A tradicional Freiburg vs a vanguardista Berlim

As outras duas cidades que visitei na Alemanha não poderiam ser mais diferentes uma da outra. Freiburg, um pequeno centro universitário com 210 mil habitantes, foi meu retiro da Oktoberfest. Meu plano original era passar um dia nessa típica cidadezinha alemã e depois ficar entre as vilazinhas da Floresta Negra, fazendo trilhas e apreciando a paisagem. Mas a Oktober sugou minhas energias e assim que cheguei em Freiburg passei as primeiras horas hibernando. Aí a preguiça se instalou de vez e resolvi ficar por lá mesmo, andando pelas calçadas com mosaicos de pedrinhas, tirando fotos das casas típicas com flores nas jardineiras, e experimentando os deliciosos pães alemães (meu predileto é polvilhado de sementes de abóbora, o – preparem-se para o palavrão – kürbiskernlaungenstange).

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Restaurante em Freiburg

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Calçadas com mosaicos de pedrinhas: ano em que nasci!

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Freiburg: bike city

Deixar esse cenário bucólico por Berlim foi um choque em vários sentidos. Enquanto Freiburg poderia ser rotulada como uma cidade tradicional, Berlim foge de qualquer estereótipo. Aliás, tive dificuldades em encontrar palavras para descrever como me senti por lá. A verdade é que Berlim mexe com você. A cidade em si não é nada bela, considerando a concepção usual de organização, arquitetura e paisagem. A beleza nesse caso não é óbvia, ela vem envolvida em um passado complexo e dolorido, meio como o filme Beleza Americana.

Conhecida como sin city dos anos 20, a Berlim pós primeira guerra mundial fervilhava com cabarés vendendo drogas e qualquer fantasia sexual. As histórias que ouvi dessa época são bizarríssimas. Depois, veio a ascensão de Hitler, os campos de concentração (visitei um próximo à cidade) e a segunda guerra. E, em uma história mais recente, a construção do muro de Berlim em 1961. Chamado pelos comunistas da época de Fortaleza Protetora Antifascista, o muro foi na verdade uma tentativa de impedir o êxodo de berlinenses da parte oriental da cidade (cerca de 1.500 pessoas fugiam para a parte ocidental por dia).

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Muro de Berlim

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História dolorosa

A separação – no começo feita de arame farpado e barricadas, depois envolvendo dois muros de concreto e patrulhas – criou uma ilha ocidental dentro da capital. Famílias foram separadas, pessoas perderam o emprego e todo um povo foi alienado. Com a reunificação da cidade no final de 1989, Berlim, agora mergulhada em dívidas contraídas pela parte oriental e com população declinante, precisava reinventar-se. Em uma tentativa de reconstruir a cidade, o governo alemão ofereceu dispensa do serviço militar àqueles que emigrassem para a capital. Como resultado, a cidade recebeu milhares de artistas, músicos e outros intelectuais, para quem a dispensa era significativa. Essa influência artística usou o passado aberto como combustível e pintou uma nova Berlim, cheia de galerias de arte (há mais galerias aqui do que em Manhattan), gastronomia diversa e música.

A falta de empregos ainda é sentida (a taxa de desemprego é de 13%), mas o título recém conquistado de terceiro ponto turístico mais visitado da Europa renova a esperança dos berlinenses. Eu, com certeza, pretendo voltar. Apesar de ter visitado muitos museus, galerias, restaurantes, lugares históricos como o parlamento e um campo de concentração, ainda há uma lista de eventos menos óbvios a serem explorados. Como o tour onde você explora as galerias alemãs e a arte urbana, o grafitti nos muros da cidade, com os próprios artistas. Ou o club crawl onde alguns DJs te levam para as melhores baladas, em uma tentativa de consolidar o argumento de que o techno nasceu aqui e não em Detroit. Ou ainda o bate papo com historiadores da resistência alemã durante a segunda guerra.

Berlim é uma cidade mutante e complexa e eu espero poder descobrir suas outras facetas com os amigos que fiz por aqui em breve. E para quem estiver vindo para cidade nos próximos meses, sugiro ficar no The Circus Hostel, um lugar que engloba as várias influências da cidade e que tornou minha estadia aqui uma delícia.

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Campo Concentração

 

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Feirinha com pães deliciosos

 

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