Vale do Loire e Bordeaux, terras mágicas francesas

Muita gente não gosta da época de natal. Uns dizem que a data é extremamente comercial, outros ficam muito melancólicos com a chegada do final do ano. Eu não sou uma dessas pessoas. Eu ADORO o natal. Acho muito gostoso comprar lembranças, ou só mandar um alô para quem eu gosto. Não faço isso só no natal, mas acho a data outra boa oportunidade para dizer, “ei, você é importante na minha vida.” E a decoração! Eu babo por luzinhas de natal, para mim elas iluminam a parte da nossa alma que continua criança. Bom, cada um confere o significado que quer a essas coisas e esse é o meu. Mas acho que na França o sentido é mais ou menos o mesmo, ou assim me pareceu, principalmente quando saí de Paris em direção ao sudoeste do país.

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Marchés de Noel – as deliciosas feirinhas de natal

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Orgão de sopro antigo na feirinha de natal

Minha primeira parada foi Tours, uma cidade de 142 mil habitantes, a maior do Vale do Loire. Apesar de ficar a somente 240 km de Paris, Tours é outro mundo. A antiga cidade cresceu perto de dois povoados antigos: do lugar de peregrinação ao redor da tumba do bispo S. Martin do século IV em Vieux Tours, e do povoado romano do bairro da catedral. Os dois povoados estão conectados por uma estrada romana, hoje chamada Rues du Commerce e Colbert.

O legal é que o centro histórico de Tours conseguiu sobreviver aos bombardeios dos tempos de guerra, fazendo com que a cidade mantivesse um look cinematográfico, repleto de casas medievais de estrutura de madeira e torres de pedra. Porém, mesmo com as fachadas históricas, Tours tem um espírito jovem, com muitos estudantes zanzando pelas ruas e pela feirinha de natal, lojas modernas e barzinhos que ficam lotados durante o happy hour.

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Centro histórico de Tours

Também conhecida como Jardim da França, a cidade faz valer o apelido, espelhando a beleza de seus jardins e dos châteaux do Vale do Loire, sempre coroados com flores e áreas verdes. Como estava louca para ver de perto a região, reservei um passeio de um dia que passava por quatro desses pequenos castelos, o Château de Chenonceau, o Château Royal (na verdade em Amboise), Chenervy e Chambord, cada um com uma história interessantíssima.

Me apaixonei por Chenonceau assim que o guia começou a contar sua história, que envolve Catarina de Médici, a rainha italiana que influenciou a cozinha francesa. O rei da França, Henri II, presenteou o château para sua amante Diana Poitiers, conhecida na época como “a favorita.” O rei na verdade nunca se interessou pela esposa, sendo fiel ao seu romance com Diana, 20 anos mais velha. Não é preciso dizer que Catarina não gostou nadinha dessa prova indiscreta de amor. Em 1559, veio a oportunidade de revanche. Nesse ano, Henri morre em combate e Catarina, agora no poder da França, retoma as jóias da coroa oferecidas à Diana e a expulsa da propriedade. Em troca, a rainha repassa à ex-amante do rei o Château Chaumont sur Loire, uma bonita edificação, mas que acreditava-se ser mal assombrada na época. (Para alguém que não tenha lido o texto sobre Florença, fica a moral da história: nunca importune um Médici).

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Torre dos Marques no Chenonceau

O interessante é que apesar de Catarina ter reformado Chenonceau à altura da corte, incluindo uma nova galeria para bailes (construído por cima da ponte que ligava o château ao jardim de Diana), o teto do quarto principal, que pertenceu a Henri II, ainda carrega as iniciais do rei e da rainha, o H e o C, que quando entrelaçados formam o D de Diana. Realmente não há como se apagar de todo o passado.

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Iniciais com duplo sentido

Saindo de Chenonceau, passamos por Amboise para visitar o Château Royal, que pertenceu a vários reis, incluindo François I, considerado patrono da renascença. Em dezembro de 1515, Leonardo da Vinci se hospedou na propriedade como convidado de François e lá foi convencido a se instalar na cidade, após o rei presenteá-lo com o castelo Clos Lucé. Leonardo, então com 64 anos, muda-se para Amboise levando consigo três quadros, Mona Lisa, Sant’ana e São João Batista, além do seu companheiro de vida, Francesco Melzi, a quem deixou toda a sua obra. Acaba morrendo na cidade, já cidadão francês, como “primeiro pintor, engenheiro e arquiteto do rei da França e mecânico do Estado Francês,” depois de ser desprezado na Itália, seu país de origem. Corre a história que a morada de Leonardo era conectada ao Château Royal por uma passagem subterrânea para facilitar encontros românticos entre o artista e o rei, mas os guias afirmam que isso é somente fantasia popular. Depois do reinado de François I, Henri II e Catarina de Médici também viveram no castelo com seus filhos.

A cidade de Amboise é muito bonitinha, e além dos dois castelos, possui várias casas interessantes construídas na rocha ao longo da estrada estreita que leva ao Clos Lucé. De fora, o que se vê são apenas portas e janelas, algumas antenas de televisão e chaminés. O vai e vem de moradores, porém, indica que viver ali não é tão estranho quanto parece. As casas chamadas “trogloditas” são muito comuns nessa região. Eram antigas cavernas oriundas das escavações de turfa, uma rocha calcária maleável usada na construção dos castelos e mansões das redondezas. Após anos de serviço, essas cavernas eram repassadas aos escavadores como pagamento pelo trabalho de extração, corte e transporte das pedras. Definitivamente, uma morada diferente.

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Reparem na fachada! É a única parte da casa para fora do morro!

Depois de meia horinha de van, chegamos aos arredores da cidade de Blois para conhecer mais um château, o Chenervy, que pertence há mais de seis séculos à família Hurault, uma família de financistas e oficiais que se destacaram a serviço de vários reis da França. Durante esse período, no entanto, o château escapou duas vezes das mãos da família: uma primeira vez no século XVI, quando Diane de Poitiers o adquiriu para supervisionar as obras em Chaumont sur Loire (o tal castelo amaldiçoado que Catarina de Médici lhe arrumou) e uma segunda vez no século XVIII, quando os herdeiros da época se desinteressaram da herança. Cheverny passou então pelas mãos de vários proprietários até 1825, quando Anne-Victor Hurault, Marquês de Vibraye, adquiriu novamente o castelo de seus ancestrais.

Além da história envolvendo o château, Cheverny também é conhecida pela caça de veneria (caça a cavalo com auxílio de cães). O canil do castelo abriga uma centena de cães franceses tricolores com o V de Vibraye marcado à tesoura do lado direito da barriga de cada cão. Apesar do canil ser regulamentado pelo código do meio ambiente, do código rural e do código da saúde pública, dá agonia ver tantos cachorros apinhados, principalmente na hora da alimentação, quando os cães se atropelam para comer a ração disposta em uma linha no chão.

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Agonia em ver tantos cachorros juntos

Após a visita à Cheverny, seguimos em direção ao famoso castelo Chambord, idealizado como um retiro de caça pelo rei François I. Chambord impressiona pela arquitetura dos exageros, são 156 metros de comprimento, 56 metros de altura, 77 escadas, 282 chaminés e 426 cômodos. A silhueta do castelo lembra uma fortaleza medieval (um torreão central com quatro grandes torres, duas alas e uma muralha), porém construído em estilo renascentista italiano. Apesar da fachada seduzir os visitantes, o interior do castelo é meio pobre. Somente 60 quartos estão abertos para visitação e deles só 15 abrigam mobília ou quadros. O château é gelado por dentro e lembra mais um galpão vazio do que um castelo glorioso.  De todas propriedades visitadas, essa, com certeza, foi a mais decepcionante. Sem dúvida vale uma passagem por lá para admirar a estrutura exterior do castelo, mas eu teria me divertido mais fazendo um picnic em seus jardins do que passando frio dentro de quartos vazios.

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Loja chocolates em Amboise

Como eu estava sem carro, a maneira mais prática de andar pelo Vale do Loire, acabei reservando o passeio pelos castelos no escritório de turismo de Tours. Por 48 euros (não incluindo os ingressos dos châteaux, que variam de 6,50 a 8,70 euros), você viaja com um guia em uma van, maximizando os castelos visitados em um dia. Para mim, foi mais que suficiente, mas alguém mais aficionado pode facilmente passar uma semana percorrendo as propriedades da região, que são inúmeras. Eu, na verdade, estava mais interessada em seguir viagem para conhecer um outro tipo de château, as vinícolas da região de Bordeaux (muitas vinícolas adotaram o nome château mesmo não possuindo um castelo devido a associação feita entre os vinhos de Bordeaux e os castelos que serviam de sede para as grandes casas produtoras).

Considerada capital mundial da indústria de vinho, Bordeaux também consta como maior site urbano na lista de Patrimônio da Humanidade da UNESCO. Com um grande boulevard para pedestres, é muito fácil caminhar entre os belíssimos prédios neoclássicos e góticos que enfeitam a cidade conhecida entre os franceses por La Belle Au Bois Dormant (a bela adormecida). Além de apreciar a arquitetura magnífica, outro passeio bacana e barato é visitar os museus, que em Bordeaux tem entrada liberada para as coleções permanentes, uma boa opção depois de um dia inteiro visitando às vinícolas, passeio obrigatório para amantes de vinho como eu.

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Ponte Pierre – Bordeaux

Bordeaux é a segunda maior área de cultivo de vinhos do mundo, com 284.320 acres de vinhedos e treze mil viticultores. Apenas a região do Languedoc, também na França, com 617.750 acres de vinhedos plantados, é maior. A produção anual é de mais de 700 milhões de garrafas, incluindo vinhos de mesa para o dia-a-dia, bem como os mais prestigiados da indústria.

A região vitivinícola é dividida em sub-regiões, entre elas Saint Émilion, Pomerol, Médoc e Graves. Como seria impossível visitar todas no tempo em que estaria por lá, decidi fazer um tour com degustação por Médoc, que tem quatro dos cinco châteaux considerados tintos Premier Cru, os vinhos mais aclamados e caros que existem.

O meu tour passou por duas vinícolas excelentes, o Château Gruaud Larose e o Château Reverdi, onde eu pude tomar ótimos vinhos, com destaque para o complexo Sarget de Gruaud-Larose (St Julien) 2001. Depois de tanta bebeção e no food, terminei o dia na marché de Noel perto do hotel para jantar crepes típicos.

Curti muito os passeios pelos châteaux do Vale do Loire e de Bordeaux. Além dos tours, também adorei passear pelas duas cidades, repletas de enfeites de natal, prédios antigos e feirinhas natalinas que dão aquele sabor especial de final de ano à viagem. São lugares que recomendo para todo mundo, principalmente para os que viajam em casal ou com a família. E agora hora de arrumar a mala e voltar para Paris!

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Portal Cailhau iluminado – Bordeaux

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Praça de la Bourse

 

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3 comentários em “Vale do Loire e Bordeaux, terras mágicas francesas

  1. Gostaria de saber se essa sua viagem pelo sudoeste francês foi feito c agencia ou por conta propria. Obrigada

    • Oi, Patricia! Então, fiz tudo por conta própria. Agendei os tickets de trem a partir de Paris nesse site http://en.voyages-sncf.com/en/ . Chegando em Tours (mais ou menos 1hora e 10 min de viagem se pegar o trem rápido, com outros trens demora um pouco mais), fui direto no escritório de turismo na praça central e agendei o passeio pelos castelos do Vale do Loire (custou 48 euros em 2011 não incluindo os ingressos dos châteaux, que variam de 6,50 a 8,70 euros). Para esse passeio você viaja com um guia em uma van, maximizando os castelos visitados em um dia (para mim um dia foi suficiente, mas você pode agendar para mais de um).

      De lá, fui novamente de trem até Bordeaux. Mais uma vez fui no escritório de turismo e agendei o tour de vinhos. Há várias opções diferentes, com diversos preços.

      Para estadia, agendei todas as hospedagens no booking: http://www.booking.com/index.pt-br.html?aid=800865

      Espero que tenha ajudado! 🙂

      beijos!

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