Bodrum, Turquia: Viagens na Viagem

Você compra um ticket para um lugar específico e, de repente, vai parar em vários outros lugares. Quando eu comprei o passeio de barco de sete dias com a Bodex Yatching, achei que iria sair de Bodrum e conhecer a região da Turquia chamada de Costa da Lícia, mas eu acabei em terras capixabas, catarinas e principalmente inglesas. Já explico.

O plano era sair de barco e ficar uma semana curtindo o sol, as baías desertas, o mar transparente e as várias ruínas da região. Só que pisar em Bodrum foi como voltar a um lugar conhecido: tinha certeza que o avião tinha pousado em Vitória. O painel eletrônico do minúsculo aeroporto acusava a primeira semelhança, temperatura 35 graus! Eu sentia o jeans colando instantaneamente na parte de trás da minha coxa e, como em Vitória, comecei a rezar por um biquíni.

Se Istambul faz charme para o tradicional e o moderno, Bodrum pulou a cerca de vez. Tinha certeza que o mapa estava errado, eu tinha voltado para o Brasil. E mais! Era carnaval. Eu podia jurar, passeando pelos barzinhos da orla lotados de mulheres em micro vestidos, que eu estava em Camboriu ou Floripa. A primeira noite a bordo confirmou minhas suspeitas. Enquanto eu tentava aproveitar o silêncio do barco para dormir (os outros 10 passageiros só chegariam no dia seguinte), a música eletrônica rolava solta nas baladas até às 4:30 da manhã, uma hora antes do primeiro ezan (o chamado para as rezas que acontecem 5 vezes ao dia) começar. É óbvio que não consegui pregar o olho.

Image

Baladas suntuosas em Bodrum

No dia seguinte, uma versão zumbi minha subiu ao deque para tomar café e reconhecer a terceira viagem paralela do meu passeio, os outros 10 passageiros eram todos ingleses. O barco tinha sido declarado território britânico. Me diverti muito com o humor inglês, as gin twins (duas amigas aproveitando as férias na Turquia), os livros doados (li um inteiro chamado The First Hand that Held Mine e ganhei outro para a estrada chamado One Day), os copos de gin & tonic e a quantidade de “please”, “thank you” e “lovely” ditas nas refeições (jurava que estava tomando café com William, Kate e sua família). Também passei dias tentando decifrar os vários sotaques! Terei que perguntar ao professor Google como um país tão pequeno pode ter mais de 20 sotaques diferentes.

Image

Vida difícil a bordo

Juntos, eu e minha família real temporária exploramos ilhas inabitadas com praias de pedras, mergulhamos nas águas transparentes, pescamos peixe para o jantar e visitamos a ilha de Cleópatra, onde a famosa rainha se encontrava com Marco Antônio. No quarto dia saímos de van (depois de jipe, depois de barco, depois de jipe de novo) para fazer um tour pelas tumbas dos licianos, esculpidas durante mais de cem anos em montanhas de calcário (e você aí reclamando do seu emprego) e para ver as tartarugas gigantes da região que estavam na área para colocar ovos.

Depois de um dia tão abafado e agitado, é lógico que o único jeito de terminar o passeio seria com um banho de lama, certo? Um banho de lama? Sim, aparentemente gringos de países diversos acham isso o máximo. O cheiro de enxofre das águas térmicas do lugar, a meleca cinza fazendo bolhas ao ser agitada por dezenas de pessoas se esfregando na piscina (ou lamaçal) não me incitaram de jeito nenhum e acabei sendo uma das únicas a não mergulhar na mistura de cor duvidosa. Achei que o dia acabou sendo muito longo e cansativo, planejado para grupos de turistas típicos. Em uma próxima vez, deixarei o tour completo de lado e pagarei alguém para me levar de barco somente às tumbas, que são realmente magníficas.

Image

Ilha Cleópatra

Image

Tumbas da Costa da Lícia

Image

Banho de Lama

Experimentamos uma aventura mais real no dia seguinte. Na sexta pela manhã o barco ancorou em uma pequena baía chamada Kisebuku. A tripulação anglo-brazuca, enjoada de tanto tempo a bordo, decidiu explorar a pequena ilha. Logo descobrimos inúmeras ruínas intactas, mas abandonadas. As placas explicativas haviam sido retiradas de suas molduras, havia lixo por toda parte e nada mais. Começamos a inventar histórias para cada casa, fortaleza, ou edificação não-identificada (achamos algo que lembra um iglu de pedra completamente preservado). Por que será que esse local repleto de história (as ruínas estavam em melhor estado do que as da ilha de Cleópatra, por exemplo) foi deixado para trás? Recorremos ao oráculo Google, que, dessa vez, nos desapontou. A única coisa que descobrimos é que o site arqueológico pertenceu aos Bizantinos. O que será que aconteceu na ilha? Quem morava ali? Qual era sua vida? Começamos a viajar na história do lugar, criando hipóteses, relembrando nossa própria efemeridade. Afinal, um dia também não estaremos por aqui. Que tipo de ruínas ficará em nosso lugar? Será que alguém se importará em descobrir?

Image

O misterioso iglu

Depois da sexta fantasiosa resolvemos curtir nosso último dia no mar com algo mais mundano: bebidas, sol e música. Passamos o sábado morgando no barco sem culpa, contando piadas e bebendo, aproveitando as últimas horas das férias conjuntas que, sem a tripulação inglesa, nunca teria sido tão divertida. Assim que o sol nasceu no domingo desembarcamos em Bodrum novamente. As gin twins me convidaram para ficar por lá e checar as baladas, mas eu já tinha um outro destino que desde sempre me fascina: a Grécia.

Image

Nosso barco

Image

As refeições eram verdadeiros banquetes!

 

comments2

Anúncios

3 comentários em “Bodrum, Turquia: Viagens na Viagem

  1. Pingback: Cruise na Croácia com amigos | Giros Por Aí

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: