Tanzânia: subindo o Kilimanjaro

Observando o Kili da entrada do parque, eu tinha impressão que a montanha mais alta da África se divertia com os milhares de turistas e alpinistas que ali se preparavam para tentar alcançar seu cume, a 5.895 metros acima do mar. Embora a subida do Kilimanjaro possa ser feita inteiramente a pé, a empreitada está longe de ser fácil. Eu e Guico escolhemos subir pela trilha Marangu, com seis dias de caminhada intensa até o topo de uma das sete montanhas mais altas do mundo. 

Como a escalada não estava nos planos originais (“e aí, o que vamos fazer com os dias que passaríamos no Egito? Sei lá, vamos escalar o Kilimanjaro.”), fomos nos informando e arranjando os equipamentos ao longo do trajeto até a Tanzânia. Com toda lista de alpinistas de primeira viagem comprada ou alugada, nos encontramos com a equipe que nos acompanharia durante toda expedição: seis carregadores (os caras correm montanha acima com as malas, panelas e comida nas costas), um cozinheiro, dois guias e nossa dada Tone e sua equipe.

Na base do Kilimanjaro, antes de começar a subida

Na base do Kilimanjaro, antes de começar a subida

Pole Pole. “Devagar e sempre,” uma das primeiras palavras em Swahili que aprendemos, nos acompanharia durante toda a jornada. O segredo em driblar o mal das montanhas está em ascender beeem lentamente, beber muita água (o recomendado é pelo menos 3 litros por dia) e caprichar nas refeições (a ingestão calórica é de mais ou menos 4000 calorias/dia).Mesmo cumprindo a lista indicada, ainda resolvemos seguir o conselho do nosso guia e tomar uma medicação que minimiza os efeitos da altitude.

No primeiro dia caminhamos 5 horas entre a floresta, subindo até Mandara, nossa primeira parada a 2.700 m e o último acampamento com chuveiros. A equipe inteira parecia estar tranquila, incluindo Tone – nossa companheira de escalada norueguesa/brasileira/africana/cara-de-tailandesa – que não havia tomado o remédio. No segundo dia, no entanto, todo o grupo se sentiu meio esquisito. A ascensão até Horombo (3.720 m) foi sofrida. Pegamos ventos fortes na paisagem semi-árida, chuva gelada com granizo e instalações precárias (o banheiro no meio do parque já deve ter sido usado para arrancar confissões de prisioneiros). Para melhorar o quadro, eu ainda fiz as seis horas do percurso com fortes cólicas e dores de estômago. Ninguém merece.

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Banheiro do terror. E olha que esse não era o pior.

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preparando pra chuva

Depois de tanto perrengue, foi um alívio ter um dia extra de aclimatação em Horombo. Tone, eu e Guico transformamos nossa cabana em um pequeno lar (ou pequeno cortiço, com todas as roupas penduradas para secar), comemos milhares de calorias no refeitório (dividido com Ratatouille e seus amiguinhos roedores) e caminhamos 4 km até Zebra Rock, um paredão marcado por listras pretas e brancas. Na volta para o acampamento, recebemos um lembrete do desafio que teríamos logo à frente: uma mulher que havia tentando subir o cume estava sendo transportada para a base da montanha de maca. Esse já era o segundo resgate que presenciávamos.

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Resgate na montanha

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Chegando em Horombo

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Nosso cortiço congelante

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Tone e Guico secando os pés sem botas. “Say Welfare!”

Uma média de 10 turistas por ano morre tentando escalar o Kilimanjaro. A estatística não engloba carregadores e outros profissionais que sucumbem na montanha. Para estes, restam as homenagens prestadas por seus companheiros, galhos e folhas secas amontoadas no local onde o Kili foi implacável. Apesar de estarmos seguindo à risca o protocolo de segurança, a jornada que se aproximava deixava-nos apreensivos. Acordaríamos cedo no quarto dia para percorrer 6 horas no deserto montanhoso até Kibo, o último acampamento a 4.700 m, descansando algumas horas até a meia-noite, quando subiríamos mais seis horas, caminhando os últimos 1000 metros até o pico de prata (Gillman´s Point – 5.685 m) ou o da neve eterna, conhecido como Pico Uhuru (5.895m).

Eu e Guico fomos uns dos únicos a completar o trajeto até Kibo sem maiores alterações físicas. Tone começou a sentir dificuldade de respirar e enjoos, e acabei carregando sua mochila por boa parte do caminho. Vários outros hikers também passaram mal, com dores de cabeça, vômito e diarreia, indicativos de um quadro agudo de mal da montanha. A cabaninha de madeira que os locais apelidaram de banheiro tinha uma fila maior que a do posto do INSS.

Das quatro da tarde até às 11 da noite, ficamos no dormitório do acampamento tentando descansar as pernas. Apesar de termos caminhado 6 horas durante o dia, era impossível dormir. Além da ansiedade e das pessoas que iam e vinham do banheiro, tínhamos que continuar bebendo água e comendo carboidratos para evitar problemas nos últimos mil metros, sem dúvida os mais desafiadores do percurso.

Levantamos às 23 horas como se chamados para guerra. Mecanicamente, começamos a nos equipar para encarar os 10 graus negativos que nos esperavam do lado de fora. Eu vestia meia calça, uma calça de lã e uma calça corta-vento por cima, duas blusas tipo segunda-pele, um casaquinho curto, duas jaquetas de inverno, balaclava, gorro, duas luvas e duas meias e mesmo assim ainda senti um pouco de frio quando diminuíamos a marcha. Após alcançarmos os 5 mil metros, conhecido como Indian Point, a força do Kilimanjaro tornou-se esmagadora. Dada Tone acabou ficando para trás, vencida pelos enjoos. Vimos vários hikers continundo montanha acima, vomitando e cuspindo sangue ao longo do caminho, em uma demonstração da tênue linha entre a bravura e a estupidez humana.

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Cheios de roupa a mais de cinco mil metros de altura

Eu tinha uma regra, só tentaria alcançar o cume se estivesse bem. Arriscar a própria vida para tirar uma foto no alto de uma montanha é, como diria meu sogro, “um tesão besta”. A 5.400 metros, quase quatro horas de escalada depois, comecei a sentir uma leve dor de cabeça. Diminuí o ritmo. Nosso guia repetia, pole pole, pole pole. Não teve jeito.  Faltando 185 metros até o Gillman´s Point, o equivalente a mais ou menos uma hora de caminhada, comecei a sentir náuseas. Para mim, o sintoma era ainda mais problemático, já que geralmente só paro de vomitar com medicamentos. Voltamos para Kibo segundos antes de eu deixar meu jantar do lado de fora do dormitório.

Embora a maior dificuldade tivesse passado, a descida até os portões do parque não foi bem uma moleza. Com o nascer do sol, andamos mais 7 horas até Mandara, o primeiro acampamento a 2.700 m, completando 19 horas de caminhada em 30 horas. A respiração fica mais fácil a essa altitude, mas os joelhos sentem o impacto do rápido decesso. Quase sem sentir as pernas, resolvemos pernoitar por ali, completando as últimas 3 horas até a saída do Kilimanjaro no dia seguinte.

Exaustos, fedidos e felizes, Tone, eu e Guico nos abraçamos para uma última foto na saída do parque. Aventura, medo, risadas, o Kili é muito mais do que uma montanha. A experiência extrema havia transformado nossa pequena equipe em uma família. O sentimento de superação e esgotamento é um pouco inexplicável. Começamos a descida dizendo que só repetiríamos a expedição por alguns milhões, e chegamos aos portões pensando em uma maneira de nos encontrarmos daqui a algum tempo para tentarmos o cume mais uma vez.

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Missão cumprida!

Por agora, Dada Tone voltou para as férias com sua família em Dar es Salaam e eu e Guico seguimos para nossa segunda aventura na Tanzânia, seis dias de safári em algumas das maiores reservas florestais da África.

“Jambo, Jambo Bwana. Habari gani? Mzuri sana! Gani wa karibishwa. Kilimanjaro, hakuna matata!” (Música do Kilimanjaro em Swahili. Cantamos quase todos os dias. Inclusive para calar vizinhos mal educados.)

*Dada: Irmã em Swahili

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4 comentários em “Tanzânia: subindo o Kilimanjaro

  1. O que começou como uma simples mudança de planos no meio da viagem, se tornou uma das melhores e mais importantes memórias de minha vida!
    Valeu cada segundo! E lembrem-se: Pole-pole….

  2. Pingback: Minhas 5 maiores aventuras ao redor do mundo | Giros Por Aí

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