Toscana, Itália: conhecendo Florença, Pisa e Siena

Às vezes é difícil explicar porque um lugar mexe com a gente. Muitas vezes o sentimento que temos por uma cidade ou país tem a ver com coisas mais subjetivas do que monumentos históricos. Geralmente nossas lembranças vêm emboladas com as pessoas que conhecemos na viagem, com um cheiro de uma comida especial, com um dia de sol espetacular. Eu nunca consegui explicar o porquê do meu fascínio pela Itália, principalmente pela região da Toscana. Ok, eu assisti o filme Under the Tuscan Sun algumas milhões de vezes, mas ainda achava que deveria ter outra razão. Então eu fui fazer uma degustação de vinho no Castello Del Trebbio e tudo ficou claro.

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Interior Toscana: Chianti

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Castelo del Trebbio: produtor de vinho

Mas eu estou me adiantando. Dois dias antes do passeio pela região de Chianti eu cheguei à Florença. Meu hostel, o maravilhoso Academy Hostel, estava fechado para a limpeza diária, então deixei minhas malas e fui caminhar pela cidade. Florença é a cidade natal de Dante Alighieri, Machiavelli, Michelangelo, Leonardo Da Vinci e da família Medici, possuindo uma riqueza artística, arquitetônica e histórica avassaladora. Andando pela ponte e pelo Palácio Vecchio, pela Piazza Duomo, pelos mosaicos e obras de arte, você se sente transportado no tempo, como se pudesse presenciar a vida na cidade renascentista antiga.

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Duomo, Florença

As várias artes ainda são muito importantes para os moradores, que têm orgulho tanto das galerias modernas como da Galleria dell’Accademia, construída especialmente para abrigar David, a perfeita estátua de Michelangelo. Para melhor absorver tanta história, é legal fazer um walking tour pela cidade e depois escolher os pontos preferidos para uma visitação mais cuidadosa. Eu, por exemplo, passei tempo demais olhando para David, apreciando as linhas perfeitas susurradas no mármore.

O sentido de beleza e design dos florentinos é evidente em todas facetas do cotidiano, na arquitetura dos belos cafés, na apresentação de doces e chocolates típicos e é óbvio, na moda. Afinal, Florença também é a terra da marca Gucci, criada por Guccio Gucci em 1921. Originalmente apenas uma loja de sapatos e artigos de couro (como existem às pencas pela cidade), a marca ficou realmente famosa em 1953, quando Gucci decidiu abrir lojas em Nova York para melhor atender as estrelas de Hollywood. O italiano sabia o que estava fazendo, criando uma das grandes marcas de luxo da atualidade. Dica para os fashionistas, ainda é possível visitar a primeira loja da empresa (hoje majestosamente reformada, é claro), bem como o Gucci Museo dentro do Palazzo della Mercanzia e ainda zerar sua conta bancária no outlet da marca.

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Docerias fantásticas e lindas

Como eu sou uma viajante comedida (tradução: sem dinheiro), resolvi passar longe das lojas famosas e ficar só caminhando pelas ruazinhas antigas. Porém, depois de dois dias criando bolhas no pé e tomando gelato, achei que era hora de fazer algo diferente, como um tour para degustar os vinhos da região de Chianti. Pronto, voltamos ao início. Na verdade, meu plano inicial era fazer uma trilha por Cinque Terre que incluía um almoço em uma vinícola, mas o passeio havia sido cancelado por causa da enchente que afetou várias cidades da região.

O ônibus do meu novo tour saiu às 14 horas de Florença em direção à Santa Brígida na Toscana. A paisagem pitoresca ao longo do trajeto ficava cada vez mais colorida, com as folhas das árvores mudando de cor por causa do outono. Paramos rapidamente na igreja de Santa Brígida e seguimos viagem para o Castello Del Trebbio.  E é a história desse castelo que melhor resume o meu amor pela Toscana.

Em 1184, o castelo foi construído como uma opção de casa de férias pela família Pazzi, a segunda família mais poderosa da Florença antiga. Os Pazzis eram banqueiros e apesar de muito ricos, tinham um imenso complexo em ocupar o segundo lugar na escala do poder (eles não assistiram os comerciais da Pepsi onde ser a segunda opção pode ser bom). O foco do mau-olhado da família eram os Medicis, uma família também de banqueiros que detinha o poder da República de Florença desde o final do século XIV. Para conquistar a medalha de ouro dos poderosos, a família Pazzi arquitetou uma grande conspiração para matar os dois irmãos Medici, Lorenzo e Giuliano, chefes da família na época. Outros devedores da família Medici que gostariam de ver seu débito pessoal apagado (assim como vários americanos hoje em dia) entraram na jogada, entre eles o Papa Sixtus IV e o bispo de Pisa. Os interessados se encontraram no salão principal do Castello Del Trebbio, conhecido como “quarto da conspiração,” para detalhar o plano maquiavélico.

Os irmãos encontraram seus destinos durante a missa de 26 de abril de 1478. Mais de dez mil pessoas testemunharam a morte de Giuliano, que foi esfaqueado 19 vezes. Lorenzo também foi ferido gravemente, mas sobreviveu, pois um amigo o escondeu na sacristia da igreja até que ele conseguisse se recuperar e fugir para Nápoles, onde ficou a planejar sua vingança. Algum tempo depois, Lorenzo voltou à Florença e começou uma caça aos membros da família Pazzi que haviam escapado ao linchamento público ocorrido logo após o atentado. Quase 200 Pazzis foram mortos, enforcados na frente das suas casas ou de edifícios importantes da cidade. Não só as propriedades da família foram confiscadas, mas sua escudaria foi apagada das construções e o registro de seus feitos deletados de documentos públicos. Lorenzo preservou um único brasão Pazzi, a escudaria talhada por Michelangelo que enfeita o pátio principal do Castello Del Trebbio. Após a retaliação, ninguém mais ousou confrontar os Medicis, que permaneceram no poder por quase todo século XV. Outra consequência interessante da conspiração foi o surgimento de uma nova palavra italiana, “pazo” (que até hoje significa “louco”).

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Último brasão Pazzi

E o castelo? Bom, como os Medicis possuíam muito mais propriedades do que conseguiam usar, o Castello Del Trebbio foi esquecido, sendo aberto em parcas ocasiões como casa de veraneio. Porém, a história continua. Alguns séculos se passaram e em algum lugar da Áustria o conde Giovani Baj Macario de 60 anos embarcou em um trem para retornar às suas obrigações na Itália. Lá, ele se apaixonou instantaneamente por Eugenia, uma austríaca de 20 anos que viajava para aprender italiano. Sem querer desperdiçar tempo, os pombinhos se casaram algumas semanas depois e tiveram 6 filhos. Em 1968, enquanto a família passeava pelo interior da Toscana, o marido encontrou o castelo abandonado e resolveu presenteá-lo à esposa como demonstração de seu amor. Eugenia se apaixonou instantaneamente pela propriedade (todo mundo se apaixona rapidamente nesse país) e resolveu mudar a família para lá, dando início à renovação do castelo. Juntos, o casal frequentava feiras de antiguidade para comprar objetos de decoração da época dos Pazzi e dava início aos planos para a reconstrução da terra ao redor da propriedade. Enquanto o marido lidava com os engenheiros responsáveis pelas melhorias na estrutura da edificação, Eugenia começava uma pequena vinícola.

Infelizmente o drama do Castello Del Trebbio não termina aqui. Em 1990, conde Giovani faceleu naturalmente (ele já era velhinho, né?) e alguns meses depois, sua esposa de 43 anos foi morta em um terrível acidente de carro. Sozinhos em uma casa imensa e abalados pela morte dos pais, um a um os filhos deixaram a propriedade pela vida em outras cidades e o castelo voltou a fechar suas portas… Até o retorno de Ana, uma das filhas do casal, que após casar-se com Stefano, um produtor de vinho, resolveu voltar à casa dos pais e soprar-lhe vida. Ana deu continuidade à produção de vinho, implementou o cultivo de azeitonas e açafrão, transformou as casas dos antigos trabalhadores rurais em hotéis para turistas e comprou a parte da herança de cada um dos irmãos. Hoje a propriedade de 350 hectares produz 350 mil garrafas de Chianti, dos quais 60% são exportados. Eu tive o prazer de degustar algumas safras do Chianti e do Vino Santo do Castello Del Trebbio em um belo salão, logo após um tour pela “casa” de Ana e Stefano, cuidadosamente decorada com objetos de época e fotos do conde e condessa Baj Macario. Acho que agora dá para entender o meu fascínio pela Toscana, não?

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No porão do castelo há tesouros!

garrafas de vinho do pai de Ana

garrafas de vinho do pai de Ana

Depois dessa experiência, meus outros passeios pela região foram mais normais, porém não menos belos. Visitei Pisa durante uma tarde (a cidade é minúscula e só abriga a torre e a catedral de mesmo nome), comi a típica bisteca florentina (um steak gigante servido quase cru) com amigos do hostel e visitei as ruelas medievais de Siena, a cidade do famoso palio, por dois dias.  Apesar de ter ficado apenas uma semana na região, deixei a Toscana com uma sensação de leveza inacreditável, carregando comigo o significado das palavras do florentino Leonardo Da Vinci, “time stays long enough for anyone who will use it.”

Pulando na Torre de Pisa

Pulando na Torre de Pisa

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Praça do pálio de Siena

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Duomo rosado de Siena

 

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3 comentários em “Toscana, Itália: conhecendo Florença, Pisa e Siena

  1. Pingback: Vale do Loire e Bordeaux, terras mágicas francesas | Giros Por Aí

  2. Meus avós maternos, não deveriam ter saído da ITÁLIA , eu gostaria de ter nascido lá.

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