Ah, Budapest!

“É fácil, estique seu braço direito para cima e o esquerdo para baixo, aí você consegue segurar em alguma pedra para te ajudar a sair. E vire a cabeça para o lado, ou não caberá na passagem. Vamos lá, é só empurrar seu corpo com os pés!” Me sentindo uma minhoca por não poder usar os braços apertados contra o túnel, empurrei com os pés até conseguir passar pelo buraco na rocha e agarrar alguma pedra do outro lado com a mão direita, agora livre. Puxei o corpo para fora e passei as instruções para a próxima pessoa do outro lado do túnel. “Você é corajosa, sempre tenta primeiro,” disse o guia do caving. Corajosa ou maluca, não sei. Só adoro me desafiar. Já percebi que quando termino atividades mais arriscadas ou diferentes, como o hiking no desfiladeiro do Samária, ou o caving de quatro horas pelas cavernas do parque nacional Duna-Ipoly, me sinto em paz. Sim, tem a ver com adrenalina, mas também é minha maneira de marcar os lugares com algo diferente. Mudando de destino tão frequentemente, é normal embaralhar os vitrais das catedrais, os nomes das praças ou das baladas, mas dificilmente esquecerei os túneis subterrâneos da cidade, os cristais de calcário e fósseis de animais marinhos na parede e o desafio de acalmar a respiração para passar por uma abertura de poucos centímetros na rocha de calcário.

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O caving é feito no escuro

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Me espremendo para passar na fenda (a claridade é devido ao flash).

Para dar tempo de fazer coisas diferentes, mesmo que não tão radicais, tento conhecer um pouco da cidade assim que chego. O Free Walking Tour, um network de passeios sem custo (além das gorjetas para o guia) organizados pela United Europe Free Tours em praticamente toda Europa, é um jeito legal de explorar as cidades. Em Budapeste, além do tour original, que cobre dicas práticas sobre a cidade e um pouco de história, tem também o Free Communist Walk, que foca na herança do comunismo em Budapeste, e o Free Jewish Disctrit Walk, que passeia pelos bairros judeus analisando a participação da Hungria no holocausto. Eu fiz o Free Walking Tour original no meu primeiro dia e visitei os principais sites históricos do outro lado do Danúbio, como a igreja Matias e o castelo (que tem uma vista lindíssima da cidade). Também pude ver os vários edifícios antigos trabalhados (e os contrastantes caixotões da era comunista), a basílica de St. Stephen e pegar dicas interessantes sobre os melhores restaurantes e barzinhos.

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Vista do Castelo

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Budapest é linda

Como o foco histórico do tour era mais generalizado, aproveitei o restante da tarde para ir até a Casa do Terror (Terror Háza), um museu em homenagem as vítimas do holocausto e da repressão comunista construído no mesmo prédio usado pelos nazistas húngaros, e mais tarde pelos russos, para executar seus desafetos. A exposição é fortíssima, misturando várias ferramentas, como vídeos, mostras interativas, objetos históricos (inclusive um tanque), depoimentos e fotos, para tangibilizar o terror vivido dentro daquelas paredes.

Toda vez que mergulho nesse período histórico fico um pouco pesada e pensativa. Mais que a pergunta, “como a humanidade foi capaz de fazer isso?”, me aterroriza uma outra: “como a humanidade ainda é capaz de fazer isso?”

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House of Terror

Foi para aliviar essa tensão que no dia seguinte resolvi não fazer nenhum passeio histórico. De manhã, visitei o mercado municipal, sempre uma experiência cheia de cores e sabores. Experimentei um prato típico húngaro, ganso assado, e fiquei andando pelas lojinhas até o horário do caving. No dia seguinte, mais atividades relaxantes. Eu e a Lou, uma amiga filipina-kiwi-australiana (e tem gente que acha que a globalização ainda está para acontecer) que conheci em Berlim e reencontrei por acaso no hostel, tentamos entrar no parlamento sem sucesso. Os ingressos de dez euros para visitação são super limitados e você tem que chegar duas horas antes do tour se quiser entrar (não dá para comprar no dia anterior nem pela internet), ou seja, só tiramos fotos do lado de fora mesmo.

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Mercado municipal

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Ganso assado, uma delícia!

Para compensar a frustração, pegamos o metrô (o sistema de transporte público é super eficiente como em toda Europa) e fomos até o spa Széchenyi, o maior clube de águas termais da cidade. Além dos banhos internos, com piscinas de vários tamanhos e temperaturas, Széchenyi oferece uma grande piscina aquecida do lado de fora. Ficamos umas 3 horas enrugando na água quente, esquecendo que a temperatura do lado de fora girava em torno de dez graus, até o nosso estômago nos lembrar que não tínhamos almoçado.

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Spa Széchenyi

Eu e a Lou aproveitamos a fome para almojantar na rua Ráday, que tem boas opções de comida húngara a preços justos, já que muitos restaurantes tendem a cobrar mais dos turistas, assim como os taxistas (os mais exploradores da viagem até agora). Essa acabou sendo a última refeição do dia, já que à noite fomos para um barracão construído (ou seria desconstruído?) para ser um bar onde os coquetéis eram o foco. O Szimpla Pub era muito louco, com objetos estranhos reaproveitados como móveis (você já usou um cavalo de ginástica olímpica como mesa?), drinques baratos e música eletrônica. Ficamos bebendo e rindo das histórias bizarras de viagem o resto da noite.

Como a maioria do pessoal deixou o hostel no dia seguinte, acabei aproveitando a calmaria para descansar e fazer laundry (a máquina de lavar é sempre disputada nos hostels).  À tarde fui compensar a manhã de arrumadeira com uma degustação de vinhos na House of Royal Wines and Cellar Museum (Királyi Borház és Pincemúzeum) que fica no bairro do castelo. Além de provar várias variedades de uvas típicas da Hungria e fazer umas comprinhas, peguei um lindo por do sol que pintava os vários monumentos do caminho de volta de diferentes tons de vermelho.

A história dos lugares que tenho visitado geralmente me fascina, mas eu acabo indo embora com a sensação de saber muito pouco. Para sair do país com um pouco mais de conhecimento de causa, passei minhas últimas horas na cidade visitando o Museu Nacional de História Húngara, que retrata a história da Hungria do século XI até o fim da era comunista na década de 90. Além de aprender mais sobre o país, adorei a exibição paralela de manequins vestidos com roupas típicas de cada época, apresentando cada período de uma forma mais real.

No meio da tarde, voltei para o hostel correndo, comprei um turo rudi de caramelo e amendôas (um doce nacional super popular feito de queijo cottage e outros recheios e coberturas como morango e chocolate) e corri para a estação de trem para não chegar atrasada em meu próximo destino: Vienna com família, que delícia!

 

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3 comentários em “Ah, Budapest!

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