Sudeste da França (Lyon, Avignon, Montpellier)

Já ouviu falar de burnout de viajantes? Eu tive um em Lyon. Como assim alguém fica cansada dando a volta ao mundo? Sim, viajar cansa. Não que seja um cansaço ruim, mas tem hora que o corpo reclama. O meu nem se deu o trabalho, só se jogou na cama mesmo.

Eu tinha incluído a terceira cidade mais populosa da França no meu roteiro com um objetivo bem específico, enfiar o pé na jaca da gastronomia do lugar. Afinal, Lyon é considerada a capital gourmet do país, o que não é dizer pouca coisa. O motivo é simples: Paul Bocuse. Desde 1965, o chef du cuisine francês é destaque no guia mais importante e respeitado de hotéis e restaurantes do mundo, o Guia Michelin, com nota máxima: três estrelas. Caso único.

Para ajudar na fama gastronômica, a cidade também recebe eventos de renome, como o Salon International de la Restauration & de l’Hotellerie (SIRHA), o maior encontro internacional de gastronomia e hospitalidade, reunindo os melhores chefs e principais colaboradores do setor numa espécie de congresso mundial de tendências culinárias. Além do SIRHA, o Salon du Chocolat também é realizado em Lyon, aliás, bem nos dias em que eu estaria por lá… Quer dizer, nos dias em que eu tentava estar. Mesmo vendo acomodações com mais de um mês de antecedência, tudo estava lotado. Hotéis cinco estrelas ou galpões com cama, tanto faz, não havia nenhuma vaga do dia 08 ao dia 11 de dezembro. Achei estranho, se tudo isso fosse por causa da invasão de chocólatras, a humanidade estaria realmente com problemas (dizem que alguns viciados usam o chocolate para aliviar a depressão, né?).

Fiz uma pesquisa rápida na internet e descobri o real motivo da superlotação. Além do salão, outro evento ocorre anualmente nessa mesma data, a Festa das Luzes (Fête des Lumières). Dizem que a festa começou no dia 8 de dezembro de 1852, quando uma estátua da Virgem Maria, padroeira da cidade, foi erguida na Basílica de Fourvière. Nessa ocasião, os lyoneses usaram velas para iluminar as janelas de suas casas, em uma homenagem espontânea à Nossa Senhora. 145 anos depois, a prefeitura resolveu oficializar o evento que cresce a cada ano, atraindo turistas de todas as partes da França. Nos últimos doze anos, artistas de luz (arquitetos, iluminadores e grafistas) se juntaram para dar ainda mais esplendor à festa. Colinas, praças, antigas vielas da cidade velha, pontes, pátios, jardins e até as margens dos rios Saône e Rhône tornam-se quadros excepcionais de arte luminosa durante as quatro noites da Fête des Lumières.

Agora eu queria mesmo ficar em Lyon! Arrumei minhas coisas e cheguei à cidade no final do dia 06, para dar tempo de arrumar acomodações para os outros dias. Eu estava exausta. Não tinha dormido muito na noite anterior e ainda andei horas com uma mala de 20 quilos até chegar no hotel. Mesmo assim, estava focada, passei praticamente a noite toda perguntando por vagas em hotéis da região, e depois que ficou tarde, procurando opções online. Infelizmente o esforço não se pagou. Acordei no dia seguinte ainda mais cansada e frustrada. Nem os couchsurfers estavam disponíveis. O jeito era aproveitar a cidade enquanto dava, ou seja, até o próximo dia. O problema é que minha bateria já estava piscando em 10%, mais um pouco e eu desligava. Me forcei a sair da cama e caminhei através da cidade, morro acima, até chegar na Basílica Notre Dame de Fourvière. A basílica é linda, e tem uma vista bacana da cidade, mas eu já não estava curtindo. Minhas pernas, já fatigadas, estavam doendo muito. Estava na hora de arrumar um lugar para comer e descansar.

Parei em um dos muitos restaurantes da Rua Saint Jean, perto da catedral de mesmo nome, e pedi uma combinação típica, lentilhas com linguiça de entrada e uma caçarola de porco com repolho de prato principal. Para acompanhar, é claro, vinho da casa. Porco com vinho em um corpo já exausto? Já viu, né? Cambaleei de volta para o hotel e fui direto pra cama, mal tive tempo de tirar a bota.

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Lentilhas com linguiça: delícia!

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Parte da Catedral Saint Jean

À noite carreguei meu corpo para fora outra vez e consegui assistir uma preview do festival feita com vários bonecos de luz que acendiam ou apagavam para contar uma história. Teve até luta tipo filme Matrix. Comi um lanche na Praça Bellencour e fui dormir até o horário do check out na manhã seguinte. Confesso que saí de Lyon um pouco frustrada, mas fazer o quê? Às vezes a gente tem que se conformar que eventos disputados requerem mais planejamento.

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Preview festival de luzes

Ir para Avignon logo pela manhã foi uma ótima pedida para melhorar meu humor. Diferentemente de Lyon, que continuava debaixo de chuva quando saí, o sol brilhava no interior da Provença. Nada como tirar o casaco pesado e sentir o calorzinho do grande astro em pleno inverno europeu para colocar um sorriso no rosto.

Avignon é conhecida principalmente como antiga residência dos papas católicos, que ali moraram desde a instalação de Clemente V em 1309. No entanto, o novo território da igreja só foi oficializado em 1348, quando Clemente VI adquiriu formalmente a cidade, na época pertencente à Sicília, e consequentemente, à rainha italiana Joanna I. Joanna tinha bons motivos para vender Avignon. Seu pai havia falecido, deixando a sucessão para ela em testamento. No entanto, Príncipe Andrew, seu primo de segundo grau, para quem sua mão havia sido prometida desde os seis anos, tinha grande interesse no trono. Andrew acabou assassinado e a rainha suspeita do crime. Apesar de o envolvimento de Joanna na trama nunca ter sido provado, ter o papa do seu lado ajudaria nos futuros julgamentos. Assim, Avignon virou morada papal oficial até a Revolução Francesa, quando a região foi incorporada à França.

Ao todo, sete papas moraram no Palais des Papes (Palácio dos Papas), uma grande fortaleza gótica erguida no centro da cidade, hoje um museu. O ingresso custa treze euros, incluindo um áudio-guia que ajuda a visualizar a história do palácio, já que os quartos estão vazios e a maioria dos afrescos originais foi destruída em um incêndio ocorrido em 1413. O ticket também inclui uma visita à Ponte Saint-Bénezet, mais conhecida como Ponte de Avignon, construída sobre o rio Rhône entre 1171 e 1185. Apesar de ter somente quatro dos vinte e dois arcos originais, é interessante caminhar sobre a ponte ouvindo a maluca história de sua concepção, que inclui visões de um jovem pastor, Santo Bénezet (meio como Kevin Costner no filme O Campo dos Sonhos, onde uma força divina dizia “construa e eles virão!”)

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Palais des Papes

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Detalhes do Palais des Papes

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Ponte Saint-Bénezet

Muito mais que os monumentos históricos, o mais gostoso de Provence são os detalhes, poder experimentar uma parte do cotidiano de quem mora na região. Já que eu não estava ficando em um hostel, sempre cheio de dicas interessantes do que fazer, perguntei a um couchsurfer da área o que ele achava mais legal em Avignon. Gilles respondeu para eu não deixar de comer no Ginette et Marcel, um pequeno bistrô na Praça des Corps-Saints. “É bom, incomum e barato.” Não poderia ter recebido conselho melhor. A primeira coisa que você nota quando entra no Ginette et Marcel é a decoração retrô. Garrafas antigas como jarras d’água, um baleiro de boas vindas, um fogão à lenha que parece aquecer a sopa (na verdade os potes são elétricos, mas o fogão dá todo um charme). A comida é super simples, focando em sanduíches e vinhos típicos da região, entradas e sobremesas, mas o preparo é feito com devoção. Eu pedi um tartine à la tome de savoie (um sanduíche de presunto, tomates e queijo francês), salada de nozes com mostarda dijon e um vinho para acompanhar. Depois de terminar o prato principal e tomar uma segunda taça de vinho, ainda experimentei a Le Temps des Cerises, um doce com chocolate, biscoito e cereja em conserva que lembra o Pavê Tropical da minha mãe. A cada colherada eu voltava no tempo… Lá estava eu, em pleno natal, ajudando mamãe a compor o pavê, intercalando o biscoito champagne úmido com uma camada de mousse de chocolate e abacaxi em calda picado. Essa é a beleza da comfort food, além do prazer sensorial, ela alimenta uma fome emocional.

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Bistrô Ginette et Marcel

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Dentro do bistrô retrô

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Sanduíche no Bistrô Ginette et Marcel

Le Temps des Cerises, um doce com chocolate, biscoito e cereja

Le Temps des Cerises, um doce com chocolate, biscoito e cereja

Eu estava adorando Avignon, mas na manhã seguinte recebi sinais de que era hora de ir embora. Seis sinais, para ser mais precisa, cinco picadas de bedbugs e o culpado do crime, ainda com meu sangue, na cama do hotel. Levei o inseto morto para o cara da recepção, que não fez nada, além de resmungar algumas palavras em francês (são poucos hotéis fora de Paris onde o povo fala inglês). Pronto, hora de pegar o trem. Acabei decidindo ir para Nîmes porque ficava na direção de Montpellier, meu próximo destino, e porque lá tinha um Youth Hostel estilo fazenda onde eu poderia descansar. Por mais que a moça do albergue insistisse que valia a pena visitar o centrinho, tudo o que eu queria era dormir, assistir programas idiotas na TV e ficar de bobeira. O sudeste da França sem dúvida é lindo, mas as noites mal dormidas em Lyon e Avignon estavam começando a fazer efeito. Era melhor ficar um dia à toa e depois, como Johnnie Walker, keep walking.

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Tenda em uma marché de noel em Montpellier

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Lojas iluminadas em Montpellier

O que pude perceber é que viajar pelo interior da França não é tão fácil quanto em outros países europeus. Apesar de receber tantos visitantes quanto à Itália, são poucas as cidades fora de Paris que tem hostels. E quando tem, geralmente é uma única opção naquele estilo albergue-de-filme-de-terror: feio, longe da cidade, sem comodidades para o viajante e se bedbugs for a coisa mais assustadora que você encontrar por lá, tá no lucro. O jeito é ficar em pousadinhas ou hotéis baratinhos, o que à primeira vista pode parecer excelente, já que você não divide o quarto ou banheiro com ninguém. O problema é que para viajantes solos esta nunca é a melhor opção, a não ser que você esteja em uma viagem espiritual, daquelas com votos de silêncio.

A outra dificuldade é que a SCNF tem monopólio da malha ferroviária do país, resultando em um aumento médio de 225% nas passagens em relação à Itália. O trem de Roma para Nápoles, uma distância de 226 km, custa 20 euros, enquanto o trem de Paris para Tours (207 km) custa 45 euros. Somando o aumento do custo da passagem, mais o aumento dos hotéis (hostels também são sempre mais baratos), sobra menos dindin para os passeios realmente bacanas. Então, aqui vai mais um conselho para quem quiser se aventurar pelas cidades francesas: traga um amigo e pense em alugar um carro.

Mesmo com menos dinheiro e fazendo voto de silêncio, queria que minha última parada na França refletisse o clima gostoso do interior do país. Montpellier, uma pequena cidade apenas algumas horas da Espanha, seria o destino perfeito para aproveitar as típicas marchés de Noel, a soberba gastronomia e passear entre os prédios históricos uma última vez. Foram dois dias tranquilos, aproveitando os prazeres simples da vida, um bom vinho, um bom café e uma ótima comida. Mas agora deu de retiro espiritual, né? Hora de deixar os franceses e agitar as coisas na Espanha!

 

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