Marrocos: hora de começar o itinerário africano!

E então, no segundo capítulo da viagem de volta ao mundo, saímos da Europa em direção ao continente africano. Tudo iria mudar, é claro. O inesperado foi que nossa primeira aventura de terceiro mundo não aconteceu em Marrakesh, o primeiro destino na África, mas sim na saída de Sevilha. Como todos que passam por essa experiência, fomos seduzidos a viajar de Ryanair, a companhia lowcost mais usada pelos europeus, por causa do custo. Por 30 euros por pessoa, o voo de 2 horas para Marrakesh soava como cântico dos deuses. Não sei quem uma vez disse – talvez tenha sido o irmão do Murphy – que quando a esmola é demais, o santo desconfia. Eu com certeza desconfiava que passaríamos por algum perrengue. As palavras do guia “King Julian” ainda ecoavam em minha cabeça, “leve uma mala de 10 quilos para Ryanair e eles te mostrarão uma que pesa 20.” O milagre da multiplicação dos quilos deve faturar bastante, já que os caras cobram vinte euros por quilo extra em cada mala despachada. Detalhe importante, você só pode levar uma mala de 15 kg nas viagens internacionais. Mala impossível = quilos extras = $$$$$$ para Ryanair = passagem barata é pegadinha.

Para evitar a equação acima, eu e Guico chegamos super cedo no aeroporto. Nossa estratégia era pesar as malas para ver se despacharíamos uma terceira bagagem (entre 40 a 80 euros a mais na conta), jogaríamos coisa fora, ou, como sugeriu “King Julian”, vestiríamos todas nossas roupas uma em cima da outra na área de embarque. Optamos pela terceira solução. Eu vestia uma blusa de manga comprida, uma jaqueta de couro e um sobretudo e ainda levava na mão um outro casaco com uma blusa de inverno anexada ao forro. Super chique!

Feita a sauna aérea, ficamos felizes em encontrar Marrakesh no final da tarde com o vento fresco característico do inverno dando boas-vindas. A cidade te eletriza com tanta coisa diferente, que foi impossível piscar até chegarmos no riad, parecia que tínhamos emendado mil pensamentos em um flash: são-tantas-rosas-na-saída-do-aeroporto e todas-as-casas-são-pintadas-da-mesma-cor e cuidado!, a-moto-vai-bater-no-táxi e olha!, só-tem-uma-entrada-para-a-Medina e será-que-nosso-Riad-é-por-aqui?, parece-uma-favela…  E chegamos.

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Vendinhas no Marrocos

Saímos para jantar logo após o check in no Riad Al Tainam, que fica dentro da Medina, a área fortificada da antiga Marrakesh. Confesso, a primeira saída foi um pouco assustadora. Muita gente, motos, bicicletas e barraquinhas amontoadas em ruas estreitíssimas. Era tanto detalhe para prestar atenção, a carteira (você colocou no bolso de dentro do casaco?), a máquina (serei assaltada se levar esse trambolho na mão?), o trânsito (meu seguro cobre atropelamento por charrete?), a roupa (tenho que cobrir o pescoço, ou serei apedrejada!), que voltamos para o hotel um pouco estressados.

No dia seguinte, caminhamos através de mais gente, barracas, motos e charretes até o souk, o famoso mercado árabe com milhões de lojinhas especializadas em artigos locais, como bolsas em couro, vestidos típicos e doces árabes. Compramos uma caixa de doces variados e fomos nos aventurar na Praça Jeema el Fna, o lugar mais agitado de Marrakesh, apinhado de tendas de especiarias, carroças-restaurantes e muita gente tentando te vender de tudo um pouco: fotos com cobras, galinhas vivas, brinquedinhos para criança e milhares de bugigangas. A sensação é que alguém jogou uma bomba em um formigueiro.

Apesar da lotação, é muito interessante comer em um dos restaurantes da Medina, ou mesmo em uma das barraquinhas que surgem à noite no meio da praça. Afinal, é no meio da multidão que você consegue melhor observar a diversidade marroquina. Senhoras cobertas da cabeça aos pés passeiam ao lado de mulheres maquiadas, homens de jaqueta de couro se fazem notar com a buzina da moto, enquanto outros usam um traje tradicional que lembra uma manta de mago. Aos poucos, relaxando com um pedaço de kebab, ou provando um delicioso prato de couscous, você percebe que apesar da loucura da cidade a única pessoa estressada é você. O medo do desconhecido, o barulho, a multidão afloram todos os sentidos, mas recobrado o olhar viajante, tudo entra em perspectiva. Nossa última noite em Marrakesh com certeza foi mais bem apreciada que a primeira, quando girávamos em torno de nós mesmos e não do lugar que visitávamos. Claro, deve-se ter cuidado com a bolsa e outros pertences, mas nada que difira muito de outros pontos mega turísticos, como Roma e Madrid.

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Praça Jeema el Fna

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Doces árabes

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Tatuagem de hena

Contrastando com essa explosão urbana, nosso passeio pelo interior do país foi bem roots. Por 60 euros por pessoa, passamos dois dias explorando vilas históricas e dormimos em um acampamento nômade no meio do deserto. A viagem por estradas sinuosas entre as montanhas Atlas foi muito interessante. O interior árido é casa de vários marroquinos que constroem suas casas na montanha ou à beira de riachos. As construções, da mesma cor do deserto, fazem com que as portas e janelas coloridas sobressaiam na paisagem, como se o pintor da obra quisesse que você focasse seu olhar ali.

Nossa primeira parada em Âït-benhaddou foi uma visita de outro mundo. Essa cidade-fortaleza, considerada patrimônio da humanidade pela UNESCO, fica entre o deserto do Saara e Marrakesh. Feita inteiramente de barro, a kasbah, nome árabe dado a esse tipo de construção, desaparece um pouco a cada ano, após as chuvas de inverno. No entanto, voluntários da UNESCO tem reconstruído a cidadela, a edificação mais impressionante que já visitei. Âït-benhaddou parece cenário de algum filme épico e, exatamente por isso, já foi usada em mais de 25 obras da telona, entre elas Lawrence da Arabia (1962), Tudo por Uma Esmeralda (1985), Gladiador (2000) e Sex in the City 2 (2010).

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Âït-benhaddou

Do outro lado do rio que separa Âït-benhaddou de construções mais modernas também feitas de barro, há vários restaurantes típicos com pratos variados da deliciosa comida marroquina. Kebab, couscous de vegetais ou de carne, tajines (pratos cozidos lentamente em um recipiente de cerâmica) e sobremesas de amêndoas e mel são algumas das especialidades que eu e Guico mais gostamos. Outra maravilha culinária são os pães, especialmente o msaman, que lembra uma tortilha macia, servido quente durante o café da manhã. Dá para experimentar vários pratos gastando pouco, e depois fazer a digestão tomando um chá árabe com hortelã.

Apesar de a venda de bebidas alcoólicas ser desencorajada no país, os sucos de frutas preparados na hora são deliciosos. Porém, se você busca mais emoção, recomendo esquecer a busca por bebida e fazer um passeio nômade no deserto. Assim que o sol começa a se esconder, é hora de dar adeus para o guia e escolher um camelo (ok, um dromedário) para percorrer 2 horas deserto adentro. Os bichos são super mansos, mas dão a impressão de virem com uma perna mais curta que a outra, porque, meu Deus! Rebolam mais que uma funkeira carioca. Assim que chegamos realmente no deserto, onde a areia é mais fofa, o rebolado diminui, mostrando que estávamos atingindo a marca: mais uns minutos e estaríamos no acampamento.

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camelando

A visão das tendas montadas, iluminadas somente por lampiões no meio das dunas, era espetacular. Depois de um reconhecimento rápido do território (“onde fica o banheiro?”) passamos para a barraca maior, que servia de restaurante. O menu do jantar incluía sopa e pão marroquino, tajine de frango com legumes, chá árabe, tangerinas e muita risada com a galera do tour, cada um de uma parte do mundo. Fazia um frio de rachar, então nos reunimos em volta da fogueira após a ceia, enquanto uma banda de nômades desafinados, mas muito animados, fazia um batuque. Eu e Guico fomos cedo para cama – andar de camelo por 2 horas não é para qualquer um – mas ainda escutamos a música rolando solta por algum tempo.

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Tomando café no acampamento

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Tendas no meio do deserto

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Nossas tendas à noite

Voltamos para Marrakesh animados com a perspectiva de um banho e de uma cama de verdade, mas não trocaríamos a experiência no deserto por nada. Mesmo a dor nas pernas e nas costas – consequência de duas horas de carona animal desengonçada – não nos desanimou. Ainda conseguimos nos despedir do país, e da bagunça eletrizante de Marrakesh, com um kebab de um dos restaurantes típicos da Praça de Jeema el Fna. No fim, guardaremos a energia única de Marrocos para sempre na lembrança, juntamente com esses ensinamentos que se aprende em viagens assim: nunca julgue um livro pela capa.

 

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