Colônia de férias na Cidade do Cabo, África do Sul

Cinco meses na estrada… O tempo realmente voa. Já conheci tanto lugar bacana! Cada país mexe com você de um jeito diferente. Você é obrigado a sair da zona de conforto, a melhorar o jeito que se comunica, a questionar as mensagens que envia, e, no meio de tudo, acaba revendo o que realmente importa nesse mundão. É uma dança meio maluca, onde os passos nunca são conhecidos de antemão.

Apesar de já ter curtido muitos lugares diferentes, a primeira vez que me senti realmente em casa foi em Cape Town. Talvez tenha sido a praia, o tempo mais quente, as favelas cercando o centro, o mix de pessoas, ou a arquitetura mais moderna. Não sei. O fato é que a primeira coisa que me veio à cabeça depois de alguns passeios pela cidade foi: “eu moraria aqui.”

Pela concentração de brasileiros nas ruas, acredito que a epifania não seja exclusivamente minha. Cada vez que saíamos do hostel para caminhar, tínhamos a impressão de estar em Miami, lotada de brazucas. É fácil entender o porquê. Com lindas praias, preços baratos (a moeda é mais ou menos 4 vezes inferior ao real) e sem precisar de visto, a África do Sul acaba se tornando um ótimo lugar para aprender inglês (se você conseguir entender o sotaque africâner), ou fazer uma colônia de férias internacional.

Eu e Guico nos encaixamos na segunda opção. Tours gastronômicos, passeios de aventura, safáris, tudo é mais barato por aqui. Logo que chegamos, entramos em contato com o Cape to Grape para agendar a primeira atividade da colônia de férias: um tour pelas vinícolas da área. Por 60 dólares, passaríamos o dia visitando seis fazendas produtoras com um sommelier. A missão: provar seis vinhos em cada vinícola, parando somente para degustar queijos em uma fazenda e almoçar. Como se vê, um trabalho estrênuo.

Além de bebermos bastante vinho, achamos a viagem por Paarl, Stellenbosch e Durbanville – algumas das regiões viticultoras perto de Cape Town – uma ótima oportunidade para conhecer o oeste do país, delineado por montanhas belíssimas. A parte mais marcante, no entanto, foi uma degustação de vinho harmonizada com biltongs, diferentes tipos de carnes “exóticas” curadas. Para a gente, era como comer carne seca de avestruz, cudo e de outros antílopes. Com certeza foi uma experiência interessante, mas provavelmente não uma que eu queira repetir.

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Lindas paisagens durante a degustação

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Degustação de queijo de cabra… Yum!

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Degustação de vinho com biltongs

Depois de provar quase 30 vinhos diferentes e ainda levar uma garrafa de brinde para a viagem, podemos dizer que ficamos um pouco alegres. Talvez por conta dessa alegria, ou de uma falta inata de bom senso, decidimos fazer um tour com um pouco mais de adrenalina no dia seguinte. Mergulhar com tubarões brancos parecia encaixar bem no requisito. Acordamos cedo e, juntamente com outros 22 malucos, pegamos uma van em direção a baía de Gansbaai, conhecida pela presença dos reis dos mares, focas e baleias.

Embora tenha uma fama aterrorizadora, o tubarão não é um bicho tão assustador. Mentira, é sim. A diferença é que costumamos a pensar neles como uma espécie de bicho-papão, como se a toda oportunidade os tubarões fossem nos atacar, mastigando barcos se preciso, como no infame filme de Steven Spielberg, Jaws. Como viemos a aprender, a realidade é bem diferente.

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Água cheia de mergulhões em Gansbaai

“Agora que vocês estão com a roupa mergulho, terão que esperar entre 30 minutos a uma hora, talvez mais, antes do primeiro tubarão aparecer. Eu sei, eles não mostram essa parte no Discovery Channel, mas os tubarões são muito desconfiados e seletivos com o que comem. Os que aparecerem hoje geralmente são jovens, naturalmente mais curiosos, que nos visitam para checar o cheiro de peixe que jogamos na água. Depois que perceberem a brincadeira, eles vão embora, então temos que ser rápidos na gaiola para que todos tenham uma chance de vê-los.” A explicação do guia acalmou o ânimo geral da galera, o que foi bom, pois ainda esperamos quase duas horas antes da aparição do primeiro bichano curioso.

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Esperando o tu tubarão

De cima do barco é mais fácil ver o temível senhor dos mares se aproximando da isca sorrateiramente, com o corpo completamente submerso (nada de barbatanas para fora d’água como golfinhos). Quando descíamos para a gaiola, a história era outra. Na água congelante, a visibilidade era de apenas dois metros, permitindo avistar o tubarão somente quando ele estava literalmente na frente do nosso nariz. O guia gritava, “tubarão vindo pela direita, mergulhem!” E nós nos concentrávamos debaixo d’água para não perdermos a oportunidade. Depois de umas três jogadas de isca, o tubarão achava tudo aquilo muito tedioso e ia embora, e nós ficávamos a esperar o próximo jovem tolinho que cairia no blefe.

Recebendo uma visitinha

Recebendo uma visitinha

Tubarões brancos são muito inteligentes, e não se encantam com peixe morto para o almoço, já que a refeição não fornece energia suficiente nem para completar a digestão. Sua dieta principal consiste em tubarões menores e focas. Assim, para evitar que os predadores brancos associem humanos com alimentação, os barcos com turistas só podem usar 25 quilos de peixe morto para atraí-los.  Também não é permitido alimentar os bichanos, fazendo com que um dos marinheiros tivesse que puxar a isca do mar toda vez que o tubarão ameaçava atacá-la.

No fim, ficamos com mais medo de entrar no mar por causa da baixa temperatura da água (eu batia os dentes enquanto esperávamos pelo comando de mergulho do capitão), do que por qualquer comportamento do tubarão. O cara, na verdade, só é meio mal-entendido.

Nossa colônia de férias estava uma delícia e ainda tínhamos vários dias de atividades. Em alguns dias ficávamos mais relaxados, caminhando pela orla da praia ou por Waterfront – uma região portuária charmosinha, cheia de bares, lojas e músicos de rua – ou descobrindo a gastronomia local. Há várias opções legais para quem gosta de comer bem. Eu e Guico adoramos o Mama Africa, um restaurante mais turístico, mas que oferece música ao vivo e ótimos pratos típicos (adoramos o prato de grelhados com carne de crocodilo, avestruz, cabra-de-leque, cudo e linguiça de cervo, todos animais criados em fazendas). Durante o verão, há também um ticket promocional para jantar no topo da Table Mountain enquanto o sol se põe (o que acontece por volta das 20 horas nessa época do ano). A promoção é chamada de Sunset Dine and Ride e custa somente 26 dólares, incluindo o ingresso de ida e volta dos bondinhos, buffet variado e vinho. Se adquirido online, o ticket fica ainda mais barato e não é preciso pegar fila na base da montanha. A vista de cima do cartão postal da cidade é incrível, vale realmente a pena, mesmo sem jantar!

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Por-do-sol no Topo da Table Mountain

A poucas horas de carro de Cape Town, há também outros passeios fantásticos. A visita a Cape Point, com uma parada rápida em Boulders para ver os pinguins, parece estar na lista de todos os turistas. O melhor do tour sem dúvida é a paisagem coberta de montanhas e praias idílicas que acompanha todo percurso até o ponto onde o oceano Atlântico encontra o Índico. Na mesma lista turística, Robben Island geralmente aparece como segunda colocada. Devia ser a primeira. Ok, os passeios são totalmente diferentes, o primeiro recheado de natureza e o segundo, de natureza humana. Mas, para nós, Robben Island foi mais a fundo.

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Em Cape Point, no fim da África

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Dá quase para ver o Brasil! Rs.

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Guico na entrada de Robben Island

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Cela prisão – Robben Island, Mandela ficou anos em um lugar assim

Do século XVII ao XX, a ilha a 6,9 km de Cape Town foi usada como prisão para desafetos políticos capturados por regimes diversos. Os holandeses e britânicos foram os primeiros a usarem o local para isolar os que ousavam questionar o regime colonial na África do Sul. Porém para nós, a imagem de Robben Island vem conectada a uma história mais recente e igualmente perversa: o Apartheid. Durante 46 anos, um conjunto de leis catalogava a população de acordo com a cor da pele, garantindo à minoria branca, que representa um quinto da população, um futuro seguro, enquanto todo o restante era tratado como cidadão de segunda classe. Aqueles que rebelavam contra o sistema eram ignorados, assassinados, ou enviados à Robben Island. Seu carcerário mais conhecido, Nelson Mandela, passou 30 anos na ilha.

Explorar as celas da prisão com um ex-prisioneiro foi marcante, mas o mais impressionante ainda foram as histórias de perdão, luta pela paz e senso de comunidade dos que deixaram anos de sua vida por lá. Estampados na parede das solitárias, os rostos e palavras de cada homem surpreendem. Apesar das décadas de isolamento, as mensagens postadas não são de ódio, mas sim de uma beleza simples e cortante. “Love is the answer at least for most of the questions in my heart. Why are we here? And where do we go? And how come it’s so hard?” Peguei a barca de volta à cidade envolta em pensamentos e silêncio.

Depois de tantas atividades de colônia de férias, tinha chegado a hora de deixar a cidade. Com a saída de Cape Town, nos despedimos também da África como um todo. Conhecemos poucos países, é verdade, mas fomos seduzidos por cada lugar visitado. A sensação é que precisaríamos de um ano somente para o continente, sua história conturbada e suas belezas naturais. Pretendemos voltar, é claro. Até lá, asante sana, kaka.

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2 comentários em “Colônia de férias na Cidade do Cabo, África do Sul

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