O Vietnã (Hanoi, Hoi An, Danang, Ho Chi Minh)

Com população de 90 milhões, território 30 vezes menor que o do Brasil, o Vietnã é um país comunista, complicado, desigual, energético, que tira a maioria dos viajantes da sua zona de conforto. Ao longo dos séculos, o povo lutou bravamente para manter a sua unidade e integridade. Definitivamente, é um país emblemático, que faz parte da memória coletiva da geração de nossos pais, quando notícias traziam os horrores da guerra na qual os Estados Unidos usaram toda a sua máquina destrutiva, mas perderam diante da determinação do povo vietnamita.

Para nossa geração, as imagens do país são ralas, indo pouco além dos estereótipos batidos: o chapéu cônico e pontudo, o longo ao daí (traje típico feminino), a culinária picante (que eu adoro), e algumas parcas noções da colonização francesa e das notícias sobre a guerra contadas por nossos pais ou pelos professores na escola.

Em nossa passagem pelo Vietnã, queríamos aprofundar a noção desse país sofrido, conhecendo um pouco mais sobre sua cultura, mas também aproveitar uns dias no litoral vietnamita, já que o André, irmão do Guico, vinha passar suas merecidas férias com a gente. Se nosso plano ambicioso funcionasse, visitaríamos a capital Hanoi, faríamos um cruise em Halong Bay, passearíamos pela cidade antiga e as praias de Hoi An, passando depois pela cidadezinha litorânea de Danang e terminando o trajeto em Ho Chi Minh, tudo em 11 dias. Seria um pouco corrido, mas pelo menos veríamos o país de norte ao sul.

A primeira impressão de Hanoi, nas margens do Rio Vermelho, é de uma cidade povoada por motos. Com sete milhões de habitantes, Hanoi deve ter uma moto para cada duas pessoas. Elas ocupam as ruas e calçadas nas mesmas proporções e carregam de tudo, a feira da semana, tubulações para a reforma da casa e famílias inteiras. Regras de trânsito não existem, mas uma força maior parece organizar o fluxo. Atravessar a rua é um ato de fé, você olha para o outro lado da rua com determinação e mantém um ritmo constante, rezando para que os motoristas – que buzinam o tempo todo – desviem de você.

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Motos em Hanoi

A cidade carrega uma energia intensa e constante, não só pelo trânsito caótico, mas também pela incessante vida nas ruas. Além das baladas e bares lotados de gringos, as calçadas são tomadas por todo tipo de atividade. Cada um se vira como pode e é interessante o uso do ambiente. Em todo canto há mesinhas e minúsculos banquinhos de plástico, onde os vietnamitas comem a céu aberto ou jogam baralho e o comércio se improvisa: barbeiros, sapateiros, “postos de gasolina” (combustível vendido em garrafas), padarias e quitandas dividem o espaço com pedestres e motos estacionadas. Caminhar pelas calçadas de Hanoi definitivamente é uma experiência única.

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As famosas vendedoras de Hanoi

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Comida na calçada

Outra coisa que chama a atenção são as casas, estreitas e altas, parecendo uma sobreposição de cômodos apertados. É que antigamente havia um imposto em Hanoi de acordo com o tamanho da fachada das construções. O povo, como sempre lutador e criativo, deu seus pulos, criando a arquitetura colorida e magra da cidade. O efeito é muito interessante.

Olha a finura das construções!

Olha a finura das construções!

Depois de andar pela cidade, visitamos a antiga prisão Hanoi Hilton (Hoa Lo) para captar o sentido da luta contra o sistema colonial e os americanos. Apesar da propaganda comunista (eles afirmam que os pilotos americanos capturados na guerra foram tratados como hóspedes), a história brutal da ocupação do país é cortante, escancarada nas fotos de rebeldes decapitados ou algemados pelos pés em camas de madeira dispostas em celas minúsculas. Mesmo tentando absorver o período histórico, a completa realidade do povo vietnamita daquela época ainda nos escapa.

Saindo da intensidade de Hanoi, os próximos dias em Halong Bay, considerada patrimônio da humanidade pela UNESCO, prometiam ser relaxantes. A baía é na verdade um complexo de mais de 1600 ilhas esculpidas pela erosão e água do mar. Muitas tem cavernas subaquáticas que exploramos de caiaque ou grutas com estalactites e estalagmites. Passamos três dias em uma barquinho de madeira típico com velas que lembram nadadeiras de peixe, conhecido como Junk Boat. O nome não é muito animador, mas o barco é na verdade bem bacana. Por 65 dólares por dia, você dorme no barco com todas refeições inclusas e faz passeios pela região.

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Barcos conhecidos como “Junk Boats”

Halong Bay

Halong Bay

Halong Bay é realmente espetacular, com uma paisagem sem igual, mas ficamos desanimados com a quantidade de lixo – garrafas de plástico, isopor e diesel dos barcos – na água, impedindo que nadássemos uma única vez. O governo precisa implementar um sistema de coleta de lixo nas comunidades flutuantes de pescadores que vivem na região e educar as centenas de embarcações (em sua maioria turísticas) que navegam pelo local, ou esse lindo presente da natureza irá desaparecer rapidamente.

Ainda bem que incluímos Hoi An no roteiro logo após a passagem por Halong Bay, ou ficaríamos com uma má impressão da costa vietnamita.  A cidadezinha também recebeu o selo de patrimônio da humanidade da UNESCO, só que dessa vez, o lugar estava muito bem cuidado. O centro antigo de Hoi An é um exemplo excepcionalmente preservado de um porto comercial do Sudeste Asiático do século XV. Os edifícios e desenho das ruas refletem as influências indígenas e estrangeiras que se combinaram para produzir essa vila charmosa, que possui casas com portas amplas de madeira, calçadas largas, várias lojinhas de alfaiataria e muitos restaurantes deliciosos (o Morning Glory tem pratos vietnamitas de outro mundo!).

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Ponte antiga de Hoi An

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Comércio de rua

Pegando uma bicicleta, ou aproveitando a minivan gratuita dos hotéis, dá para sair do centro histórico e chegar rapidinho na praia de Cua Dai. O legal de ir pedalando é que você passa pelas plantações de arroz e restaurantes na beira do rio, um cenário bucólico super gostoso. A praia é limpa na maioria dos trechos (infelizmente a areia na frente de bares gerenciados por locais estava sempre mais suja), com água um pouco mais fria que na Tailândia, espreguiçadeiras rústicas e guarda-sóis de folhas de coqueiro.

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Praia Hoi An

Conseguimos aproveitar bem nossa estadia em Hoi An, saindo para jantar com a Lu e o Mauricio (um casal paulistano super gente boa que conhecemos no avião para Luang Prabang e reencontramos no Vietnã), passeando pelas lojinhas e revezando a manhã entre a praia e a piscina do hotel. Essa parada relaxante, na verdade, foi nossa sorte, pois a passagem por Danang, outra cidade litorânea a meia hora de Hoi An, não foi nada tranquila.

Tínhamos lido em algum blog de viagem que Danang não era uma cidade visada por turistas, tornando-a uma boa opção para vivenciar a rotina e cultura verdadeiramente vietnamita. Nisso, o site estava certo. Ficamos observando milhares de locais, e praticamente nenhum gringo, se divertirem na praia durante o final de tarde (eles vão direto do trabalho e caem no mar de roupa, inclusive usando calças sociais e jeans). O problema é que a cidade não tem nenhuma outra atração turística e nosso hotel estava reformando (claro que ninguém nos avisou), fazendo com que acordássemos de supetão às 6:30 da manhã ao som de britadeiras e martelos e passássemos o resto do dia em modo zumbi. Para quem ainda assim tem vontade de “sentir a vida local” de Danang, sugerimos marcar o voo de saída de Hoi An (o aeroporto mais próximo fica em Danang) para o fim da tarde e passear pela praia central da cidade no fim do dia, apenas algumas horas antes do embarque. Com certeza, é mais do que suficiente.

Três sonâmbulos deixaram Danang para trás com a esperança de poder descansar em Ho Chi Minh, apesar de sua fama de cidade barulhenta. Enquanto Hanoi é considerada o centro cultural do país, Ho Chi Minh, antiga Saigon, é seu grande polo econômico. A cidade de Saigon mudou de nome em 1976 em homenagem ao líder revolucionário, o nacionalista Ho Chi Minh, engajado na luta feroz contra a França colonialista, o Japão e, mais tarde, contra os EUA, pela reunificação e independência do país. Para o povo do norte do Vietnã,  o nacionalista é uma das estrelas mais brilhantes do seu panteão de heróis (muitos sulistas foram perseguidos por milícias do norte após a guerra contra os EUA, polemizando a imagem de HCM na região).

Mal desembarcamos em Ho Chi Minh e já senti a rinite atacando, já que a cidade é super poluída, assim como Hanoi. A proximidade da China não ajuda, mas a grande quantidade de motos nas ruas, o aumento do número de complexos industriais e, principalmente, o uso de combustível de baixa qualidade são ainda os maiores responsáveis pelo ar poluído e a altíssima incidência de doenças respiratórias. Ironicamente, o país exporta petróleo de primeira, mas carece de refinarias, o que leva à importação de gasolina de má qualidade, altamente poluente. Não são só os estrangeiros que sofrem com a poluição, é muito comum ver mulheres cobrindo o nariz e a boca com um tipo de máscara cirúrgica enquanto dirigem para fugirem da fumaceira (e para não pegarem sol, já que o ideal de beleza asiático é ter pele mais branca).

Com cerca de oito milhões de habitantes, Ho Chi Minh é mais populosa que Hanoi, e tão poluída quanto, mas a cidade parece melhor organizada e mais cosmopolita. As ruas são mais largas e a arquitetura mais moderna, apesar de ainda vermos o famoso “empilhadinho vietnamita” em alguns distritos mais antigos. Como só teríamos um dia inteiro na cidade, optamos por fazer um tour onde conseguíssemos sentir um pouco da cultura do sul. O Back of the Bike Tours vinha bem recomendado por milhares de internautas, e nós entendemos bem o porquê. Na carona de uma motocicleta, você percorre Ho Chi Minh com um chef americano e sua esposa vietnamita. Os dois te levam em todos aqueles lugares que só os “locais” frequentam, passando por várias tendinhas de comida de rua e pontos interessantes da cidade. De quebra ainda fizemos milhões de perguntas sobre a cultura, desbravamos o trânsito como os nativos e pudemos comprovar a hospitalidade dos sulistas, sempre mais curiosos em relação aos estrangeiros. Foi como viajar com o Anthony Bourdain.

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Tour gastronômico de moto

O Chad, o chef americano praticamente naturalizado vietnamita, nos contou que de Ho Chi Minh até Hoi An ele é muito bem tratado, mas que na capital a situação muda e às vezes é melhor se passar por canadense. Apesar do histórico conturbado, o fato é que hoje os EUA são referência para muitos jovens vietnamitas, especialmente em relação à música (os anos 80 reinam por aqui) e ao cinema, ao jeito de vestir, e à vontade de ganhar dinheiro. O Vietnã aderiu à Organização Mundial do Comércio (OMC) e já assinou acordos de livre-comércio com Japão e EUA. Parece contraditório, ao menos aponta para um caminho diverso da heroica luta do passado. Para onde caminha o país? Que será amanhã? É difícil dizer.

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O chef Chad contando histórias do Vietnã

De tudo o que vi, levo comigo a cultura vibrante, a impressão inicial de um povo resiliente, safo, sem afetação. Das mulheres fortes, batalhadoras, como formiguinhas sempre em movimento na labuta diária, muitas carregando cestos pesados, cheios de produtos para comercializar, pendurados num bastão de madeira que apoiam nos ombros. E do povo do sul, de sorriso fácil, que sempre acenava para os três brasileiros que passeavam casualmente por suas ruas e que deixaram o país desejando poder ficar por mais alguns dias.

 

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Um comentário em “O Vietnã (Hanoi, Hoi An, Danang, Ho Chi Minh)

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