Faces da Índia

Nós tínhamos acabado de receber a guirlanda de boas-vindas na estação e seguíamos o capitão, que tinha um bigode longo e vestia uma espécie de turbante, até nossa cabine. Decorada com cadeiras talhadas, lençóis típicos e com mais conforto do que a maioria dos hotéis que passamos, o quarto fazia jus ao nome do trem. Deixamos nossa bagagem e fomos explorar os outros vagões. Com dois restaurantes, SPA, academia e um atendente individual, a viagem de trem pela Índia não seguiria o padrão das histórias que ouvimos da maioria dos viajantes. E isso era ótimo. Para falar a verdade, o país não estava na lista dos favoritos do roteiro de volta ao mundo. Longe disso. Depois de escutar vários relatos sobre a falta de higiene, sujeira e extrema pobreza da região, eu não tinha ficado extasiada em passar por lá.

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Tumba design mughal – New Dehli

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Visitando a Tumba Mughal – New Dehli

Foi só quando eu li sobre o Palace on Wheels, um trem luxuoso que percorre o Rajastão, a terra majestosa dos marajás e seus palácios, que eu comecei a me animar. Para dar um sabor ainda mais especial à viagem, presenteei o Guico, que dividia meus receios sobre o país, com o ticket para o trem no seu aniversário de 30 anos. Comemorar a virada de década do namorado em um dos dez trens mais luxuosos do mundo foi a motivação ideal para começar a ver a Índia com outros olhos.

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Palace on Wheels

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Nosso quarto no trem

O itinerário do trem era empolgante por si só: sete dias apreciando a paisagem interiorana, saindo em safáris, almoçando em hotéis cinco estrelas e visitando o reino antigo dos rajás e marajás, onde fortalezas históricas adornam colinas íngremes e lindos jardins cercam palácios preservados há mais de dez séculos. Ao todo, conhecemos seis cidades (Sawai Madhopur, Udaipur, Jaipur, Agra, Khajuraho e Varanasi) e ainda ganhamos um tour complementar por New Dehli.

É difícil escolher as melhores memórias da viagem. Seria o passeio de elefante pelas portas do Palácio Amber? A vista dos palácios no meio dos lagos de Udaipur, tão impressionantes como os contos de Game of Thrones? O passeio por Fatehpur Sikri, a cidade construída exclusivamente com arenito vermelho em 1585? A comida perfumada com curry e saboreada com o delicioso pão naan fresquinho? Os templos hindus decorados com cenas do Kama Sutra? Ou a visita ao grandioso Taj Mahal, que muda de cor conforme a luz do dia em um show exclusivo aos que vieram conhecer uma das sete maravilhas do mundo moderno?

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Jardim das damas

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Fatehpur Sikri

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Taj Mahal de outro ângulo

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No Taj Mahal

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Palácio Jag Niwas no meio do lago Pichhola

Apesar de não conseguir eleger o melhor lugar da viagem, a parte mais impressionante do país se destaca facilmente. Os problemas da Índia são tão gritantes, que nem uma viagem de luxo em um cometa conseguiria escondê-los. A pobreza é enraizada e anda de mãos dadas com a sujeira. Mesmo nos bairros mais nobres, há montanhas de lixo para tudo quanto é lado, crianças peladas e descalças pelas ruas, pessoas doentes pedindo dinheiro e o pior trânsito que já vi (muitos motoristas retiram o retrovisor do carro/moto, utilizando somente a buzina para indicar sua posição aos outros carros). É impossível ficar insensível.

Para mim, todo o caos do país pode ser resumido em uma viagem de barco pelo Ganges. Para os hindus, que correspondem a 80% dos indianos, as águas do rio são sagradas, absolvendo os pecados dos que ali se banham. O problema é que o Ganges é considerando um dos cinco rios mais poluídos do planeta, com uma concentração enorme de coliformes fecais, entre outros “detritos.” Do lado de uma lavadeira de bairro esfregando roupas e lençóis, se vê gente defecando nas margens, animais mortos dentro da água, búfalos tomando banho e cinzas crematórias (algumas vezes corpos embalsamados) sendo jogados no rio. Nós presenciamos todos os itens da lista acima, com exceção do corpo.

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vida no Rio Ganges

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Lavanderia Rio Ganges

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Crematório Rio Ganges

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Sendo abençoada por um padre no Rio Ganges

Ao desembarcar em uma das feirinhas da margem do rio, a gente logo sente a outra parte igualmente impressionante da Índia. No meio dessa pobreza toda, o indiano ainda é extremamente hospitaleiro e caloroso, principalmente em relação aos estrangeiros. E não, isso não tem necessariamente a ver com dinheiro. Eles vão muito além do que é esperado para agradar, te perguntam a todo o momento o que você acha do país, batem fotos (eu me senti uma atriz bollywoodiana com aglomerados de pessoas querendo tirar fotos comigo), e te presenteiam com o que tem, podendo ser uma flor catada no mato por uma menina de 6 anos, ou uma echarpe escolhida a dedo pelo funcionário da agência de viagem que nos atendeu.

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Contraste da vida nos palácios dos Marajás (onde almoçávamos)…

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…com a vida em Udaipur.

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Cores da Índia

É exatamente o contraste do sorriso das pessoas que acenavam para nós na rua com o olhar sofrido daqueles que pediam comida na estação de trem que eu levo embora comigo. Essa dor e beleza que na Índia são irmãos de uma mesma família, que te abraçam assim que você chega e que marcam a viagem com algo que vai muito além do que aparece nas fotos.

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