Surrealismo em Praga

Apesar de eu adorar viagens de trem – são mais rápidas, mais confortáveis e mais econômicas que andar de avião – a ida para Praga foi um tanto estranha. A paisagem do interior do país parecia retirada de um filme de suspense, com pequenas vilas cobertas pela neblina, construções abandonadas, campos extensos e florestas escuras. Como um último toque sinistro, enquanto passávamos por uma cidadezinha, uma alma desesperada se atirou na frente do nosso trem em movimento, tirando a própria vida. Uma alemã que rodava o mundo com o namorado australiano comentou que isso era bem comum por essas partes. Nosso outro companheiro de cabine, o Hermano, um produtor de filmes paulista super religioso, disse que em São Paulo suicídios no trilho do trem também são frequentes. O fato é que os personagens desse conto surreal compartilhariam um ponto em comum: todos chegariam meio abalados e com uma hora de atraso em Praga. Tentando levantar os ânimos, Hermano foi comprar uma cerveja enquanto eu fiquei escutando o casal contar sobre seus últimos quinze dias de trabalho em um circo itinerante da Austrália. Neblina, suicídio e circo. Sim, eu estava me aproximando da cidade natal de Kafka.

Precisando pensar em outra coisa que não na viagem dramática, resolvi matar o tempo até a chegada da Ju, que vinha de Budapest no fim do dia, com um tour alternativo oferecido por um funcionário do Sir Toby´s Hostel. O passeio de quatro horas levaria nosso grupo de 17 pessoas pelas ruas em volta do castelo, focando na vida dos tchecos atuais e nos diferentes estilos arquitetônicos da cidade. Parecia promissor, ainda mais por eu já ter feito um tour similar excelente em Berlim. Só faltou um detalhe nessa equação: nosso guia era um tcheco bipolar que contava para todos na recepção do hostel que sua (ex) namorada brasileira tinha lhe dado um pé na bunda. Resultado, além da falta de foco do tour (em dado momento o guia parou em uma loja de souvenires para mostrar um desenho que ele tinha dado para a irmã), eu e dois outros brasileiros, o Lucas, um cineasta de Curitiba, e Fernanda, uma produtora de moda carioca, fomos simplesmente aterrorizados. O guia se irritava quando o Lucas batia fotos, falou mal do Brasil para a Nanda, ignorou nossas perguntas e era ríspido a toda oportunidade. O ponto alto do passeio acabou sendo tão excêntrico quanto o tal tcheco bipolar: uma visita ao museu sobre a vida de Jára Cirman, um personagem fictício inventado por três atores tchecos em 1966 que acabou virando herói nacional. Imagine se o cara realmente existisse.

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ruas de Praga

Nosso grupo acabou fugindo do passeio bizarro, refazendo o caminho pela cidade a pé. Fomos ao palácio Lobkowicz chegando bem a tempo da troca de guarda, andamos pela ponte Charles, construída em 1357 e adornada com várias estátuas do século XVIII e tiramos milhares de fotos da arquitetura da cidade que é realmente única. Com elementos góticos, de arte barroca, art noveau, rococó e renascentistas em edifícios lado a lado, quem visita a cidade pela primeira vez tem a impressão que um roteirista mal informado sobre os períodos arquitetônicos montou seu set de filmagens por lá. Na verdade, a mistura de tantos estilos se dá à preservação das construções realizadas durante mais de 1000 anos de desenvolvimento de Praga, o que empresta à cidade sua paisagem impressionante.

Mais à noite, eu e uma versão cansada da Ju desistimos da segunda ideia de girico do dia (um pub crawl improvisado com 20 pessoas do nosso hostel) para caminhar pelo centro histórico à luz da lua. Foi uma sábia decisão. Andar por entre as estátuas góticas cobertas de fuligem preta e poder apreciar a vista noturna da ponte Charles sem nenhum visitante além das gaivotas que sobrevoavam nossas cabeças foi uma experiência única e fantasmagórica.

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Vista Ponte Charles

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Cidade fantasmagórica e linda

No dia seguinte, a Ju foi fazer um free tour (como em Berlim, toda cidade tem ótimos tours onde o único custo é a gorjeta para o guia) e eu aproveitei para resolver algumas coisas. Nos reencontramos às 19 horas na praça do centro antigo, que como nos grandes pátios das cidades medievais, estava repleta de músicos, pequenas apresentações de teatro, comida de rua, uma igreja imponente (a Týn Church), e muito agito.  É lá também que fica o Orloj, um relógio astronômico que além de representar a posição do Sol e da Lua no céu e de vários corpos celestes, apresenta um pequeno espetáculo ao badalar de cada hora cheia, a chamada ”Caminhada dos Apóstolos”, um show com as figuras dos apóstolos e outras esculturas em movimento. Apesar do local ficar repleto de turistas com suas máquinas fotográficas, é melhor assistir a mudança de hora em um restaurante de frente para a igreja, já que o evento não é exatamente um show imperdível. Além desse famoso relógio, há vários outros pela cidade, entalhados em monumentos e templos religiosos. Acho que os tchecos são mais obcecados pelas horas que os ingleses.

Para completar a visão histórica de Praga, visitamos o famoso castelo na manhã do dia seguinte. Se você for até a cidade, não espere um castelo tradicional com torres e salões a la França ou Walt Disney. O castelo, na verdade, é um bairro que incluiu a catedral de S. Vito, o palácio Lobkowicz e o convento de S. Jorge. A entrada custa 250 coronas (ou 11 euros), mas você pode apreciar as construções e visitar a ante-sala da catedral, que é lindíssima, sem gastar nenhum centavo. Nosso outro plano para o dia incluía assistir uma apresentação do teatro de luz negra, no qual atores e dançarinos com roupas e acessórios fluorescentes se apresentam na escuridão. A arte, fruto do movimento dadaísta, tornou-se popular em Praga durante o renascimento cultural propiciado pela Primavera de Praga (1968), sendo mais tarde abolida pelos comunistas. Com seu ressurgimento em 1989, vários teatros abriram suas portas na cidade. Infelizmente, o mais famoso, o Image Black Theatre, estava lotado, entrando para a lista de passeios deixados para uma segunda visita à Praga.

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Catedral S. Vito

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Vitrais

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Vida local

Na sexta, no último dia de férias da Ju, acordamos cedo para caminhar pelas sinagogas, cemitérios e redutos de Franz Kafka no bairro judeu. No entanto, como os sites estavam fechados para o feriado judaico de Sucot, andamos só pela Parizska, a rua de compras mais luxuosa da cidade. Nunca vi tantos cristais da Bohemia ou Swarosvki em um mesmo lugar! A loja mais bacana, a Blue Praha, vendia objetos de vidro e cristal com um toque mais moderno, inclusive com uma artista local que ia modelando o vidro enquanto passeávamos pela loja. Vale a pena visitar.

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Trabalho minucioso nos vidros e cristais

Depois de uma siesta preguiçosa no hostel, fomos jantar na Stare Mesto, a praça do centro antigo. Escolhemos um restaurante com uma comida barata e gostosa, mas que tentou nos cobrar por couverts que não consumimos, prática comum nos points em volta da praça principal. Desfeita a confusão com os atendentes, que em Praga nos pareceram todos um pouco antipáticos, corremos para a Ópera Státni. Porém, nossa tentativa de chegar no horário foi frustrada por um fiscal do metrô. Eu tinha esquecido de validar meu ticket do dia na maquininha. Resultado: 30 euros de multa e 15 minutos perdidos. O crime, mesmo sem querer, não compensa.

Apesar dos obstáculos, assistimos boquiabertas à ópera de Mozart, A Flauta Mágica, acompanhando atentamente o palco e a tela com traduções em inglês. No intervalo, todos saboreavam champagne com canapés e por um minuto achamos que havíamos gasto bem mais que 30 euros por nossos lugares. Foi ótimo terminar a viagem por Praga com algo mais glamouroso e em ótima companhia. Voltamos para o hostel embaladas pela cantoria da ópera, para o azar daqueles que nos ouviram cantando e pulando pelas calçadas.  Será que estamos enlouquecendo? Não, deve ser somente culpa do frio, já que a cidade à noite chegava a um grau abaixo de zero, ou quem sabe da cidade em si, sempre envolta em um certo surrealismo.

 

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