Dores do Camboja

“Manter você não é nenhum lucro, perder você não é nenhuma perda.” Frase do Khmer Vermelho.

Faltam palavras para expressar o sentimento após a visita aos Killing Fields de Phnom Penh. Eu, Guico e André deixamos o local mudos, pesados e pensativos. A imagem da Ásia geralmente é associada com praias, comidas picantes e um povo exótico, mas o passado da região é extremamente rico e doloroso.

O do Camboja cortou fundo.

Começamos a visita ao país por Siem Reap, uma cidadezinha de 172 mil habitantes conhecida por abrigar os famosos templos do assentamento de Angkor, a antiga capital do império Khmer. A primeira coisa que notamos foi o calor. Escaldante. Daqueles em que você acorda com o lençol colado ao corpo (amém pelo ar condicionado). No centro, as ruas são limpas, os jardins bem cuidados e há vários restaurantes moderninhos. Se você pegar uma bicicleta, no entanto, irá conhecer a verdadeira realidade do cambojano. Nos arredores, crianças nuas brincam em casas de palafita construídas em cima de valões. O cheiro é insuportável. A dura paisagem contrasta com as construções elegantes de Siem Reap e com os carrões de marca que vimos em Phnom Penh.

Como em todo sudeste asiático, Siem Reap também tem um mercado noturno com várias tendas de artesanato local. Só que lá o negócio é melhor organizado. O mercado tem um grande mapa na entrada, com divisões por tipo de mercadoria vendida, lugares de massagem e dois bares grandes. Perto também tem a Pub Street, uma rua lotada de bares onde o chopp custa 0,35 dólares. Com certeza, a bebida mais barata que já tomamos! O problema era a mosquitada. Se for se perder no custo do chopp, melhor se bezuntar de repelente.

Entrada do mercado noturno

Entrada do mercado noturno

Antes de visitar os templos, resolvemos conhecer o Museu Nacional de Angkor, que possui uma mostra minuciosamente organizada dos sítios antigos (entrada de 15 dólares). A informação histórica detalha bem as diferenças de cada construção, bem como o modo de vida e crenças do povo de Angkor. Nós três devoramos os filmes e textos explicativos de cada peça, sendo os últimos a saírem das instalações (os guardinhas apagaram as luzes e fecharam as portas atrás da gente). A verdade é que sem a passagem pelo museu, acho que entenderíamos pouco das belas ruínas que vimos no dia seguinte.

Angkor Wat, com suas cinco torres delineadas pelo nascer do sol, é o templo mais famoso, honrado como símbolo do país na bandeira nacional. É também o único que ainda retém um sentido religioso. Construído em uma extensão de 200 km² e seguindo o estilo clássico da arquitetura Khmer, o templo era originalmente hindu, representando Monte Meru, a morada dos deuses. Com o passar do tempo, muitos cambojanos aderiram ao budismo, cultuando uma religião com influências mistas. Angkor passou então a ser venerado como templo budista, hábito que se perpetua até os dias atuais.

Roupas típicas do passado cambojano

Roupas típicas do passado cambojano

Para driblar o calor e fugir da multidão, é bom chegar um pouco antes das 7:30 da manhã, quando os portões são abertos para visitação. O ingresso para todos os templos de Angkor custa 20 dólares e dura um dia, então é bom negociar uma diária com um tuk tuk para ir de um canto a outro e levar água e comida. Nós, e uma centena de turistas, chegamos para ver o nascer do sol e depois ficamos perambulando com o guia pelas construções do jardim até a abertura oficial do templo. As histórias do guia com certeza adicionaram à experiência, mas se você não estiver a fim de ganhar uma sombra durante o passeio, dá para entender bastante da história e arquitetura de Angkor somente com a ida ao museu.

Sem dúvida, Angkor Wat é magnífico, merecedor da lista de finalistas das Sete Novas Maravilhas do Mundo. Nosso templo preferido, porém, foi Ta Prohm, um templo erguido entre os séculos XII e XIII, que foi propositalmente deixado no estado em que foi descoberto, com raízes de árvores que parecem ter sido derretidas por cima das paredes históricas, lembrando uma obra de arte surrealista.

Esperando o sol nascer em Angkor Wat

Esperando o sol nascer em Angkor Wat

Além de Ta Prohm, visitamos dois outros templos imponentes. Bayon impressiona com os rostos gigantes de sorriso sereno esculpidos na pedra. Já Banteay Srei, um templo de porte menor, possui entalhes decorativos em ótimo estado de conservação. A visita a templos é cansativa e começa cedo. Achamos que um dia foi o bastante, mas para os mais aficionados, dá para gastar pelo menos quatro explorando a região. Com o calor de 40 graus que parecia queimar até pensamento, a piscina do hotel acabou exercendo um fascínio mais irresistível.

Árvores "derretidas" de Ta Prohm

Árvores “derretidas” de Ta Prohm

Templo Bayon

Templo Bayon

Detalhes de Banteay Srei

Detalhes de Banteay Srei

Templo Ta Prohm

Templo Ta Prohm

Em um primeiro momento, sentimos que chegar em Phnom Penh foi como retornar para alguma metrópole asiática. As motos destemidas estavam de volta, dessa vez disputando as ruas com carrões de marca. Nosso taxista, um surpreendente conhecedor de política e economia internacional, nos explicou que a cidade está em franco desenvolvimento, atingindo uma taxa de crescimento de 13% no último ano (na internet as fontes citam crescimento de dois dígitos, mas muitas não especificam a taxa). Mesmo assim, éramos cercados de muitos pedintes na saída dos bares e pontos turísticos, deixando a pobreza do país em evidência.

Como em Angkor, visitamos o museu da cidade antes de partir para os sítios históricos. No entanto, achamos a mostra de Phnom Penh inferior. Na verdade ficamos desapontados, pois queríamos entender melhor o período do regime Khmer Vermelho, quando 3 milhões de cambojanos foram assinados em menos de 4 anos. O museu explorava somente os templos angkorianos, que nós já tínhamos presenciado ao vivo. Para quem visitar o país procurando pela mesma informação, é melhor pular o museu nacional e ir direto para o Tuol Sleng Genocide Museum.

Sem um preparo histórico, saímos do museu um pouco crus para nosso próximo destino: os killing fields de Choeung Ek. A 15 km de Phnom Penh, Choeung Ek é um documentário sobre a loucura humana com respaldo na política, que resultou no genocídio de quase 25% da população do Camboja. A área do tamanho de um campo de futebol não carrega mais os prédios do regime comunista ditatorial de Pot Pol, destruídos pela população local após a queda do ditador, mas ainda abala com as valas comuns onde há restos mortais de mais de 20.000 pessoas e os depoimentos daqueles que sobreviveram o terror, contados em um áudio guia (incluso no ingresso de 5 dólares).

Pol Pot foi o líder do Partido Comunista da Kampuchea, que massacrou o Camboja de 17 de abril de 1975 (conhecido como ano zero) a janeiro de 1979. Nesse período, o tirano invadiu as cidades do país, deslocando a população para o campo. Pot Pol considerava as cidades impuras e queria recriar um estado nacional completamente agrário. Para isso, destruiu a infra-estrutura existente (hospitais, cinemas, bancos, bibliotecas etc), proibiu religiões, matou ícones da cultura como artistas, músicos e intelectuais (professores, advogados e médicos) e separou famílias, enviando seus membros para diferentes fazendas de trabalho no campo. Os cambojanos eram obrigados a trabalhar dia e noite para triplicar a produção de arroz, uma das metas impossíveis do governo comunista. Ironicamente, o arroz era exportado para China em troca de armas, fazendo com que os camponeses – considerados “o povo puro” por Pol Pot – passassem fome.

Restos mortais de algumas vítimas de Pol Pot

Restos mortais de algumas vítimas de Pol Pot

Logo a visão distorcida da sociedade perfeita de Pol Pot se mostrou impossível, causando um estado de paranoia ainda maior no ditador, que aumentou a perseguição a quem fosse considerado inimigo do regime: pessoas com nível universitário, qualquer um que usasse óculos, estrangeiros, soldados do próprio Khmer Rouge que ajudassem os prisioneiros (às vezes somente a levantar), bebês oriundos de famílias suspeitas etc.

Em 1979, o Vietnã invadiu o país, liberando a população dos horrores de Pol Pot. Em um triste ato da cegueira idealista dos países ocidentais – que temiam o governo comunista vietnamita – o novo governo cambojano não foi reconhecido pelos EUA, França, Austrália, Alemanha entre outros, fazendo com que Pol Pot, que escapou pela fronteira tailandesa, fosse considerado o legítimo governante do Camboja. Tenho que dizer que depois de testemunhar os ossos e dentes quebrados misturados à terra das covas comuns, e ver a árvore onde bebês eram arremessados vivos, essa informação nos deixou enojados.

Para mim, Choeung Ek e o genocídio no Camboja são ainda mais doloridos por terem acontecido logo após as histórias do holocausto terem vindo à tona, provando que não há aprendizado para aqueles que enquadram os acontecimentos mundiais em pró ou contra posições políticas estabelecidas. Apoiar um ditador assassino por ele ser capitalista ou comunista é brincar de fla flu ideológico enquanto milhares tem sua humanidade negada.

Árvore dos Killing Fields onde bebês eram arremessados vivos

Árvore dos Killing Fields onde bebês eram arremessados vivos

Os Killing Fields me emocionaram muito. Chorei, calei, fiquei atordoada. No fim, guardei o aprendizado e as palavras da comunidade budista cambojana:

“At the end of life, we will not be judged by how many diplomas we have received, how much money we have made, how many great things we have done. We will be judged by ‘I was hungry and you gave me to eat, I was naked and you clothed me, I was homeless and you took me in.’ Hungry not only for bread, but hungry for love. Naked not only for clothing, but for human dignity and respect. Homeless not only for wanting a room of bricks, but homeless because of rejection.”*

 

*Tradução: “No final da vida, nós não seremos julgados por quantos diplomas recebemos, quanto dinheiro temos, ou quantas coisas importantes fizemos. Nós seremos julgados por ‘eu estava faminto e você me alimentou, eu estava nu e você me vestiu, eu estava sem casa e você me acolheu.’ Faminto não só por pão, mas por amor. Nu não só por falta de roupa, mas por falta de dignidade humana e respeito. Sem casa não só por desejar um quarto de tijolos, mas sim por causa da rejeição.”

 

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Um comentário em “Dores do Camboja

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