Abusando da sorte em Roma

Por mais sorte que você tenha, uma hora as coisas simplesmente desandam, ainda mais em uma viagem longa. Essa hora para mim coincidiu com a chegada à Roma. No começo foi só um incômodo: depois de mais de dois meses de tempo bom não consegui fugir dos dias de chuva na cidade. Como eu queria ver os monumentos com sol, o que só acontecia de manhã, acabei levando mais tempo para visitar alguns lugares como a Fontana di Trevi, o Coliseu e a Escadaria Espanhola. Mas tudo bem, nada de errado em descansar no hostel à tarde.

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Os labirintos do Coliseu

O incômodo passou para uma leve irritação quando fui visitar o Vaticano. Segui a dica de outros viajantes e comprei meu ingresso online para evitar a fila quilométrica na entrada. Funcionou, por apenas 4 euros a mais, consegui evitar a multidão do lado de fora. Só que o maior problema estava do lado de dentro. Mesmo às 9 da manhã, o museu do Vaticano e a Capela Sistina estão sempre entupidos de pessoas. Nunca vi tanta gente junta em nenhum outro ponto turístico que estive. A visitação fica ainda mais difícil porque não há um limite de número de tours permitidos por hora, nem do número de pessoas permitidas em cada tour. Ou seja, uma pessoa sozinha dentro do museu corre o mesmo risco de vida que Mufasa no meio da manada de búfalos no Rei Leão. Not good.

Enquanto eu tentava apreciar os belos afrescos de Michelangelo, ou tirar fotos do minucioso trabalho no teto que antecede a Capela Sistina, uma manada de chineses passou por mim. Eu desviei, mas não rápido suficiente. Resultado, um deles me acertou na cabeça com a máquina fotográfica (o cara carregava a máquina engatada no tripé). O trambolho era tão grande que lembrava uma perfuratriz de petróleo e tive sorte de sair do episódio só com um pequeno machucado ensanguentado.

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Trabalho no teto do Vaticano

Apesar da beleza e história por trás de tanta arte, é muito difícil contemplar o que se vê da maneira certa. Eu não sou religiosa, mas consigo entender que a Capela Sistina é um lugar de culto. Além do mais, com tantos trabalhos maravilhosos espalhados pelas paredes, até os agnósticos se sentem em um lugar divino… Ou se sentiriam, não fosse a barulheira das pessoas que não respeitam o aviso de silêncio e dos guardas que gritam para a multidão: “Silenziooooo!!!! Shiiiiiii! No fotooooooo!”

Devo admitir que saí de lá frustrada. À noite, enquanto bebíamos um vinho e ríamos das nossas histórias de viagem, um dos meus amigos do hostel contou de um passeio alternativo POR BAIXO do Vaticano, a chamada visita à Necropolis. Resumidamente, é uma visita guiada pelas ruínas do que existia antes da construção do atual Vaticano e da Basílica de São Pedro. A maioria dos guias não conta, mas existe toda uma cidade em baixo da oficial, o que é difícil de imaginar quando estamos no meio da praça central do Vaticano com milhares de visitantes. O passeio depende de disponibilidade (são 200 lugares por dia) e tem que ser agendado pela própria pessoa no local ou por e-mail, já que não se admitem agentes de viagens. A visitação, que não tem custo, é organizada por guias do escritório de escavações do Vaticano, na língua escolhida pelo indivíduo e em grupos de no máximo 12 pessoas. Outra experiência, né? Pena que não havia mais vagas para o período que eu estaria em Roma.

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Praça S. Pietro

Outra opção legal para quem pensa em visitar a cidade é agendar uma aula gourmet. Vários restaurantes e chefes dão cursos de um a três dias em como preparar massas e pizzas. Alguns tem inclusive temas mais criativos, como o que imita a experiência gastronômica da protagonista de “Comer, Rezar e Amar.” Chelsey, uma guria americana que tem viajado comigo desde Florença, fez uma aula de meio dia, com direito a compras na feirinha do bairro judeu e preparação de três tipos de massa, uma coxa de frango recheada e tiramissu de sobremesa. Pelo sorriso roxo estampado pós comilança e bebeção de vinho, posso dizer que a aula deve ter sido boa.

No meu último dia em Roma, a leve irritação passou para o nível DEFCON 5 de raiva. Eu havia feito reserva para um passeio subterrâneo nos sites arqueológicos escondidos em baixo de pontos turísticos famosos, como a Fontana di Trevi. Porém, uns brasileiros sem noção estragaram o meu plano. Às quatro da manhã, uma brasileira bêbada voltou para o nosso quarto de três camas trazendo uma quarta pessoa, um cara que ela tinha acabado de conhecer em um bar. Os dois tiraram a roupa e começaram suas atividades, batendo em todos os móveis do quarto. Resumindo a história: tive que incorporar a pomba gira de madrugada. Fiquei sem dormir o resto da noite esperando o dono do hostel chegar, e não pude sair no começo da manhã, esperando a *censurado por conteúdo inapropriado* ir embora. Afinal, quem tem esse espírito de coletividade (para dizer o mínimo) pode muito bem quebrar minha mala ou roubar algo na saída. Passei o dia sentindo um misto intenso de vergonha e raiva, mais pela atitude “eu posso fazer qualquer coisa e ninguém me pega” (a menina dizia, “eu pago uma diária para você e não dá nada,” enquanto o recepcionista falava que ia chamar a polícia e o carinha, também brasileiro, ria) do que por ter perdido o sono e o passeio.

Para recuperar minhas últimas horas na cidade, eu, Chelsey e um grupo de amigos do hostel fomos aproveitar uma das coisas que a Itália tem de melhor: vinho. Demos uma passada em um lugar com música ao vivo e depois fomos para o Friends, um bar perto do hostel. Acabamos tirando a sorte grande! Era aniversário do bartender e ganhamos vários drinques de graça. Eu não poderia ter terminado minha estadia em Roma de uma maneira melhor. Friends realmente fazem toda a diferença.

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Novas amigas!

 

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2 comentários em “Abusando da sorte em Roma

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