Sul da Espanha: adeus Europa!

3…2…1! FELIZ ANO NOVOOOO!!!! Pois é, amigos, quatro meses passaram voando. Eu e o Guico brindamos a virada no ponto mais ao sul da nossa rota europeia, cheio de amigos de todas as partes do mundo e muita bebida. Mesmo assim, passamos o dia 31 meio descrentes de que o ano estava mesmo saindo de cena. Para nós, 2011 será para sempre lembrado como o ano em que começamos nosso grande sonho de percorrer o mundo. Cada segundo tem sido inacreditável. Nos apaixonamos tão rapidamente pela vida de viajante e pelos lugares e pessoas que conhecemos, que talvez tenhamos que repetir a dose algum dia. De qualquer forma, estamos saboreando cada momento desse sonho que fizemos acontecer. Talvez por isso, nos sentimos ainda mais vivos no trajeto pelo sul da Espanha. Acho que visitamos Toledo, Córdoba, Granada e Sevilha com todos os sentidos em alerta máximo.

Toledo foi um dos lugares mais marcantes que visitei no sul da Espanha. Considerada patrimônio da humanidade pela UNESCO, a cidade foi capital do país até 1506 e, devido a seu passado glorioso, ainda conserva um grande número de construções medievais magníficas.

Pausa. Vamos falar a verdade, né? A razão de Toledo ter sido tão especial não tem tanto a ver com arquitetura, mais sim com um simples acontecimento: a chegada do Guico. Depois de quase quatro meses viajando sola, meu namorado finalmente desembarcou na Espanha para adicionar outra voz a essa narrativa.

Curti muito viajar sozinha, mais do que imaginava. A gente fica mais aberta às pessoas e às experiências diferentes, além da liberdade de fazer o que se quer, quando der na telha. Mas depois de quase quatro meses, é muito legal ter alguém para dividir o pensamento, as descobertas e a conta do hostel.

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Eu e Guico em Toledo

Eu e Guico gostamos muito de Toledo, principalmente da cidadela histórica delimitada por muros altos e portais de pedra, como a Puerta de Bisagra e a Puerta del Cristo de la Luz. A influência moura na região é impressionante. Todas as construções do centro antigo utilizam o tijolo branco característico do norte da África, de uma terra que tinha somente o barro do deserto como matéria prima. Foi somente depois de algum tempo no novo território que os mouros começaram a incorporar as pedras europeias ao design típico dos árabes, caracterizado pelas famosas portas e janelas em formato afunilado e pátios internos adornados por fontes e jardins.

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Detalhes lindos da cidade

O mais interessante é que a técnica arquitetônica moura não foi só utilizada na construção de mesquitas, mas também na de sinagogas e igrejas. No século XIII, Toledo era conhecida por sua tolerância religiosa, abrigando grandes comunidades de cristãos, judeus e muçulmanos. Tudo graças ao Rei Afonso X, El Sábio, que decretou a perseguição religiosa como ilegal. A paz entre as diferentes culturas permitiu uma maior troca de conhecimento, tanto entre os religiosos, como entre os engenheiros da época, resultando nos belíssimos edifícios em estilo mudéjar que visitamos, como a Catedral Primada e a Sinagoga del Tránsito.

Outro elemento típico da cidade é o mazapán, um doce feito de amêndoas e açúcar que além de ser uma delícia, vem recheado de história. O folclore toledano diz que essa sobremesa tradicional foi criada por volta de 900 d.C., quando a fome assolava a cidade. Rica em amêndoas, que eram coletadas das terras vizinhas como dízimo, os moradores aproveitaram o ingrediente, misturando-o com açúcar e mel, para criar o doce que salvou boa parte da população. Achei o par perfeito para acompanhar meu cafezinho da tarde.

Adoramos o ar misterioso de Toledo, acentuado pela mistura ibero-islâmica que acompanha toda Andaluzia, a região sul da Espanha. Como nosso plano era descer pelo país, iríamos experimentar mais dessa salada cultural. No entanto, antes de aproveitarmos o restante da viagem, fomos submetidos a uma provação. Pegamos o ônibus de 5 horas para Córdoba com a ilusão de que seria uma boa oportunidade para conhecer a paisagem interiorana e economizar alguns trocados. O barato saiu caro. Ou melhor, fedido. Só conseguimos pregar o olho por poucos minutos, antes que uma mulher – que como resumiu um amigo nosso uruguaio, “fedia mais que a besta” – sentasse atrás da gente. Não acordamos com o barulho, mas sim com o bodum, mais forte que queijo roquefort. A situação não estava bela, e só piorou quando o ar condicionado do ônibus quebrou. Cinco horas de sauna e fedor, ninguém merece.

Chegamos em Córdoba um pouco zonzos, mas fomos logo seduzidos pela cidadezinha de clima ameno, superpopulação de barzinhos e praças banhadas de sol. Como em Toledo, a mistura religiosa do século XIII resultou em passeios legais, o top two ficando com o Museo de La Torre e a Mesquita-Catedral. O museu retrata a era ibero-islâmica de uma forma muito interessante, com maquetes antigas da cidade, artefatos culturais mouros e discursos inusitados de importantes personagens históricos cristãos e árabes. A mesquita, apesar de linda, possui uma história mais conturbada. Originalmente um templo pagão, tornou-se uma igreja visigoda cristã em 600 d.C., antes dos árabes tomarem o local para depois construir sua imponente mesquita. Após a expulsão dos mouros e outros grupos religiosos do território espanhol com o confronto conhecido como a Reconquista de 1492, a mesquita foi transformada em catedral. Para nós, passear em seu interior foi uma cacofonia religiosa. Afrescos católicos convivem com arcos e inscrições árabes, enquanto velas parecem menos presentes que incensos.

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Janelas estilo mudéjar

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Vista do museu da torre

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A Mesquita-Catedral

Para terminar a aula de história, fomos tomar uma cerveja na Plaza de la Corredera. Com várias taparias e abençoada com sol até às 5 da tarde, a praça é o ponto de encontro dos cordobeses. Imitando os locais, pedimos uma tortilla e uma tapa de carne com molho de tomate e ficamos lagarteando até o final da tarde, quando a cidade esvaziou por ser véspera de natal. Guico e eu comemoramos a data com uma ceia improvisada – risoto, lombo ao molho de laranja, salada e vinho – junto aos amigos do hostel. Sentimos muitas saudades da família, é claro, mas foi muito gostoso passarmos esse momento juntos.

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Tortilla na Plaza de la Corredera

No dia 25, pegamos um ônibus (dessa vez livre de gambás) para Granada, mãe de um dos legados mais famosos do período islâmico em Andaluzia, o Alhambra.  Para conhecer a cidadela e palácio árabes é necessário agendamento prévio, especialmente no verão, quando os horários disponíveis se esgotam com mais de um mês de antecedência. O passeio vale cada centavo dos 14 euros do ingresso. Debruçada sobre uma colina, a fortaleza de Alhambra parece guardar a cidade. O interior é ainda mais marcante, afinal não é todo dia que visitamos um castelo árabe, ainda mais dessas dimensões. As portas e janelas dos Palacios de Nazaríes, a ala mais disputada do castelo, são adornadíssimas, recobertas por um minucioso trabalho árabe em alto relevo, com orações, motivos religiosos ou ornamentais, talhados no gesso. Ao redor da cidadela, como em toda Granada, há também várias lojinhas com doces e objetos árabes. Tantas, na verdade, que nos sentimos fazendo turismo no oriente médio.

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O imponente Alhambra

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Dentro do Alhambra

Apesar do Alhambra ser o popstar de Granada, a cidade tem uma lista de opções bacanas. O walking tour histórico por Sacromonte, o bairro árabe, foi engraçadíssimo, um dos melhores que já fiz. O guia, um inglês que falava igual ao King Julien do Madagascar, misturava dados históricos com comédia stand up. O cara era tão bom, que eu e o Guico passamos o resto dos dias na Espanha repetindo suas tiradas. Além desse passeio meio cômico, dá para visitar as casas-cavernas dos ciganos (algumas com dois andares!), assistir shows de dança flamenca e se esbaldar nas taparias tradicionais que servem as tapas de cortesia quando você pede uma bebida no bar. Aliás, essa foi uma das grandes surpresas gastronômicas da cidade, duas taças de vinho, duas cervejas e quatro tapas deliciosas por apenas 10 euros. Yum!

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casa com objetos típicos – walking tour

Depois de quase 10 dias pelo sul da Espanha, deixamos Granada sentindo que a viagem pela Europa estava chegando ao fim. Era hora de nos despedirmos do circuito europeu em grande estilo, com cinco dias de boa vida em Sevilha, a capital ensolarada da Andaluzia. Os monumentos históricos que achamos mais interessantes foram a Plaza da Espagna (a mais bonita do país, já que várias cidades espanholas tem praças com o mesmo nome), a catedral, e a universidade, que também já foi uma fábrica de tabaco. Além do legado histórico, Sevilha é a cidade mais cosmopolita do Sul, com ótima gastronomia e vida noturna, exatamente o que precisávamos antes de descambarmos para África.

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Torre da Catedral Sevilha

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Plaza de Espagna

O prêmio de melhor experiência gastronômica ficou sem dúvida com o menu degustação do Las Escobas. Situado em frente à Catedral de Sevilha, o restaurante data de 1386 quando funcionava como uma taverna e loja de secos e molhados. O local também já serviu de pousada à beira do rio para os milhares de viajantes que passavam por ali, na época em que a cidade fazia parte da rota da Índia. Desde o século XVI, a chamada Idade do Ouro da Espanha, poetas locais, escritores e artistas frequentam o estabelecimento. Dizem que Cervantes escrevia com giz na mesa do bar antes de passar seu trabalho para o papel e que Velázquez chegou a pintar uma moeda enquanto comia para depois usá-la como pagamento pelo jantar.

Um lugar com tanta história e lenda ostenta com orgulho os sinais que atestam sua passagem pelo tempo, como o telhado de mogno talhado à mão, o piso de mármore, ou os artefatos antigos usados como decoração. Localizado em um ambiente privilegiado, o Las Escobas oferece uma cozinha simples e saborosa com base na culinária tradicional andaluza. O menu degustação que provamos inclui os melhores bolinhos de bacalhau com tomate seco que já comi, uma sopa fria de salmão com presunto, um espeto grellhado de carnes variadas típicas e outro de frutos do mar, duas cervejas, uma sobremesa árabe com vinho do porto e tudo, pasmem, por 22 euros por pessoa!

Na mesma rua do Las Escobas também fica o Auditório Alvares Quintero, onde nós assistimos um espetáculo fantástico de Flamenco. Apesar de já termos visto outro show em Granada, esse com certeza foi especial, com um guitarrista que parecia ter 8 dedos em cada mão (o Guico babando na plateia) e um casal de dançarinos profissionais super carismáticos (eu babando do lado dele). Vale muito a pena chegar com meia hora de antecedência, quando o salão abre, para pegar um lugar bem na frente. Afinal, 70% da dança flamenca está no movimento dos pés. Ah! E comprando o ingresso até às 17 horas, você ainda economiza 3 euros por pessoa para depois tomar uma sangria nos bares da região.

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Apresentação de Flamenco

Uma Amostra da Apresentação de Flamengo:

Nos mimamos um bocado em Sevilha, mas consideramos mais um presente de despedida. Afinal, sabe-se lá o que vem por aí no continente africano, né? Seja o que for, estamos extasiados para começar mais uma aventura, a próxima a ser vivida no cenário místico de Marrakesh.

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Sacou?

 

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8 comentários em “Sul da Espanha: adeus Europa!

  1. Irei à Espanha em outubro deste ano, e passarei lá 7 dias. O blog me traz a certeza de que serão insuficientes.

  2. Pingback: Arte de rua e viagem, tudo a ver! | Giros Por Aí

    • Que legal! Tenho muita vontade de morar na Europa por um tempo. Quero voltar à Espanha e fazer a costa também, que eu ainda não conheço!

  3. Após dois dias estamos deixando Granada indo para Sevilha. Ficamos com a sensação de que foi pouco. Fica a vontade de retornar para também conhecer a costa, após as montanhas geladas , afinal são apenas mais 50 km num trajeto bem diferente do que fizemos de Madri até aqui.

  4. Que texto maravilhoso, cheio de detalhes e informaçao!!! Adorei.

    • Que bom que gostou, Maira! Viajar é maravilhoso e poder dividir as histórias e dicas com outros viajantes apaixonados torna a viagem ainda mais especial! bjão

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