram conhecer Kuala Lumpur justo hoje!” O clima era mais de um show ao ar livre do que de passeata, como bexigas gigantes e batucada. Pelo menos no começo.

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Protestos políticos em Kuala Lumpur

Enquanto almoçávamos, notamos uma barulhada fora do comum do lado de fora. Era a multidão que corria avenida abaixo para fugir do gás lacrimogêneo da polícia. Curiosos, fomos espiar pela janela do hostel para ver o que estava acontecendo. Centenas de policiais haviam tomado as ruas e faziam sinal com as mãos para os poucos protestantes que restavam, como se chamando para a briga. Qualquer um que vestia a camisa verde ou amarela, mesmo que simplesmente parado na calçada, era atacado pelos policiais com tapas na cara, chutes e outras agressões. Ficamos pasmos.

De repente, um policial exaltado deixa a avenida principal e vem correndo em direção ao albergue. Entramos rapidamente e íamos subindo para o terraço, onde teríamos visão privilegiada dos acontecimentos, quando um americano que já estava no último andar gritou: “entrem nos quartos, a polícia vai entrar no hostel!” Depois de alguns minutos escondidos fomos entender o que tinha acontecido, o tal policial exaltado notou que os gringos no terraço estavam filmando o abuso de força da polícia e correu para o hostel, ameaçando entrar. No fim, ainda bem, era só um blefe.

Apesar da confusão ter se dissipado no final da tarde, o clima ruim permaneceu o dia inteiro. Sem poder sair do hostel (não só por precaução, mas porque todo o comércio estava fechado), ficamos dividindo as filmagens e impressões do dia com outros viajantes. Definitivamente, não foi o melhor jeito de sermos apresentados à Malásia. Para melhorar nosso cansaço e desapontamento, descobrimos que o White Reggae Mansion era um party hostel, com música ensurdecedora e bagunça até às 4 da manhã. Um inferno para quem queria acordar cedo e explorar a cidade.

No outro dia, um pouco de mau humor e sonolentos por causa da noite mal dormida, fomos caminhar pelo centro para conhecermos os famosos arranha-céus e lojinhas de Kuala Lumpur. Porém, era domingo e tudo estava fechado. Segunda decepção com a cidade! Na verdade, além da falta de sorte, nos demos conta que para nosso tipo de viagem (sem muita grana e buscando coisas diferentes), grandes centros comerciais são um pouco sem graça de visitar. A gente acaba preferindo sempre cidades menores, bonitinhas e fáceis de caminhar. Ou pelo menos lugares em que a atração principal não seja ir a shoppings e ver prédios altos. Achamos muito engraçado que um dos hostels que pesquisamos anunciava com orgulho estar no coração dos pontos turísticos da cidade: no miolo de quatro shoppings, um inclusive com montanha russa. Com certeza, não era nossa praia.

Como deu para perceber, não ficamos tristes em deixar a capital da Malásia, até porque teríamos mais dois dias por lá no final da viagem pelo país, uma segunda chance para revermos as impressões iniciais. Penang, nosso próximo destino, prometia ser um lugar mais tranquilo, perto da praia, e com uma forte presença de imigrantes chineses e indianos. A ideia era experimentar mais da mistura cultural que é a base da Malásia. Recebendo imigrantes de várias regiões desde o século X, o país é extremamente multicultural e tolerante com religiões diversas. É inclusive muito comum ver mulheres mulçumanas cobertas da cabeça aos pés e outras de vestidos curtos dividindo as mesmas avenidas.

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Passeando em Little Índia

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Templo Chinês em Penang

Infelizmente nossa sorte não mudou com a troca de cidade. Tínhamos agendado para nos buscarem no aeroporto, mas ninguém apareceu e ficamos esperando quase duas horas. Depois, ao chegar no hotel, nosso quarto, que parecia mais uma dispensa, não estava pronto. Quando decidimos fazer o upgrade de acomodação, a recepcionista não queria repassar o depósito prévio e ainda foi bem mal educada. Afe! Com tudo resolvido, deixamos as malas no quarto e fomos comer em um café nos arredores para espairecer, mas o garçom era um grosso e nos atendeu super mal. Estávamos começando a achar que erramos ao escolher o país para integrar o itinerário asiático.

Como eu já tinha aprendido no planejamento da viagem, “shit happens”. Nessas horas é importante parar, ir para um lugar tranquilo e colocar os acontecimentos em perspectiva. Todo mundo tem dias em que as coisas parecem não emplacar, e em viagens – especialmente viagens longas de volta ao mundo – isso é fadado a acontecer mais cedo ou mais tarde. Situações desagradáveis fazem parte da vida, é impossível controlar tudo, apesar de ser possível escolher como reagimos a elas. Nós resolvemos caminhar meio sem rumo por Little India, o bairro de imigrantes ao lado do hotel. Foi a decisão certa. Conhecemos vários templos interessantes, matamos saudades do naan, (o pão indiano que adoramos) e reencontramos o calor humano e hospitalidade do indiano, com certeza o povo mais amigável e gentil que conhecemos em nossas andanças pelo mundo.

Recobrado o o olhar viajante, os dias restantes em Penang foram calmos e gostosos. Visitamos alguns templos, abusamos da comida indiana e caminhamos bastante pela arquitetura mista da cidade. Apesar de não termos vivido nenhuma grande aventura, foi um ótimo jeito de preparar o espírito para os dias relaxantes na nossa próxima parada, as paradisíacas Ilhas Perhentian.

Saí da lancha em Perhentian, e pensei: “Nossa! Olha o set do filme Lagoa Azul!” Nosso hotel ficava em uma linda praia de areia branca com mar azul e calmo, contornada por colinas cobertas de floresta tropical. Um refúgio digno de filme, com certeza.

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Nossa praia particular nas Ilhas Perhentian

A ilha é famosa entre mergulhadores, e nós pretendíamos aproveitar bem essa fama. As vistas subaquáticas são inesquecíveis, com tapetes de corais coloridos, milhares de peixes, tartarugas, barracudas, e outras espécies. Como em Cape Town, mergulhamos novamente com tubarões, mas dessa vez sem gaiola. Dezenas da espécie ponta-preta rodeavam numa boa o lugar em que fazíamos snorkel. Debaixo d’água a vida parece tão tranquila, que você até esquece que mesmo um filhote do bichano pode te fazer um grande estrago. Quando um deles começou a nos rodear mais frequentemente, entendemos que aquele era seu território e voltamos para o barco.

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Visitando Nemo

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Amigo de mergulho

O tempo em Perhentian tem seu próprio momento e nós deixamos que ele ditasse seu ritmo. Curtimos bem o não-fazer-nada, intercalado com passagens por restaurantes (só para comer, já que é proibida a venda de álcool na ilha) e passeios na praia. Também aproveitei o momento para curtir meu novo hobby: catar lixo da areia. Todos os dias eu pegava uma sacola no hotel e passeava na orla retirando garrafas de plástico, latinhas e outras porcarias. Não que a praia fosse imunda, mas as pessoas não parecem se importar em deixar lixo por aí, principalmente os moradores locais. Me entristece muito ver reservas magníficas mal cuidadas. A continuar pelo o que temos visto em algumas praias, a próxima geração terá poucos lugares idílicos para visitar. Para mim, uma praia naturalmente linda, mas amontoada de lixo, perde sua beleza.

Enfim, veio a hora de deixar esse paraíso com palmeiras. Voltamos para Kuala Lumpur, mas acabamos não ficando muito pela cidade. Resolvemos visitar Melaka, uma cidadezinha a duas horas de ônibus que já foi colônia portuguesa, holandesa, inglesa e japonesa. Infelizmente, o legado arquitetônico de sua rica história quase não existe mais, pois cada colonizador destruía as edificações deixadas pelo anterior. De novo, acabamos voltando para o hostel um pouco frustrados.

Talvez tenha sido um pouco de má sorte, mas a verdade é que a Malásia não nos marcou tão positivamente. Com exceção do nosso albergue na capital, os profissionais que encontramos nos demais lugares nos trataram relativamente mal, uma dissonância dos outros países asiáticos. Guardamos uma péssima impressão da polícia, dormimos mal, encontramos garçons e recepcionistas sem educação, tivemos problema com pessoas do hotel em Perhentian tentando nos passar a perna etc. Algum dia talvez tenhamos que voltar ao país para tentar enxergar melhor sua beleza. Enquanto isso, resolvemos deixar a má experiência de lado e chegar de coração aberto ao nosso próximo destino, o grande país cartesiano da Ásia: Cingapura.

 

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