Conhecendo o outro lado do mundo: China (Guilin, Xian, Xangai e Pequim)

A primeira coisa que passou pela minha cabeça quando desembarcamos em Guilin foi, “agora sim estamos na China!” Apesar de Hong Kong ser considerada território chinês, a moderna e vibrante cidade-estado tem leis e costumes próprios, estampando um ar ocidental orgulhoso em suas inúmeras lojas fashion e arranha-céus de vidro. Enquanto em Hong Kong até a mais humilde faxineira fala um pouco de inglês, em Guilin nem os recepcionistas dos hotéis conseguem se comunicar bem.

A mudança de tom entre um país e outro ficou clara já no desembarque. Como as leis de imigração das duas cidades são distintas, tivemos que passar por alguns militares mal encarados para entrarmos no país. A maior preocupação era o meu visto, que tinha data limite de entrada na China para o dia seguinte (a entrada em Hong Kong não conta como território chinês). Tínhamos sido avisados desses pormenores legais por um conhecido nosso que, saindo de Hong Kong para outra cidade chinesa, acabou preso por conta do visto. Pela cara dos milicos de Guilin, não deve ter sido um jeito legal de conhecer o país.

Depois de gesticularmos um pouco no aeroporto (as horas jogando Imagem & Ação nos prepararam bem para esse momento), pegamos um ônibus e um táxi e chegamos ao nosso albergue, um oásis internacional no meio da cidade com vista para o rio por apenas U$ 7,00 (adoro os preços da Ásia!). Nossa primeira aventura foi tentar achar um lugar para almoçar. O restaurante embaixo do hostel fazia uma boa propaganda de sua comida fresca, com uma dezena de bacias na calçada, cheias de moluscos e peixes vivos. Sem um cardápio em inglês (muito comum em cidades menores), apontamos para a única foto de comida na parede e começamos a rezar. Demos sorte. O peixe apimentado servido inteiro na wok estava uma delícia!

A beleza de Guilin foi a segunda boa surpresa do dia. Arborizada e organizada, a cidade é cortada ao meio pelo rio Li, onde os moradores fazem sua travessia em jangadas de bambu. Apesar to tempo cinzento típico do final de inverno, conseguimos driblar a chuva e passear pelo Parque do Elefante, o cartão postal da cidade. Infelizmente nosso acordo com São Pedro acabou um pouco antes do tour pelos terraços de arroz de Long Ji. A neblina amanheceu pesada, cobrindo boa parte da vista cênica famosa do interior do país.

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Torres do Parque Riyue Shuangta

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Lanternas no Parque do Elefante

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Essa pedra é a “trompa” do elefante – Parque do Elefante

Fiquei chateada. As costelas de arroz cravadas nas montanhas eram uma das principais razões para visitar Guillin. Minha frustração teria sido ainda maior não fosse pela passagem pela vila Huangluo Yao, no meio do caminho para os terraços. Conhecida pelas mulheres da etnia Red Yao, que nunca cortam o cabelo, a vilazinha ficará para sempre na nossa memória como o lugar do casamento do Guico. Isso mesmo. Meu namorado se casou com uma chinesa! Na verdade eles realizam um show demonstrando os costumes e músicas locais e o Guico teve a sorte de ser escolhido para participar. O evento culmina em uma cerimônia matrimonial típica, onde o noivo é beliscado na bunda pelas mulheres e depois carrega sua noiva pelo palco. Eu achei que teria uma ataque epilético de tanto rir!

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Costelas de arroz coberta por neblina

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Vila Red Yao

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Guico igual uma TV em promoção nas Casas Bahia no dia do seu “casamento chinês”

Vídeo do Casamento do Guico (com direito as beliscadas no fim!)

Realizado o divórcio (alguns trocados para comprar uma bolsinha artesanal foram o bastante), terminamos o dia em uma casa tradicional de chá, aprendendo sobre os diferentes processos de fabricação, e sobre o ritual milenar da bebida, carregado de simbolismos e regras (mulheres devem levantar o dedo mindinho enquanto bebem e há diferentes modos para solteiros e casados baterem na mesa para demonstrarem satisfação com a anfitriã). O preparo das diferentes ervas é um processo minucioso, apreciado com zelo, como em uma degustação de vinhos refinados. Foi um jeito relaxante de encerrar o dia.

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Ritual do chá

Infelizmente o refinamento dos chineses à mesa começa e termina no ritual do chá. Mesmo a metros de distância, é possível escutar cada chupada de noodles (todos comem de boca aberta e fazendo muito barulho). É impossível não notar. Se por acaso você perder a sinfonia, o arroto no final da refeição será o bastante para chamar sua atenção. Se perder até esse episódio (vai que estava no banheiro bem na hora), não se preocupe, a escarrada na calçada enquanto todos saem do restaurante ficará para sempre na memória. Moral da história: nada melhor para encorajar uma dieta que almoçar com chineses.

Apesar dos hábitos nojentos, a culinária chinesa é extremamente rica, com nuances interessantes em cada região. Em XI’AN, a segunda parada no país, provamos um banquete chinês digno de imperador, com duas sopas de entrada, chás variados e sete pratos principais. Com certeza um exagero, porém para os chineses a sobra de comida à mesa é um sinal de fartura e de hospitalidade.

XI’AN, uma das cidades mais antigas da China com 3.100 anos de história, é conhecida principalmente por abrigar o sítio arqueológico dos guerreiros de Terra-cota. Nossa passagem por lá foi um pouco rápida, mas o suficiente para visitar a muralha velha da cidade, a Pagoda do Pequeno Ganso e as torres do tambor e do sino. Os guerreiros são um show à parte. Mais de 8 mil estátuas datadas de 300 a.C., todas com rostos diferentes, vigiam a tumba de  Qin Shi Huang, o primeiro imperador chinês. Os guerreiros, generais, arqueiros e cavaleiros encontrados tem tamanhos diferentes que variam de acordo com as patentes, os mais altos (e gordos, já que a famosa barriguinha de chopp era o padrão de  beleza da época) sendo os generais. Cavalos, charretes, músicos e oficiais do mesmo material também foram desenterrados. O tesouro arqueológico foi encontrado por fazendeiros que escavavam um poço em 1974. A primeira estátua descoberta foi de um arqueiro, a única que sobreviveu intacta aos anos de erosão e terremotos. Misteriosamente, a peça também conservou a tinta original, enquanto todas outras desbotaram, ganhando o merecido apelido de Arqueiro Mágico.

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Bell Tower no centro da cidade

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Guico na Drum Tower

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O arqueiro mágico (hoje já sem a tinta original)

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Os guerreiros de Terra-cota

Sair da tradicional XI’AN para a elétrica Xangai foi uma mudança interessante. Cravada com milhares de arranha-céus, a cidade mais populosa da China é um grande centro industrial e financeiro, recheada de restaurantes famosos, baladas e lojas. Para nós, no entanto, ir para Xangai foi como voltar para casa. É que a Patrícia, prima do Guico, mora por lá. Não só conseguimos ir a uma churrascaria, a um rodízio de pizza e bater papo de manhã com um bom café, como recebemos as melhores dicas sobre a cidade. Ficamos impressionadíssimos com a quantidade de opções em Xangai. Se você tirar os letreiros em chinês e olhar a arquitetura moderna e a quantidade de cafeterias e restaurantes gourmets, pode achar que está em Nova York.

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O antigo e o novo

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Reza no templo budista

Para quem gosta de comprar em viagens, então, Xangai é o paraíso. A cidade tem milhares de shoppings e lojas, mas o grande achado (outra dica da Patrícia, é claro) foi a Pearl City, um centro comercial com várias opções legais de artigos de seda e pérolas verdadeiras, tudo com qualidade comprovada e suuuuuuper barato! Difícil foi não sair de lá com todos os colares, anéis e pulseiras disponíveis!

Contrastando com os prédios novos, as largas avenidas e os letreiros luminosos, Xangai ainda conserva alternativas para quem quer experimentar a cultura antiga do país. Qibao, a 18 km do centro da cidade, é uma vila histórica, com tendas de comidas exóticas, artesanato e quinquilharias empilhadas dos dois lados das ruazinhas estreitas. Mesmo se você não tiver coragem de provar nenhuma iguaria (o ovo preto com pintinho dentro foi demais para mim), passear pelo bairro e suas construções tradicionais chinesas já é um grande evento.

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Vendinhas de Qibao

No que se refere à China tradicional, achamos Pequim mais fiel às imagens do país que carregamos no nosso imaginário ocidental. É só caminhar pelo centro da cidade e você esbarra em cantinas vendendo pato assado e outras delícias locais, edificações com o famoso telhado oriental com as pontas levantadas e milhares, milhares de chineses. Surpreendentemente, andar pela cidade é super fácil. Como em Hong Kong e Xangai, a malha de metrô é bem ampla. Dentro dos trens, há um mapa que acende conforme a direção do trem para indicar a próxima estação, e como os nomes estão em inglês e chinês e há uma gravação em inglês confirmando o nome da parada que se aproxima, não tem como se perder.

A Praça Tiananmen (Praça da Paz Celestial) é um bom lugar para começar a explorar a cidade. De um lado se vê o Palácio do Povo, do outro, a Cidade Proibida onde morava a família imperial, e no meio, a praça rica em história e protesto. Apesar de o governo chinês esconder como pode o massacre da Praça Celestial em 1989, o local ainda é foco de rebelião, mesmo que reprimida. Eu e Guico passeávamos tranquilos por Tiananmen, quando uma chinesa tirou a blusa, mostrando o corpo pintado com caracteres chineses, e começou a gritar. Em poucos segundos, vários policiais (o local parece mais bem guardado do que o caixa forte do Tio Patinhas) empurraram a moça para dentro de um camburão. Achamos que podia ser algo em relação ao Tibet, pois os telões da praça mostravam imagens da região e estávamos a um dia do aniversário dos protestos pela independência que terminaram em violência no dia 14 de março de 2008. Porém, como falamos só três palavras em mandarim, a mulher bem que podia estar gritando de dor de barriga. Nunca se sabe.

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Detalhe dos telhados das construções chinesas

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Praça Celestial

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Sumiram com a moça

Visitar a China e não conhecer a Grande Muralha construída ao longo de dois milênios para afastar os bárbaros do norte seria um sacrilégio. Considerada uma das novas sete maravilhas do mundo, a muralha tem 8.850 quilômetros não contínuos, já que a construção é feita de muros separados. Pequim é um ótimo lugar para conhecer a parte da muralha erguida durante a dinastia Ming (1.368 d.C. a 1.644 d.C.), mas para realmente aproveitar o passeio você tem que saber qual trecho visitar. A maioria dos turistas vai para Badaling, onde você pode tirar lindas fotos da multidão se acotovelando na muralha. Se esse cenário te dá tanto arrepios quanto a mim, vá para Jinshanling (dizem que Simtai também é muito bonito, mas estava fechado para reforma). Andar pela muralha e poder explorar as torres sem ninguém por perto é impagável (na verdade é sim, custou U$ 45 entre transporte e alimentação).

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Jumping na muralha da China

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Eu e Guico na muralha da China

Além das atrações turísticas mais famosas, Pequim é cheia de opções B interessantes, como o passeio pela rua Wangfujing, onde há um mercado noturno de petiscos gostosos e estranhos. Tem de tudo! De espetinho de camarão, a escorpião frito. Eu provei um grilo crocante que tem gosto de batata frita, o que só prova minha teoria que é só botar sal que toda fritura fica com o mesmo gosto.

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Mercado da rua Wangfujing

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Grilos e outros insetos fritos. Yum!

Comendo Grilo Frito na China:

Apesar de a parte moderna da cidade ser menor do que em Xangai, ainda dá para passear pelas lojas conceito de marcas famosas, ou jantar no Beijing Soho, o bairro chique da cidade (não é por nada, mas o nome Soho já tá meio batido, né?). A Paulinha, minha amiga de Curitola que se mudou há um mês para a China, me levou em um ótimo restaurante oriental com direito a mojitos em um bar próximo para botar o papo em dia. Nos divertimos horrores, mas os bares da cidade são meio estranhos, com música lenta, ou pole dancing (e não era bordel), ou gente esquisita. É que a maioria dos chineses acha esse negócio de vida noturna meio perigoso, coisa de gente desocupada mesmo. Não que eles estejam totalmente errados, a julgar pela galera nas ruas à noite.

Depois de 20 dias pelo país, estava na hora de seguir viagem para Tailândia. Nossa passagem pelo território ching ling foi quase um episódio do Discovery Channel. Provamos comidas estranhas, nos espantamos com alguns hábitos dos chineses, conhecemos pessoas legais e vimos monumentos incríveis. A China com certeza imprimiu sua marca em nossa memória. Afinal, sentir-se desafiado do outro lado do mundo é uma das razões principais para levantar do sofá e entrar em um avião. (Mesmo quando o desafio seja não fazer careta quando alguém escarra a centímetros do seu pé. Yuck!)

 

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Um comentário em “Conhecendo o outro lado do mundo: China (Guilin, Xian, Xangai e Pequim)

  1. Pingback: Viagem dos sonhos, qual seria a sua? - Retrip

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