Eu amo a Grécia!

Os caras do centro de informações do ponto de ônibus de Thira pareciam ter saído de um filme sobre a máfia. Óculos escuros espelhados, barba por fazer, crucifixo no peito e camisa social, nenhum deles sorria ou tirava os óculos quando alguém perguntava como comprar o ticket, ou onde estavam os horários de saída dos ônibus. Eles não pareciam pertencer ao lugar, uma casinha amarela de uns 3 metros quadrados escrito “informações” em grego. No calor ainda escaldante de Santorini, todos os três informantes estavam bem vestidos demais para ocasião. O que tinha uma pinta na bochecha resmungava para uma velhinha o preço da passagem e tive o impulso de imitar o gangster Jelly no filme Máfia no Divã: “Barabi, barabum.”

Olhei pro lado e fiquei quieta, era a primeira vez que explorava a ilha sozinha. Como vim a descobrir, viajar sozinha é um oximoro. Tem sempre uma multidão de viajantes aonde quer que você vá, gente bacana que quer dividir estórias – e quem sabe um táxi – com você. Pessoas nas quais esbarramos por aí, em hostels, restaurantes ou na praia. Eu esbarrei no Gabriel e no Lucas no ferry de Bodrum para Kos. Como é bem comum nessas viagens, um “tudo bem?” virou um “bate essa foto para mim?”, “quanto tempo vocês estão viajando?” e inúmeros papos sobre viagens. Chegando na Grécia, a polícia alfandegária achou nossa recém amizade muito bonita, e resolveu nos unir ainda mais, nos escolhendo entre os duzentos passageiros de várias nacionalidades para sermos os únicos farejados por um pastor alemão. Aaaah, nada como a fama dos brazucas mundo a fora!

Meio fazendo piada, meio xingando, descobrimos como sair do porto juntos e acabamos no mesmo hotel, já que os meninos estavam viajando no improviso e não sabiam que a ferry de Kos para Santorini, aonde eles queriam ir, só saía às segundas, ou seja, no dia seguinte. Resolvemos aproveitar o restante do dia para ver uma praia mais ao sul de Kos, de areia branca e mar azul. A paisagem era lindíssima, com montanhas ao fundo, mas a quantidade de pessoas de terceira idade era absurda. Para onde olhávamos tinha um par de avôs deitado, uma nona fazendo topless ou um vovô comprando sorvete. Tínhamos ido parar no filme Cocoon! Achei que era algo particular dessa praia, mas descobrimos que a ilha tinha muitos habitantes mais velhos e que muitos outros visitavam Kos nessa época, aproveitando que as aulas tinham recomeçado na Europa e que a maioria dos party-travellers já tinham voltado para casa com o fim da alta estação.

Image

Praia em KOS

No dia seguinte, já que o ferry para Santorini só saía à noite, fomos explorar os sites históricos da cidade. Ficamos horas procurando a tal árvore de Hipócrates, que supostamente é a árvore mais antiga da Europa, onde Hipócrates, o pai da medicina, ensinava seus discípulos. Não encontrávamos a bendita planta de jeito nenhum e, quando estávamos quase desistindo, nos demos conta que já tínhamos passado por ela, só não tínhamos visto porque a árvore já está bem minguada, não correspondendo à descrição de “imponente espécime” dos guias. Bom, uma árvore é só uma árvore e essa realmente não tinha nada demais. Na frente dela, no entanto, vimos o forte de Kos, construído pelos cavaleiros da ordem de S. João de Jerusalém para guardar a baía da cidade. A edificação até que era interessante, com as escudarias da ordem talhadas nas paredes de pedra em várias partes do forte. Porém, como na ilha turca de Kisebuku, o lugar estava muito mal cuidado, o mato tomando boa parte do forte. Em alguns cômodos lembrava mais um passeio botânico que histórico.

Image

Árvore de Hipócrates

Apesar de termos passado pouco tempo na ilha, gostei muito do clima, que lembra regiões tropicais do Brasil. As pessoas são bem relaxadas e o centro é muito limpo. Com 20 mil habitantes, é até considerada uma ilha populosa (Santorini, por exemplo, tem uma população aproximada de 14,5 mil residentes), mas eu teria que passar mais tempo por lá, conhecendo outras praias e lugares, para poder dar uma opinião mais concreta sobre a cidade.

Às 20:30 embarcamos para Santorini em uma das ferries da Blue Star, companhia de embarcações que liga todas as ilhas gregas. Estávamos esperando um barquinho normal, com no máximo um deque superior para admirar a paisagem, assim como o de Bodrum para Kos. Uns quinze minutos antes do horário, um barco gigante de quatro andares atraca. Olhando do porto parecia um cruzeiro. Os passageiros começaram a correr e se apinhar na frente do portão de embarque num frenesi aparentemente sem sentido, já que a compra do bilhete é por tipo de classe, com lugar de sobra para todo mundo. Bom, aparentemente, pelo menos. Apesar da compra ser por classe, nenhum funcionário realmente checa os bilhetes, então é cada um por si. Só depois de algumas horas na classe cachorrão, onde todo mundo fuma, fomos descobrir o esquema e passamos para as poltronas do andar de baixo para tomar um vinho. Tivéssemos sabido disso antes, a viagem de 5 horas teria sido bem mais confortável, já que fomos uns dos primeiros a chegar no porto.

Todos os clichês sobre Santorini são verdade. A água tem um tom de azul turquesa cristalino não importa aonde você vá, o céu nunca está nublado, e o pôr do sol é um evento, onde as pessoas se reúnem para tomar um vinho e batem palmas ao final. Eu fiquei em Oia (pronunciado “Ia”), considerada a vila mais bonita da ilha, e tenho que concordar. Oia é menor que Thira (a principal cidade de Santorini onde a concentração de turistas é maior), sendo famosa pela vista dos hotéis e das casas nas caldeiras, as colinas ou desfiladeiros de frente para o mar que enfeitam a maioria dos cartões postais. O Oia Youth Hostel, onde nos hospedamos, oferecia um happy hour no terraço durante o pôr do sol, e foi lá que nosso grupo brazuca conheceu a Nadia, da África do Sul.

Image

Igrejinhas de Santorini

Image

Em Oia

Nós quatro fomos para Amoudi Bay, uma plataforma de pedra bonita e pequena na frente de uma ilhota, almoçamos frutos do mar pago por quilo (você escolhe o que comer em uma espécie de aquário e eles pesam para você) e fomos para Red Beach, uma praia de areia vermelha que fica entre desfiladeiros de lava consolidada. Como a ilha em si é fruto das atividades sísmicas que ocorreram por volta de 1630 a.C., quando 90 bilhões de toneladas de magma foram despejadas no mar em poucos dias, as praias não são de areia branca, mas sim de pedrinhas, areia preta ou vermelha. Tem inclusive um passeio de barco para o vulcão mais próximo que dizem que é muito legal, mas eu acabei não indo porque só peguei as informações no final da viagem. Uma próxima vez, quem sabe.

Image

Red Beach

À noite fomos explorar os barzinhos de Thira de ônibus (a 2 euros o ticket e com ar condicionado, é um jeito barato e prático de andar pela ilha, apesar dos motoristas com jeito de gangsteres que gritam o tempo todo para a sardinha humana passar para a parte de trás do ônibus). A Nadia sugeriu um bar/balada chamado Highlander. O lugar era bonitinho e barato (sem entrada, você pagava 8 euros pelo primeiro drinque e ainda ganhava o segundo de graça), mas o DJ era um pouco esquizofrênico. Como resumiu o Gabriel, “certeza que o cara simplesmente deixou o iPod tocando.” Musiquinhas jovem pan, R&B, uma miscelânea só! No meio da balada um cara chegou vestindo uma bóia de pato de borracha na cintura! Como ainda não estávamos tão bêbados quanto o lugar parecia requerer, fomos embora para aproveitar melhor o dia seguinte.

Os meninos iam para Mykonos de manhã e a Nadia tinha voo marcado de volta para Cape Town à tarde, então me despedi da galera e fui visitar Perissa Beach. Perissa é uma praia mais jovem, cheia de barzinhos e com cadeiras e guarda-sóis espalhados pela areia preta. Você paga 7 euros pela diária da cadeira mais guarda-sol e ainda ganha um drinque. Deitada na cadeira ao lado, estava uma americana terminando uma bebida e fazendo topless. Apesar da parte superior do biquíni ser item supérfluo nas maiorias das praias em que estive, tenho certeza que qualquer um dos meus amigos solteiros proporia casamento para Emma ali mesmo. Como ela estava de partida, conversamos pouco, mas com tempo suficiente para trocarmos livros. Eu ganhei o Those Who Save Us e passei One Day adiante. A maioria dos viajantes carrega um livro só para depois trocar com alguém ao longo do caminho, o famoso book swap, um desses pequenos detalhes que tornam a viagem ainda mais interessante.

Image

Perissa Beach

No dia seguinte deixei Santorini, a ilha paradisíaca, por outra ilha grega, Creta. Escolhi ficar no pequenino hotel Villa Venezia por causa da vista para o porto veneziano de Chania. O lugar é incrível, totalmente diferente das outras ilhas. O nome não poderia ser mais apropriado, você esquece que ainda está na Grécia e não na Itália. O porto antigo tem vários restaurantes bacanas de frente para o mar, com muitas opções de mariscos, peixes e outros tipos de carne, tudo mais barato que em Santorini. Nas vielas paralelas à rua do cais, vários outros bares e lojinhas, também lindos! O meu hotel tinha uma porta secundária que dava para um desses becos. Toda vez que eu usava essa saída tinha a impressão que estava no set de algum filme, ou talvez fazendo uma ponta no musical do Fantasma da Ópera.

Image

Veneza? Não, Chania.

Image

Porto antigo de Chania

Image

Vista linda do meu quarto

Perto de Chania também fica o desfiladeiro da Samária (Samaria Gorge), uma trilha magnífica de 16 km entre as montanhas. Uma das inglesas que conheci no cruise da Turquia insistiu que o passeio valia as cinco a seis horas gastas caminhando em pedras ladeira abaixo. O passeio não é caro, 5 euros de entrada e 9 euros para voltar de barco, e é bom levar comida pois não há nenhuma loja dentro do desfiladeiro. A vista é realmente inacreditável, mas você tem que ter bom condicionamento físico e joelhos fortes se quiser encarar o caminho. Quando eu cheguei a pensar que estava alcançando um bom ritmo, uma senhora de cabelos grisalhos passou correndo por mim, saltando entre as pedras. No final da trilha, lá estava a mesma senhora, tomando uma cerveja com Emma, a menina que tinha trocado livros comigo em Perissa Beach. Eu e Emma ficamos fascinadas com as histórias de Aremati, que já havia completado o trajeto oficial do Samária sete vezes, e mais outras dez vezes no sentido contrário, de baixo para cima. Com 73 anos, essa grega porreta tentou o percurso pela primeira vez com 68 anos, levou quase 8 horas e ficou uma semana com dor nas pernas. Hoje, ela sempre é a primeira a chegar.

Image

Descendo o desfiladeiro da Samária

Image

O lugar é lindo

Image

Eu, Aremati e Emma

Depois do nosso reencontro inesperado no Samária, eu e Emma aproveitamos a companhia uma da outra para conhecer algumas praias e restaurantes de Creta. Foi um dia calmo, passado em sua maioria na Agia Apostolis, uma praia sem ondas a 10 minutos de Chania que vale a pena visitar se você só quer relaxar, ou se está praticamente sem andar, o que era o nosso caso.

Image

Comida deliciosa nos restaurantes de todas as ilhas gregas

No fim do dia Emma seguiu viagem para encontrar seu namorado (sorry, guys!) e eu peguei o avião para Atenas, meu último destino na Grécia. Eu sempre quis visitar a cidade antiga pela conexão com a filosofia, mas mesmo se você nunca chegou perto de um livro sobre Sócrates é legal ir até o Paternon na Acrópolis, a ruína que mais reflete a grandiosidade do passado grego.  A entrada custa 12 euros, dura quatro dias e vale para todos os outros sites arqueológicos, mas se você tem pouco tempo e muita disposição dá para visitar tudo a pé em um único dia. O novo Museu da Acrópolis também é outro passeio interessante, apesar de não estar incluso no ticket geral de visitação das ruínas. Organizado cronologicamente, com informações históricas pertinentes e concisas, o museu mostra as mudanças na Acrópolis com o passar do tempo, inclusive com maquetes completas das edificações em cada período histórico. Valeu os cinco euros do ingresso.

Image

O Paternon

Image

As ruínas estão espalhadas por toda cidade

Para fechar minha estadia na Grécia com algo típico, fui experimentar a versão grega da Yogland. Uma delícia! Além dos toppings normais (chocolate, biscoito etc) eles tem quase 20 tipos de compotas grossas de frutas. Aliás, o iogurte e o queijo (geralmente o feta, que eu adoro) são consumidos em praticamente todas as refeições, misturado em vegetais, carnes e saladas, ou como sobremesa! O que me lembra da última observação sobre o país: se você tem intolerância à lactose, a Grécia não é para você! Hehehe.

Image

Yogland grega

 

comments2

Anúncios

2 comentários em “Eu amo a Grécia!

  1. Pingback: Cruise na Croácia com amigos | Giros Por Aí

  2. Pingback: Entrevista da semana | Giros por Aí | ABBV | Associação Brasileira de Blogs de Viagem

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: