Sul da Itália (Nápoles, Sorrento, Capri, Catânia)

Quando eu estava planejando minha viagem de volta ao mundo, algumas pessoas me disseram para não perder tempo com a região sul da Itália. Ainda bem que sou curiosa suficiente para ser do contra. É verdade, viajar para o sul do país é quase como viajar para fora dele. As mudanças em relação ao norte já são perceptíveis em Roma, mas ficam realmente gritantes poucas horas abaixo da capital.

Como disse Rick Steves, um autor de guias de viagem, “se você gosta da Itália até Roma, vá ainda mais para sul. Fica ainda melhor. Se você desceu até Roma e a Itália já está te dando nos nervos, pense duas vezes em seguir adiante. A Itália se intensifica à medida que mergulhamos mais fundo.” 

Tudo realmente fica mais denso. O clima fica mais quente, as pessoas mais amigáveis, os batedores de carteira mais numerosos, as pizzas mais saborosas, o lixo mais abundante, os homens mais insistentes e o italiano mais difícil de entender. Ou seja, é quase como estar em um país da América Latina.

Nápoles, minha primeira parada na rota sul, foi um choque à primeira vista. Muita pichação, muita gente sem ocupação sentada nas praças no meio do dia, lixo por tudo quanto é canto e uma grande preocupação dos funcionários do hostel com o futuro da minha bolsa toda vez que eu saía para explorar a cidade. Porém, talvez exatamente por ser tão caótica, Nápoles me pareceu mais autêntica. Não, eu não adoro cidades esculhambadas. É que ao escapar do roteiro da maioria dos turistas, acaba sendo mais fácil espiar a vida real dos italianos, frequentar os mesmos restaurantes, conversar com gente local, visitar o Duomo durante uma missa noturna e ficar craque no esporte radical da cidade: atravessar a rua.

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Duomo – Nápoles

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Teto Duomo

É certo, os menus não virão traduzidos em cinco línguas, mas eu acho muito mais divertido tentar aprender italiano, mesmo se tiver que abrir o meu mini dicionário quinze vezes no meio do jantar. Aliás, foi assim que eu consegui dicas bacanas de restaurantes, porque os napolitanos simplesmente apreciavam o esforço. Foi por causa da conversa com um deles, por exemplo, que eu consegui jantar no Gino Sorbillo, um dos restaurantes mais tradicionais da cidade onde a pizza marguerita é a estrela da noite. Geralmente o Gino fica lotado assim que abre, com esperas de uma hora às 8 da noite. Mas, como o dono do café da esquina conhecia o dono… Lá fui eu, me entupir de pizza com duas americanas do hostel.

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A famosa pizza Marguerita

Até o taxista que me buscou na estação de trem se empolgou com a minha viagem e com meu italianhol e me deu um passe para um dos museus que eu visitei no dia seguinte, o Castel Nuovo. O castelo, construído em 1291 para abrigar a corte do Reino de Nápoles, fica à beira mar perto de outros monumentos históricos como o Castel dell’Ovo, que tem uma vista panorâmica linda da cidade. Foi um passeio perfeito para o sábado de sol.

A hospitalidade dos napolitanos é impressionante e me acompanhou até a saída da cidade. No dia em que eu ia embora, perguntei para o funcionário de um dos hotéis como fazia para pegar o metrô para a estação de trem. Apesar do ponto estar na minha frente e da estação ficar a uma parada dali, o napolitano encasquetou que eu seria assaltada se fosse para a estação de trem carregando três bolsas. O carinha não sossegou enquanto não me deu uma carona de motoca. Imagina a cena, eu, mais uma mala de 23 quilos apoiada na coxa, uma mochila nas costas e uma bolsa na mão, na carona de uma vespa de um italiano que não parava de falar. Chegamos super rápido, mas eu jurava que a polícia iria parar nosso transporte estilo asiático e que eu perderia meu trem para Sorrento, meu próximo destino. No final tudo deu certo, cheguei viva e no horário, graças ao bom samaritano que foi embora repetindo para eu manter a mochila no colo, e não nas costas.

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Praça Plebiscito – Nápoles

Sorrento é a princesa da região, uma cidadezinha costeira que parece existir só para provar o quanto o sul da Itália pode ser lindo. Localizada em cima de falésias que dão para a baía de Nápoles e polvilhada de limoeiros e oliveiras, a cidade tem doutorando em vistas espetaculares. Outra vantagem, o dinheiro aqui vale muito, como em quase todo sul (água em Veneza = 2 euros, água por aqui = 0,20 euros) e talvez não haja lugar melhor para gastá-lo do que na rua central da cidade, cheia de lojas de marca e de restaurantes charmosos onde você pode sentar no final da tarde e pedir um limoncello, a bebida local que para mim tem gosto de desinfetante de banheiro com muito álcool (Ei, gosto é gosto, né?).

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Vista porto Sorrento

Se o dinheiro estiver realmente sobrando, vale a pena reservá-lo para Capri, um dos destinos mais famosos no verão. Só não se deixe empolgar pelos preços de Nápoles e Sorrento, Capri é uma ilha chique, ou seja, extremamente cara. Uma diária para duas pessoas no centro da cidade chega a custar mais de 1500 euros. Mesmo assim, vale a pena pegar o speedboat que sai de meia em meia hora de Sorrento e passar o dia lá. Com apenas alguns trocados, dá para tomar um ótimo café com bolo, caminhar entre as ruelas que lembram a Grécia e tirar várias fotos da deslumbrante costa napolitana.

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Capri

Sorrento acabou sendo uma ótima base para visitar outros lugares da região sul. Se pudesse refazer o itinerário, não teria ficado em Nápoles, somente passaria um dia por lá. Também dá para incluir Pompeia, o Vesúvio e Capri na mesma rota, partindo sempre da cidadezinha, que tem uma farta lista de hotéis com bom custo benefício, como o Seven Hostel, o hostel mais elegante que já fiquei.

Seguindo o plano de conhecer o país de ponta a ponta, continuei descendo em direção à Sicília. Dessa vez a saída foi um pouco mais complicada, envolvendo um trem de uma hora de volta à Nápoles e outro de 7 horas até Catânia. Eu poderia ter feito o percurso com uma companhia aérea lowcost, não sairia muito mais caro que o bilhete de trem, mas eu perderia o trajeto pela costa da Itália, cheio de presentes inesperados, como a parada em Paola. O sol se punha nessa cidadezinha à beira mar exatamente enquanto passávamos, deixando reflexos alaranjados na água pintada de prata líquida. Até os italianos ficaram boquiabertos.

Apesar de termos chegado tarde em Catânia, eu e o Cláudio, um amigo que fiz em Nápoles, tínhamos um plano audacioso para a manhã do dia seguinte: subir o Monte Etna, o vulcão ativo considerado o mais alto da Europa e um dos mais altos do mundo. Foi debaixo dessa imponente montanha, inclusive, que Zeus prendeu o terrível monstro Tifão na mitologia grega. Algo parecia estar mesmo expelindo sua raiva no Monte Etna.

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Praça Catânia

Para chegar ao topo, pegamos um ônibus até a base (1923 metros de altitude), um teleférico até 2500 metros e por último uma van até a parte visitável da primeira cratera, a 2920 metros acima do mar. Dá para fazer o trajeto do teleférico andando, o que leva umas duas horas no terreno instável feito de dejetos do vulcão. Como estava muito frio (lá em cima a temperatura cai para 2 a 4 graus Celsius), resolvemos fazer o percurso do jeito mais cômodo e descer a pé só quando o sol estivesse mais forte. Foi nossa sorte. Como chegamos mais cedo, pudemos presenciar o nervosismo da montanha, que nesse dia apresentava atividades vulcânicas incomuns. É uma sensação indescritível ver tamanha força da natureza. Etna cuspia fogo, fumaça e lava por uma abertura lateral do lado direito. Seu poder ia crescendo visivelmente enquanto disputávamos o melhor lugar para as fotos com os jornalistas. Fomos os primeiros e últimos turistas permitidos no topo naquele dia. Saímos em tempo de ver a lava escorrendo pela montanha e a fumaça engordar e se confundir com as nuvens no céu. Realmente um espetáculo sem igual.

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Lava descendo

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Monte Etna em erupção

Depois do passeio no vulcão, nenhuma outra experiência na Sicília poderia ser tão intensa, né? Ainda mais debaixo da chuva que chegou no dia seguinte. Mesmo assim, consegui dar uma passadinha rápida no Parque Arqueológico em Siracusa (bem sem graça e sem explicações, na verdade), provar pratos de frutos do mar típicos na Trattoria il Mare e ficar de bobeira pelas ruas largas de Catânia, que vibram com o movimento das pessoas zanzando entre as lojas tentadoras e inúmeros cafés até tarde da noite.

Com tanta energia e espírito jovem, me senti muito à vontade em Catânia, como se estivesse em casa. O agito, as pessoas, a comida, foi tudo uma delícia, a não ser pela sensação de pré-saudade da Itália que se instalou assim que comecei a refazer a mala e pensar no meu próximo e último destino no país: Milão, a maior metrópole da Itália.

 

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5 comentários em “Sul da Itália (Nápoles, Sorrento, Capri, Catânia)

  1. Pingback: Minhas 5 maiores aventuras ao redor do mundo | Giros Por Aí

  2. Oi querida tudo bom?
    Espero que sim!!
    Eu e minha família faremos uma viagem parecida com a de vocês. Porém queria uma ajuda sua muito importante! Sairemos de Sorrento em direção à Sicília. Porém não estaremos de carro e gostaria de fazer o mesmo percurso que o de vocês: voltar para Napoli e de lá ir para Catânia. Você pode me explicar passo a passo de como isso foi feito? Onde compraram? Como compraram? Quanto custou? Onde fica em Napoli? Qual o horário etc..
    Parabéns pelo texto!
    Estou no aguardo,
    Um abs.

    • Oi, Amanda, tudo bem?
      Comprei o ticket de trem de Sorrento até Catania na estação de trem central de Catania logo que cheguei. Fiz isso para conversar no guichê e ver quais os melhores horários, pois na época eu não sabia dos sites online (é bom fazer com alguns dias de antecedência do dia da partida, para pegar preços melhores e se programar).
      Você também pode fazer uma simulação de horários e preços nos sites de trem da Itália/Europa. Lembrando que os preços ficam mais altos quanto mais perto do dia que você pretende viajar.
      Esse é o site da ferroviária local, vc pode simular o trajeto de Sorrento a Napoli e depois de Napoli a Catania e ver quais horários se encaixam. Há outros trens que fazem o trajeto Napoli-Catania, porém somente a ferrovia local faz o percurso entre Sorrento e Napoli: http://www.fsitaliane.it/cms/v/index.jsp?vgnextoid=ad1ce14114bc9110VgnVCM10000080a3e90aRCRD
      Para checar os preços e horários dos outros trens que fazem Napoli-Catania, dá para checar o http://www.raileurope.com e o http://www.railsaver.com. O raileurope às vezes tem trajetos mais rápidos (porém mais caros). O Railsaver é legal pois analisa preços mais em conta, desde que você agende com antecedência (você põe o seu itinerário inteiro – tirando a parte sorrento a Napoli, que é ferroviária local – e ele te dá o ticket disponível mais barato).
      Espero ter ajudado! Depois conte como foi!!! 🙂
      bjão!

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