Visita à Jordânia com pulinho no Egito

Nosso itinerário original apontava o Egito como próximo destino no mapa mundi. Porém, uma singela revolução árabe atrapalhou um pouco nossos planos. Para felicidade de nossos pais, decidimos deixar a visita às pirâmides para uma próxima vez, quando a política egípcia estivesse mais estável. Ainda assim, por causa das conexões da matina para Jordânia, acabamos pernoitando no país e presenciando o forte esquema de segurança, com homens armados na saída do aeroporto e ônibus de turismo vazios. O temido trâmite do aeroporto, com retirada de vistos e passagem pela imigração e militares, foi na verdade uma passeio no parque. Graças aos funcionários do Novotel Cairo International Airport que nos receberam na área de desembarque e tomaram todas as providências necessárias. Nunca fui tão ignorada pelos oficiais da imigração.

O hotel em si é excelente, dentro dos padrões esperados para acomodações quatro estrelas. O maior luxo em nossa estadia, no entanto, foi um presente da sorte. No salão principal, realizava-se um casamento egípcio tradicional, com banda árabe típica e uma noiva super produzida dentro dos moldes mulçumanos (vestido longo branco de manga comprida e véu cobrindo toda cabeça). A experiência só aumentou a curiosidade sobre o país. Saímos em direção a Petra, na Jordânia, torcendo para que os egípcios encontrem a paz rapidamente.

Como a maioria das pessoas, meu único contato com Petra tinha sido através do filme Indiana Jones e a Última Cruzada (1989). Nessa obra prima da Sessão da Tarde, Indiana e seu pai chegam ao templo conhecido como O Tesouro para tentar impedir que o santo graal ali escondido seja capturado pelos nazistas.

Mesmo meio tosca, a experiência Hollywoodiana foi o suficiente para incitar meu desejo de conhecer de perto a cidade histórica dos nabateus, os arquitetos da maioria dos monumentos fantásticos da região, datados do primeiro século depois de Cristo. Antes, porém, teríamos que andar 4 horas em um mini ônibus, percorrendo o trajeto árido entre a capital Amman e Wadi Musa, a cidade mais próxima à Petra.

A viagem foi tranquila, principalmente pela companhia de nosso mais novo amigo, Mohamed, um guarda da segurança nacional super interessado na vida no Brasil. Depois de horas de semi-papo (limitado pela falta do Google Translator), fomos convidados para passar a noite com sua família, numa demonstração genuína da hospitalidade jordana que recebemos em quase todo país. Infelizmente, tivemos que recusar e seguir adiante, pois perderíamos o pagamento e a reserva no nosso hotel (na verdade um acampamento beduíno bem rústico, mas legal). Doídos com a perda da oportunidade de uma experiência cultural mais real, passamos o resto dos dias procurando o rosto de Mohamed em todos guardas que andavam pela cidade. Sem sucesso na empreitada, voltamos nossas atenções para o coração da viagem, visitar uma das sete novas maravilhas do mundo.

O sítio arqueológico de Petra é tão majestoso e impressionante quanto sua fama mundial, superando todas espectativas, a começar por seu tamanho, uma área de 264 km² repleta de templos, tumbas e casas, quase todas visitáveis. Não fosse pela quantidade de turistas, você poderia se imaginar como primeiro explorador de uma cidade mística perdida, descobrindo as construções feitas de um único bloco de pedra entre a paisagem pedregosa rosada. Mesmo assim, a visão do maior marco da cidade dos nabateus, a edificação conhecida como O Tesouro, é algo emocionante. Passando por fendas estreitas entre paredões de rocha, você nunca esperaria encontrar a fachada magnífica desse monumento na próxima curva.

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Chegando lá. A famosa fenda.

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O Tesouro

Petra é tão extensa, e tão interessante, que um dia não é suficiente para apreciá-la totalmente, a não ser que você seja um daqueles turistas que entra no Louvre correndo, bate foto da Monalisa e vai embora. Apesar da entrada para o parque ser incrivelmente cara (50 libras jordanas por dia, o equivalente a 55 euros), o valor fica mais acessível à medida que você passa mais dias no sítio (27,50 JD/dia para tickets de dois dias, ou 20 JD/dia para três dias consecutivos). Eu e Guico fizemos tudo em dois dias, e mesmo assim ficamos exaustos, caminhando uma média de quase 5 horas por dia.

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Formação rochosa de perto

Além da maratona, o passeio se torna cansativo devido aos milhões de vendedores insistentes que te empurram cartões postais, caronas em burros ou camelos e bijuterias beduínas feitas na China. Chegamos até a pensar em pregar uma folha com “No, Thanks” na nossa jaqueta no segundo dia. Além dos comerciantes carrapatos, a falta de restaurantes e cafés dentro do sítio também incomoda. É bom levar um lanche do hotel, ou esperar para comer em um dos restaurantes mais afastados da entrada principal (onde tudo é mais caro e de qualidade duvidosa). Eu e Guico comemos um delicioso frango assado com arroz árabe e molho de iogurte no Sand Hills, um daqueles estabelecimentos simples em que você é tratado como realeza.

Terminar a caminhada pelas ruínas e voltar para o Seven Wonders, nosso acampamento beduíno, era uma aventura por si só. O pôr-do-sol e a noite estrelada no meio do deserto são dignas de aplauso. Não cansávamos de admirar a paisagem todas as noites, quando nos juntávamos aos outros hóspedes em volta da fogueira para tomar um chá de hortelã com os locais. Acho que se não fosse pelo frio – a ida ao banheiro no meio da noite era mais dolorosa que caminhar descalça em cima de pregos – poderíamos morar por lá. Ok, se não fosse o frio e se eles tivessem internet.

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Acampamento beduíno no deserto

Nossa passagem pela Jordânia foi rápida, mas intensa. Poder contemplar o trabalho glorioso de Petra, realizado há mais de 2 mil anos, é uma lição de humildade. Você se sente pequeno perto das imponentes edificações, e, ao mesmo tempo, vendo o que restou de todo um povo, consegue sentir o que realmente importa na vida. A melhor descrição da cidade antiga fica com as palavras de John William Burgon, poeta turco ganhador do prêmio Newdigate de 1845 por seu poema “Petra”:

“It seems no work of Man’s creative hand,

by labour wrought as wavering fancy planned;

But from the rock as if by magic grown,

eternal, silent, beautiful, alone!

Not virgin-white like that old Doric shrine,

where erst Athena held her rites divine;

Not saintly-grey, like many a minster fane,

that crowns the hill and consecrates the plain;

But rose-red as if the blush of dawn,

that first beheld them were not yet withdrawn;

The hues of youth upon a brow of woe,

which Man deemed old two thousand years ago,

match me such marvel save in Eastern clime,

a rose-red city half as old as time.”

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