Luang Prabang, a terra mística do Laos

Serei sincera. Eu e Guico não sabíamos muito sobre o Laos, muito menos sobre Luang Prabang, a terra descrita como “paraíso” pelo explorador francês Henri Munhout, que passou pela região em 1861 em uma expedição para abrir uma nova rota para a China. Esperávamos, talvez, uma Chiang Mai piorada. Algo como uma vila de camponeses sem recursos e com muito mosquito. A única parte que acertamos foi da necessidade de repelente.

No alto das montanhas enevoadas do norte do Laos, Luang Prabang corre ao lado do Rio Mekong e já foi a capital de um reino, antes da tomada do poder pelos comunistas em 1975. O local é conhecido por seus 33 templos budistas feitos de madeira, com entalhes dourados e mosaicos brilhantes, razão pela qual a cidade inteira foi tombada pela UNESCO e nós resolvemos incluí-la no itinerário da volta ao mundo.

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Templo budista

Além de colocar a cidade no mapa dos turistas, a alta concentração de templos também influencia no dia a dia da população. Toda manhã, começando por volta das seis horas, centenas de monges caminham serenamente pela rua principal da cidade para recolher pequenas doações de alimento. Os mais velhos lideram a fila, passando pelos moradores ajoelhados que depositam comida, incenso e até dinheiro na bolsa de doações de cada monge. O Tak Bat, como é conhecido o ritual, é uma procissão silenciosa, nem os monges nem os almgivers (os doadores) oferecem qualquer palavra, já que a caminhada é feita em meditação. O problema é que alguns turistas enxergam a cerimônia religiosa como um show, batendo fotos com flash a dois centímetros dos rostos dos monges, vestindo roupas inapropriadas e fazendo algazarra. Se os hotéis da região ou o governo não criarem um folheto educativo logo, o ritual de centenas de anos corre o risco de desaparecer, já que a quantidade de participantes locais está diminuindo (eles se recusam a fazer parte de um “reality show” para gringos). Com certeza seria uma pena.

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O Tak Bat

A boa surpresa é que a cidade é uma gracinha, legado do colonialismo francês na região (1893-1945). As casas tem aquelas portas amplas de madeira, as calçadas são de tijolinhos vermelhos e as placas das lojas são padronizadas, todas entalhadas em madeira, dando um ar organizado e rústico ao local. Há também vários restaurantes deliciosos decorados com artesanato típico e lâmpadas feitas de papel ou de bambu. Fizemos um verdadeiro tour gastronômico da região! Para quem passar por aqui, recomendamos o laap (carne triturada, geralmente de búfalo ou porco, misturada com ervas e especiarias) servido com arroz branco e comido com as mãos, e a Saikok, uma linguiça feita exclusivamente com carne de porco e ervas.

No geral, os laosianos são mais tradicionais que os tailandeses, talvez devido a um menor fluxo de turistas no país. As mulheres cobrem os braços e as pernas até o joelho, independente do calor que esteja fazendo. Mesmo assim, achamos todos super simpáticos, demonstrando uma ingenuidade e curiosidade maior com os visitantes do que na Tailândia.

Nós chegamos um pouco antes do ano novo, que é comemorado de um jeito curioso. Os moradores limpam suas casas e artefatos pessoais para começar bem o novo ano, que muda oficialmente de data no dia 14 de abril. Dias antes da festa, e mais tradicionalmente no dia 12 de abril, o último dia do calendário (o dia 13 não pertence nem ao ano antigo, nem ao novo, sendo considerado um dia de transição), todos vão para as ruas e jogam água uns nos outros, tipo brincadeira de criança. Estrangeiro ou não, não tem como escapar. Eu e Guico fomos ensopados bem antes de um passeio para uma cachoeira, o que foi até bom, considerando o calor escaldante que estava fazendo.

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Ano novo é sinônimo de água!

A Kuang Si Falls, a cachoeira do passeio em questão, fica a alguns minutos de Luang Prabang e é idílica. A água nem é tão gelada e dá para fazer um picnic por lá, se você não tiver agendado aqueles tours com hora para voltar. O outro passeio mais famoso da cidade – uma volta de barco pelo rio Mekong até a Caverna dos Mil Budas, onde há milhares de imagens de Buda doados por moradores locais em datas comemorativas – também é interessante, porém mais pela paisagem e vida às margens do rio do que pelo sítio religioso em si.

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Cachoeira Kuang Si

Outro fato interessante sobre o país é que ele foi um dos mais bombardeados do mundo, quando os EUA não se importavam em atingir os países vizinhos durante a guerra do Vietnã. Até hoje uma liga de voluntários internacionais tenta retirar minas do território laosiano e vários moradores utilizam destroços do conflito na construção ou decoração de suas casas (cápsulas de mísseis e bombas viraram vasos de plantas populares).

Reparem nos vasos!

Reparem nos vasos!

Nossa estadia em Luang Prabang foi curta e relaxante. Ficamos perambulando pelas lojinhas, pela feirinha hippie noturna (a melhor da Ásia até agora, cheia de trabalhos diferentes), ou pulando de restaurante em restaurante praticamente o dia inteiro. É uma pena que não tivemos tempo para visitar Vientiane, a capital do Laos, para conseguirmos formar uma opinião melhor sobre o país. A julgar somente por Luang Prabang, ninguém de passagem pelo sudeste asiático deveria perder a oportunidade de conhecer essa pequena joia mística perdida no meio da floresta.

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Caverna dos Mil Budas

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Na caverna dos mil Budas

 

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2 comentários em “Luang Prabang, a terra mística do Laos

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